31.7.04

À BEIRA-MAR

Quando, há muitos anos, comecei a escrever no Semanário do Victor Cunha Rêgo, "estreei-me" com um texto arrancado à leitura de um livro do Joaquim Manuel Magalhães, Os Dois Crepúsculos (Ed. A Regra do Jogo), depois de uma saborosa conversa na extinta "Ferrari" da Rua Nova do Almada. Mais propriamente -porque estávamos em Agosto, o mesmo Agosto que amanhã começa -, a um ensaio intitulado Sobre Praias. Ocorreu-me esta pobre lembrança depois de ler no Abrupto o "post" O Mar. Contrariamente ao que sugere Pacheco Pereira, não há nada de "reaccionário" nas suas belas três linhas sobre o mar "abstracto", que não é mais do que isso, a solidão não invadida. Eu não sei se o autor leu o ensaio do Joaquim, escrito no final dos anos 70. As suas três linhas, afinal, são um inesperado "sumário" desse ensaio. Ano após ano, a "balbúrdia" e a "praia dos corpos" acentuam a morte lenta do "fio do horizonte", tapado pela multidão dos indiferentes a que só se vê em linha recta. Pergunta o Joaquim: com que nomes chamaremos as centenas de seios fazendo malha, o punhado de meninas espremendo-se para o punhado de meninos que escarram de perna aberta e vêem quem corre mais, o cerco de pilosas barrigas aguardando as lautas digestões para meter o cu no mar? E continua. Eu não estou a defender que as praias sejam só para alguns, nomeadamente os que, por educação, se sabem servir delas.(Embora fosse bom que todos os que dela se sirvam, tivessem sido educados em equilíbrio.) O que estou é a dar voz ao pavor, talvez pessoal, sem dúvida aumentado pela mediocridade das situações, de nelas assistir à massificação dos desejos. O crescente desaparecimento da ideia de no verão se fazer outra coisa senão ir à praia é o equivalente de julgar que se não merece um ordenado se não se trabalhar as horas que o sindicato manda, que se não pode ousar o que ousam os homens por se ser mulher, que se não deve nunca desligar a ideia de sexo da de procriação. Ao mesmo tempo, não deixa de ser assustador pensar que meio país passa um mês não a realizar um projecto que durante o ano o trabalho não lhe deu tempo a pôr de pé, mas a estourar horas, entre refeição e refeição, entre sesta e sono, sem querer um pouco mais além, sem sequer fazer dessa atitude uma filosofia que, se o fizesse, não viveria assim. Uns chamam a isto o acesso das massas ao lazer. Eu chamo-lhe o vazio.(...) É isto a sociedade de massas: promover que todos queiram a mesma coisa, até ao ponto de todos exigirem de si que queiram a mesma coisa que todos. Quer se planifique o desejo, quer se faça dele mais-valia, vai tudo dar ao mesmo montão de gente que, neste caso, está à beira-mar.

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À BEIRA-MAR

Quando, há muitos anos, comecei a escrever no Semanário do Victor Cunha Rêgo, "estreei-me" com um texto arrancado à leitura de um livro do Joaquim Manuel Magalhães, Os Dois Crepúsculos (Ed. A Regra do Jogo), depois de uma saborosa conversa na extinta "Ferrari" da Rua Nova do Almada. Mais propriamente -porque estávamos em Agosto, o mesmo Agosto que amanhã começa -, a um ensaio intitulado Sobre Praias. Ocorreu-me esta pobre lembrança depois de ler no Abrupto o "post" O Mar. Contrariamente ao que sugere Pacheco Pereira, não há nada de "reaccionário" nas suas belas três linhas sobre o mar "abstracto", que não é mais do que isso, a solidão não invadida. Eu não sei se o autor leu o ensaio do Joaquim, escrito no final dos anos 70. As suas três linhas, afinal, são um inesperado "sumário" desse ensaio. Ano após ano, a "balbúrdia" e a "praia dos corpos" acentuam a morte lenta do "fio do horizonte", tapado pela multidão dos indiferentes a que só se vê em linha recta. Pergunta o Joaquim: com que nomes chamaremos as centenas de seios fazendo malha, o punhado de meninas espremendo-se para o punhado de meninos que escarram de perna aberta e vêem quem corre mais, o cerco de pilosas barrigas aguardando as lautas digestões para meter o cu no mar? E continua. Eu não estou a defender que as praias sejam só para alguns, nomeadamente os que, por educação, se sabem servir delas.(Embora fosse bom que todos os que dela se sirvam, tivessem sido educados em equilíbrio.) O que estou é a dar voz ao pavor, talvez pessoal, sem dúvida aumentado pela mediocridade das situações, de nelas assistir à massificação dos desejos. O crescente desaparecimento da ideia de no verão se fazer outra coisa senão ir à praia é o equivalente de julgar que se não merece um ordenado se não se trabalhar as horas que o sindicato manda, que se não pode ousar o que ousam os homens por se ser mulher, que se não deve nunca desligar a ideia de sexo da de procriação. Ao mesmo tempo, não deixa de ser assustador pensar que meio país passa um mês não a realizar um projecto que durante o ano o trabalho não lhe deu tempo a pôr de pé, mas a estourar horas, entre refeição e refeição, entre sesta e sono, sem querer um pouco mais além, sem sequer fazer dessa atitude uma filosofia que, se o fizesse, não viveria assim. Uns chamam a isto o acesso das massas ao lazer. Eu chamo-lhe o vazio.(...) É isto a sociedade de massas: promover que todos queiram a mesma coisa, até ao ponto de todos exigirem de si que queiram a mesma coisa que todos. Quer se planifique o desejo, quer se faça dele mais-valia, vai tudo dar ao mesmo montão de gente que, neste caso, está à beira-mar.

30.7.04

CAOS

Um bom amigo enviou-me a seguinte "sms", laudatória dos tempos que correm e da autoria desse grande "civilizador" que foi Mao Tse Tung (ou Zedong, para os íntimos, tipo José Barroso):

Tudo debaixo dos céus está num caos total, a situação é excelente

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CAOS

Um bom amigo enviou-me a seguinte "sms", laudatória dos tempos que correm e da autoria desse grande "civilizador" que foi Mao Tse Tung (ou Zedong, para os íntimos, tipo José Barroso):

Tudo debaixo dos céus está num caos total, a situação é excelente
SER DIFERENTE
 
Em qualquer país minimamente desenvolvido, a demissão do director da polícia civil teria mais cobertura jornalística do que as filas para a Madonna. É uma área que tem que ver com os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, coisa que as pessoas só se lembram quando lhes convém. Dito isto, não me parece que haja nenhum mistério particular na saída aparentemente intempestiva do Sr. Juiz director-nacional da PSP. O mundo das polícias, da justiça e das informações é um mundo onde se movem indistintamente muitos magistrados, uns judiciais, outros do venerando Ministério Público. E movem-se, embora digam o contrário, "politicamente". Como facilmente se adivinha, não são propriamente corporações que nutram entre si a maior das estimas, apesar de ambas possuírem, em elevadíssimas doses, uma enorme e vaidosa "auto-estima". Acham-se obviamente subtis. Mário Morgado, o juiz demissionário, nunca se entendeu bem com a polícia, nem esta com ele. Também para ele, aquela não era a sua polícia, um jargão vulgarizado no meio desde há uns anos. Acresce que, pelos vistos, Daniel Sanches, procurador geral adjunto,  também não é o "seu" ministro. Figueiredo Lopes era um terreno relativamente fértil para magistrados desbravarem. Sanches pertence a outra "escola" até porque provém dela. Dificilmente estes dois homens se entenderiam, e é esperável que Sanches queira alguém da sua confiança à frente da PSP. Para a nossa mentalidade tacanha, a permanência de um director-geral em funções ad infinitum, é sinónimo de "seriedade" e de "independência". No entanto, ninguém nunca se lembra de interrogar as profundas razões que levam a que determinadas pessoas se "eternizem" na função, vendo alegremente passar ministros com propósitos sucessivamente diferentes, ou mesmo, antagónicos. É que, por detrás desse apurado e grave "sentido de serviço", esconde-se quase sempre um interesse  "transversal": ali uma igreja, aqui uma corporação, mais adiante outra coisa qualquer, com  a "carreira"  naturalmente à cabeça. Eu, por natureza,  desconfio  de pessoas dispostas a "servir" qualquer "amo",  já que não acredito em "independentes". Trata-se de uma mera sofisticação intelectual para satisfação dos distraídos e para perpétuo consolo dos próprios. A minha experiência pessoal dos últimos anos, esclareceu-me definitivamente sobre o assunto. Por isso, o gesto de Mário Morgado, descontadas as "dificuldades"  "relacionais" e "funcionais" apontadas, tem pelo menos a vantagem de ser diferente.

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SER DIFERENTE
 
Em qualquer país minimamente desenvolvido, a demissão do director da polícia civil teria mais cobertura jornalística do que as filas para a Madonna. É uma área que tem que ver com os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, coisa que as pessoas só se lembram quando lhes convém. Dito isto, não me parece que haja nenhum mistério particular na saída aparentemente intempestiva do Sr. Juiz director-nacional da PSP. O mundo das polícias, da justiça e das informações é um mundo onde se movem indistintamente muitos magistrados, uns judiciais, outros do venerando Ministério Público. E movem-se, embora digam o contrário, "politicamente". Como facilmente se adivinha, não são propriamente corporações que nutram entre si a maior das estimas, apesar de ambas possuírem, em elevadíssimas doses, uma enorme e vaidosa "auto-estima". Acham-se obviamente subtis. Mário Morgado, o juiz demissionário, nunca se entendeu bem com a polícia, nem esta com ele. Também para ele, aquela não era a sua polícia, um jargão vulgarizado no meio desde há uns anos. Acresce que, pelos vistos, Daniel Sanches, procurador geral adjunto,  também não é o "seu" ministro. Figueiredo Lopes era um terreno relativamente fértil para magistrados desbravarem. Sanches pertence a outra "escola" até porque provém dela. Dificilmente estes dois homens se entenderiam, e é esperável que Sanches queira alguém da sua confiança à frente da PSP. Para a nossa mentalidade tacanha, a permanência de um director-geral em funções ad infinitum, é sinónimo de "seriedade" e de "independência". No entanto, ninguém nunca se lembra de interrogar as profundas razões que levam a que determinadas pessoas se "eternizem" na função, vendo alegremente passar ministros com propósitos sucessivamente diferentes, ou mesmo, antagónicos. É que, por detrás desse apurado e grave "sentido de serviço", esconde-se quase sempre um interesse  "transversal": ali uma igreja, aqui uma corporação, mais adiante outra coisa qualquer, com  a "carreira"  naturalmente à cabeça. Eu, por natureza,  desconfio  de pessoas dispostas a "servir" qualquer "amo",  já que não acredito em "independentes". Trata-se de uma mera sofisticação intelectual para satisfação dos distraídos e para perpétuo consolo dos próprios. A minha experiência pessoal dos últimos anos, esclareceu-me definitivamente sobre o assunto. Por isso, o gesto de Mário Morgado, descontadas as "dificuldades"  "relacionais" e "funcionais" apontadas, tem pelo menos a vantagem de ser diferente.

DESÍGNIO FATAL
 
O Dr. Sampaio e a D. Maria José, passados uns breves dias de nojo,  voltaram à estrada, enquanto o país arde serenamente. Com alguns bombeiros perfilados atrás de si, em vez de estarem onde deviam estar, Sampaio, não sei bem onde, perorou acerca da "descentralização". Findo o "desígnio" comum ao casal presidencial - a eurobola -, Sampaio lembrou-se de nomear um novo, a descentralização. Proferiu umas banalidades sobre o tema, arredondou a conversa e evitou, afinal, explicar o absurdo da deslocalização de meia dúzia de secretários de Estado. Como sempre, disse ele, está "atento". Os noticiários  tomaram imediatamente isto por "fiscalização ao governo". Imagine-se que Sampaio acha que "os governos devem governar" e as "oposições" devem "preparar-se". No fundo, e nós não sabíamos, Sampaio queria simplesmente obrigar o PS a umas massagens forçadas, pelo que deve considerar que tomou a melhor decisão da vida dele ao abraçar, na boca, e sem pestanejar, o fogoso Dr. Lopes. É justamente para ter Sampaio por aí debitando levezas, sem o maçar demasiado, que o referido Lopes, a cada segundo, finge que lhe afaga o ego. Verdadeiramente Sampaio "manda" governar um governo que ele julga que é inteiramente "seu". Fará seguramente disto mais um "desígnio". Só espero que não seja, nem para ele, nem sobretudo para nós, um desígnio fatal.

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DESÍGNIO FATAL
 
O Dr. Sampaio e a D. Maria José, passados uns breves dias de nojo,  voltaram à estrada, enquanto o país arde serenamente. Com alguns bombeiros perfilados atrás de si, em vez de estarem onde deviam estar, Sampaio, não sei bem onde, perorou acerca da "descentralização". Findo o "desígnio" comum ao casal presidencial - a eurobola -, Sampaio lembrou-se de nomear um novo, a descentralização. Proferiu umas banalidades sobre o tema, arredondou a conversa e evitou, afinal, explicar o absurdo da deslocalização de meia dúzia de secretários de Estado. Como sempre, disse ele, está "atento". Os noticiários  tomaram imediatamente isto por "fiscalização ao governo". Imagine-se que Sampaio acha que "os governos devem governar" e as "oposições" devem "preparar-se". No fundo, e nós não sabíamos, Sampaio queria simplesmente obrigar o PS a umas massagens forçadas, pelo que deve considerar que tomou a melhor decisão da vida dele ao abraçar, na boca, e sem pestanejar, o fogoso Dr. Lopes. É justamente para ter Sampaio por aí debitando levezas, sem o maçar demasiado, que o referido Lopes, a cada segundo, finge que lhe afaga o ego. Verdadeiramente Sampaio "manda" governar um governo que ele julga que é inteiramente "seu". Fará seguramente disto mais um "desígnio". Só espero que não seja, nem para ele, nem sobretudo para nós, um desígnio fatal.

29.7.04

MERECIMENTOS
 
Na televisão, a notícia é uma "fila" que começou às 6 da manhã. Para quê? Comprar bilhetinhos na FNAC para ver Madonna, em Lisboa. Uma pobre idiota nem conseguia balbuciar uma palavra com a "emoção". Por fim, lá disse que a outra "era uma grande senhora"(!). Outro comprou logo 16 bilhetes e mal se continha de felicidade. É nestas filas, ontem para a bola, hoje para uma cantora, que encontramos o sempre sublime "novo homem português". Com gente desta, por que é que  Santana não há-de ser primeiro-ministro? Ele merece-os. Eles merecem-no.

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MERECIMENTOS
 
Na televisão, a notícia é uma "fila" que começou às 6 da manhã. Para quê? Comprar bilhetinhos na FNAC para ver Madonna, em Lisboa. Uma pobre idiota nem conseguia balbuciar uma palavra com a "emoção". Por fim, lá disse que a outra "era uma grande senhora"(!). Outro comprou logo 16 bilhetes e mal se continha de felicidade. É nestas filas, ontem para a bola, hoje para uma cantora, que encontramos o sempre sublime "novo homem português". Com gente desta, por que é que  Santana não há-de ser primeiro-ministro? Ele merece-os. Eles merecem-no.

LOUCURA COM MÉTODO II
 
Afinal, o "casino" vai para o Pavilhão do Futuro. A baralhada Cãmara que já foi de Santana, equivocou-se. Nós, os eleitores de Lisboa, é que cometemos o maior lapso.

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LOUCURA COM MÉTODO II
 
Afinal, o "casino" vai para o Pavilhão do Futuro. A baralhada Cãmara que já foi de Santana, equivocou-se. Nós, os eleitores de Lisboa, é que cometemos o maior lapso.
O BARDO
 
This purpose you undertake is dangerous; the friends you have named uncertain; the time itself unsorted; and your whole plot too light for the counterpoise of so great an opposition.
 
William Shakespeare, Henry IV, II, 3

 
Manuel Alegre desceu do limbo romântico em que normalmente se encontra para se "bater" pela liderança partidária. Sentiu-se "invadido pelos acontecimentos" e, desta vez, pela "história". Camaradas mais ladinos e outros mais sibilinos, empurraram-no para esta sofrível aventura. Como é seu costume, Alegre não faz a mínima ideia no que é que se vai meter. Perante uma coligação agora chefiada pelos seus verdadeiros mentores e pelo "pacto de geração" que une Santana a Portas, o PS não pode dar ao país uma imagem híbrida, algures entre um Harry Potter meia-idade e um respeitável Senhor dos Anéis. Qualquer coisa que releva mais do seu pequeno "imaginário" doméstico, do que daquilo que o "povo" efectivamente quer. A maior vítima do lapso santanista de Sampaio, foi inequivocamente o seu próprio partido. Quando, a esta hora, já devia estar a falar ao país, sobre o país e contra a virtualidade, o PS tem pela frente quase três meses, ainda, para tratar da sua intendência. A emergência abstrusa de Manuel Alegre é, com o devido e histórico respeito, meramente folclórica e destinada ao tal seu encontro espúrio com a "história", a dele. Já João Soares, quase diria que pela primeira vez, apresentou-se com um "manifesto" politicamente interessante, apesar do "ar de clã" que perpassa pela sua teimosa e generosa candidatura. Mais tarde ou mais cedo, algures, o bardo e o "jovem poeta" encontrar-se-ão contra o "outro". Deste "outro", falaremos a seguir.
 
P.S: Sobre o "outro", escreve José Manuel Fernandes no Público (Editorial), no que já é, que me recorde, um segundo editorial bem inspirado nestes últimos dias.


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O BARDO
 
This purpose you undertake is dangerous; the friends you have named uncertain; the time itself unsorted; and your whole plot too light for the counterpoise of so great an opposition.
 
William Shakespeare, Henry IV, II, 3

 
Manuel Alegre desceu do limbo romântico em que normalmente se encontra para se "bater" pela liderança partidária. Sentiu-se "invadido pelos acontecimentos" e, desta vez, pela "história". Camaradas mais ladinos e outros mais sibilinos, empurraram-no para esta sofrível aventura. Como é seu costume, Alegre não faz a mínima ideia no que é que se vai meter. Perante uma coligação agora chefiada pelos seus verdadeiros mentores e pelo "pacto de geração" que une Santana a Portas, o PS não pode dar ao país uma imagem híbrida, algures entre um Harry Potter meia-idade e um respeitável Senhor dos Anéis. Qualquer coisa que releva mais do seu pequeno "imaginário" doméstico, do que daquilo que o "povo" efectivamente quer. A maior vítima do lapso santanista de Sampaio, foi inequivocamente o seu próprio partido. Quando, a esta hora, já devia estar a falar ao país, sobre o país e contra a virtualidade, o PS tem pela frente quase três meses, ainda, para tratar da sua intendência. A emergência abstrusa de Manuel Alegre é, com o devido e histórico respeito, meramente folclórica e destinada ao tal seu encontro espúrio com a "história", a dele. Já João Soares, quase diria que pela primeira vez, apresentou-se com um "manifesto" politicamente interessante, apesar do "ar de clã" que perpassa pela sua teimosa e generosa candidatura. Mais tarde ou mais cedo, algures, o bardo e o "jovem poeta" encontrar-se-ão contra o "outro". Deste "outro", falaremos a seguir.
 
P.S: Sobre o "outro", escreve José Manuel Fernandes no Público (Editorial), no que já é, que me recorde, um segundo editorial bem inspirado nestes últimos dias.


 LOUCURA COM MÉTODO
 
-What do you read, my lord?
-Words,words,words.
-What is the matter, my lord?
-Between who?
-I mean the matter that you read, my lord.
-Slanders, sir. For the satirical rogue says here that old men have gray beards, that their faces are wrinkled, their eyes purging thick amber and plum-tree gum, and that they have a plentiful lack of wit, together with most weak hams - all which, sir, though I most powerfully and potently believe, yet I hold it not honesty to have it thus set down. For yourself, sir, shall grow old as I am - if like a crab you could go backward.
-Though this be madness, yet there is method in't.
 
William Shakespeare, Hamlet, II, 2

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 LOUCURA COM MÉTODO
 
-What do you read, my lord?
-Words,words,words.
-What is the matter, my lord?
-Between who?
-I mean the matter that you read, my lord.
-Slanders, sir. For the satirical rogue says here that old men have gray beards, that their faces are wrinkled, their eyes purging thick amber and plum-tree gum, and that they have a plentiful lack of wit, together with most weak hams - all which, sir, though I most powerfully and potently believe, yet I hold it not honesty to have it thus set down. For yourself, sir, shall grow old as I am - if like a crab you could go backward.
-Though this be madness, yet there is method in't.
 
William Shakespeare, Hamlet, II, 2

28.7.04

OLHAR PARA TRÁS



Os tempos que vivemos recomendam que se recorra à história. Eu não tenho feito outra coisa nos últimos dias. Quando entrei para a universidade, em 1978, Vasco Pulido Valente ensinou-me qualquer coisa acerca da nossa "identidade nacional" e acerca do nosso sui generis século XIX. Em 73/74, ele tinha apresentado em Oxford um trabalho para doutoramento em História, que Snu Abecassis editou na Dom Quixote, em 1976. Eu possuo essa primeira edição de O Poder e o Povo, A Revolução de 1910 que há mais de 20 anos li pela primeira vez, apesar de aparentemente não ter nada a ver com o que o seu autor me estava a ensinar na altura. Digo aparentemente porque um livro de história, um bom livro de história, como este ou os de A.J.P Taylor, onde também ando a mexer, não passa de uma obra de ficção, tão privada e tão universal como um romance (do prefácio de V. Pulido Valente ao seu livro Tentar Perceber, da Imprensa Nacional). Os tais "bons livros de história" devem ajudar a tentar perceber  o mundo, da mesma forma que o historiador, ao escrevê-los, tem de ser uma pessoa que, como qualquer pessoa, se tenta perceber (idem). O Poder e o Povo, que ando a reler, foi reeditado pela Gradiva. A sua "tese", pouco ortodoxa, explica as trapalhadas e as convulsões do nosso "progressismo" republicano, iniciado no século XIX. Ajuda a entender a idiossincrasia das élites políticas portuguesas e o seu "sublime irrealismo", desde as ditas "progressistas" às ditas "conservadoras", tendo como "pano de fundo" um país que, no essencial, continua a reagir com indiferença aos "movimentos" dessas mesmas élites.

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OLHAR PARA TRÁS



Os tempos que vivemos recomendam que se recorra à história. Eu não tenho feito outra coisa nos últimos dias. Quando entrei para a universidade, em 1978, Vasco Pulido Valente ensinou-me qualquer coisa acerca da nossa "identidade nacional" e acerca do nosso sui generis século XIX. Em 73/74, ele tinha apresentado em Oxford um trabalho para doutoramento em História, que Snu Abecassis editou na Dom Quixote, em 1976. Eu possuo essa primeira edição de O Poder e o Povo, A Revolução de 1910 que há mais de 20 anos li pela primeira vez, apesar de aparentemente não ter nada a ver com o que o seu autor me estava a ensinar na altura. Digo aparentemente porque um livro de história, um bom livro de história, como este ou os de A.J.P Taylor, onde também ando a mexer, não passa de uma obra de ficção, tão privada e tão universal como um romance (do prefácio de V. Pulido Valente ao seu livro Tentar Perceber, da Imprensa Nacional). Os tais "bons livros de história" devem ajudar a tentar perceber  o mundo, da mesma forma que o historiador, ao escrevê-los, tem de ser uma pessoa que, como qualquer pessoa, se tenta perceber (idem). O Poder e o Povo, que ando a reler, foi reeditado pela Gradiva. A sua "tese", pouco ortodoxa, explica as trapalhadas e as convulsões do nosso "progressismo" republicano, iniciado no século XIX. Ajuda a entender a idiossincrasia das élites políticas portuguesas e o seu "sublime irrealismo", desde as ditas "progressistas" às ditas "conservadoras", tendo como "pano de fundo" um país que, no essencial, continua a reagir com indiferença aos "movimentos" dessas mesmas élites.
A REALIDADE VIRTUAL
 
Segundo notícia do Público de hoje, o executivo da CML, ainda presidido por Santana Lopes, decidiu colocar o célebre "casino de Lisboa", à sétima (!) escolha, no antigo Pavilhão da Realidade Virtual da defunta Expo 98. Um local mais do que perfeito para alojar praticamente tudo o que brota da  cabeça do actual chefe do governo e, de caminho,  para acomodar essa "roleta russa" que é o seu "programa nacional de pastoreio", já devidamente abençoado pelo rito da obediente maioria de São Bento. Daqui para diante, a realidade virtual deixa de ter apenas um pavilhão para a honrar. Ao seu inteiro dispôr, fica todo um país.

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A REALIDADE VIRTUAL
 
Segundo notícia do Público de hoje, o executivo da CML, ainda presidido por Santana Lopes, decidiu colocar o célebre "casino de Lisboa", à sétima (!) escolha, no antigo Pavilhão da Realidade Virtual da defunta Expo 98. Um local mais do que perfeito para alojar praticamente tudo o que brota da  cabeça do actual chefe do governo e, de caminho,  para acomodar essa "roleta russa" que é o seu "programa nacional de pastoreio", já devidamente abençoado pelo rito da obediente maioria de São Bento. Daqui para diante, a realidade virtual deixa de ter apenas um pavilhão para a honrar. Ao seu inteiro dispôr, fica todo um país.

27.7.04

SERÁ?
 
O novo cargo de Santana Lopes não lhe vai bem. O homem não está definitivamente à vontade naquele papel. Lê mal e sem convicção. Sempre que pode, sai do escrito - normalmente muito mau - para o improviso e para Sampaio que, nesta trágico-comédia, faz de "ponto". Liberto das coisas terrenas do "programa do governo", como puras maçadas burocráticas, Santana vira-se, assim que pode, para a pequena história onde é mestre. Usa o plural majestático para "picar" os adversários. Fala de si como vítima "elegante", alguém que nunca falou mal dos outros, alguém de quem os outros passam a vida a falar mal. No entanto, olha-se para ali, programa e personagens, e tem-se a sensação de que aquilo não cola. O assunto "IRS", a recorrência de serviço, distrai da vulgaridade geral da coisa. Porém, distrai mal e falsamente. A menos que, em vez de um governo, se trate de uma vasta e luxuosa comissão eleitoral. Se me surpreenderem, ainda bem para mim e para o país. Para já, o que se vê é uma encenação pouco mais que medíocre de uma velha técnica. Santana joga connosco e com os seus ajudantes "às casinhas". Eles fingem que acreditam. Nós fingimos que é a sério. Como dizia Salazar, "está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira". Será?

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SERÁ?
 
O novo cargo de Santana Lopes não lhe vai bem. O homem não está definitivamente à vontade naquele papel. Lê mal e sem convicção. Sempre que pode, sai do escrito - normalmente muito mau - para o improviso e para Sampaio que, nesta trágico-comédia, faz de "ponto". Liberto das coisas terrenas do "programa do governo", como puras maçadas burocráticas, Santana vira-se, assim que pode, para a pequena história onde é mestre. Usa o plural majestático para "picar" os adversários. Fala de si como vítima "elegante", alguém que nunca falou mal dos outros, alguém de quem os outros passam a vida a falar mal. No entanto, olha-se para ali, programa e personagens, e tem-se a sensação de que aquilo não cola. O assunto "IRS", a recorrência de serviço, distrai da vulgaridade geral da coisa. Porém, distrai mal e falsamente. A menos que, em vez de um governo, se trate de uma vasta e luxuosa comissão eleitoral. Se me surpreenderem, ainda bem para mim e para o país. Para já, o que se vê é uma encenação pouco mais que medíocre de uma velha técnica. Santana joga connosco e com os seus ajudantes "às casinhas". Eles fingem que acreditam. Nós fingimos que é a sério. Como dizia Salazar, "está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira". Será?

26.7.04

COMO DANTES

Santana mandou distribuir umas pequenas parcelas do poder pela "província". Até reservou para ele um gabinete no Porto, tal como o rei de Marrocos possui um palácio em cada cidade do país. Falhada a remoção de ministérios inteiros para as badanas do território, Santana compeliu alguns dos seus segundos ajudantes a se "deslocarem", certamente apenas pelo prazer da deslocação. Em Braga,  por exemplo, o Sr. Pedro Duarte, da "juventude" e uma notória e promissora "cabeça", é o que estava a fazer mais falta aos "jovens" do distrito "mais jovem". Amaral Lopes, agora dos "bens culturais", vai para Évora, como podia ter ido para Sintra, Braga, Guimarães ou Coimbra. Como é muito compostinho e gosta imenso de agradar, até fez um comunicado público a explicar o bom que é passar a trabalhar ao pé do Templo de Diana. Quase em uníssono, os restantes ajudantes, depois de uns murmúrios malignos em sentido contrário, fizeram saber que esta ideia é genial. Isto resolve algum problema ao país ou às cidades em causa? Não resolve. Isto obedece a algum estudo ou desígnio previamente amadurecido? Naturalmente que não. Um gabinete de membro do governo é só isso, um gabinete, feito de um chefe, de uns adjuntos, de umas secretárias e uns motoristas. Não é a vaga transumância destas pobres criaturas que vai mudar a essência das coisas. Os inerentes e inertes serviços "tutelados", que são os que verdadeiramente "andam aos papéis" e com os papéis, continuam tranquilamente em Lisboa. Esta maravilhosa ideia serve, se já houver "folga", para pagar umas quantas ajudas de custo, para uns passeios de ida e volta dos directores-gerais e respectivos serventuários mais directos, e para aumentar os custos em telemóveis, em "logística" e em transportes. Também ajuda naturalmente à insinuação, sempre oportuna, dos vizires locais. De resto, passada a excitação inicial, tudo ficará como dantes.
 
P.S.: Percebi, pelas notícias, que o "programa do governo", descontados uns lugares-comuns sobre "contenção", et pour cause, não prevê quaisquer limites ao endividamento dos vizires os quais, de imediato, exultaram com a prebenda. Quem é amigo, quem é....

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COMO DANTES

Santana mandou distribuir umas pequenas parcelas do poder pela "província". Até reservou para ele um gabinete no Porto, tal como o rei de Marrocos possui um palácio em cada cidade do país. Falhada a remoção de ministérios inteiros para as badanas do território, Santana compeliu alguns dos seus segundos ajudantes a se "deslocarem", certamente apenas pelo prazer da deslocação. Em Braga,  por exemplo, o Sr. Pedro Duarte, da "juventude" e uma notória e promissora "cabeça", é o que estava a fazer mais falta aos "jovens" do distrito "mais jovem". Amaral Lopes, agora dos "bens culturais", vai para Évora, como podia ter ido para Sintra, Braga, Guimarães ou Coimbra. Como é muito compostinho e gosta imenso de agradar, até fez um comunicado público a explicar o bom que é passar a trabalhar ao pé do Templo de Diana. Quase em uníssono, os restantes ajudantes, depois de uns murmúrios malignos em sentido contrário, fizeram saber que esta ideia é genial. Isto resolve algum problema ao país ou às cidades em causa? Não resolve. Isto obedece a algum estudo ou desígnio previamente amadurecido? Naturalmente que não. Um gabinete de membro do governo é só isso, um gabinete, feito de um chefe, de uns adjuntos, de umas secretárias e uns motoristas. Não é a vaga transumância destas pobres criaturas que vai mudar a essência das coisas. Os inerentes e inertes serviços "tutelados", que são os que verdadeiramente "andam aos papéis" e com os papéis, continuam tranquilamente em Lisboa. Esta maravilhosa ideia serve, se já houver "folga", para pagar umas quantas ajudas de custo, para uns passeios de ida e volta dos directores-gerais e respectivos serventuários mais directos, e para aumentar os custos em telemóveis, em "logística" e em transportes. Também ajuda naturalmente à insinuação, sempre oportuna, dos vizires locais. De resto, passada a excitação inicial, tudo ficará como dantes.
 
P.S.: Percebi, pelas notícias, que o "programa do governo", descontados uns lugares-comuns sobre "contenção", et pour cause, não prevê quaisquer limites ao endividamento dos vizires os quais, de imediato, exultaram com a prebenda. Quem é amigo, quem é....
 FLANAR EM PARIS



Sou demasiado suspeito. Se há lugar no mundo onde poderia passar a vida a "flanar", esse lugar é Paris. Em relação à nossa "cidade branca", Paris tem a vantagem de ser plana e rigorosa. As suas amplas avenidas, permanentemente alvoraçadas e populosas, convidam a andar. Depois, mais para dentro da cidade ou nos seus limites, há sempre um mundo de  coisas para descobrir. Este livro de Edmund White, publicado pelas Edições ASA, Paris, Os Passeios de um flâneur (trad. de José Vieira de Lima), leva-nos a descobrir uma "outra Paris", aliás, sempre a mesma. Eu não sou grande apreciador deste americano que residiu em Paris uns quantos anos. Contudo, este livrinho conta histórias deliciosas de personagens da cidade, bem conhecidas, a partir de recantos menos conhecidos. Termina com um excelente capítulo de referências bibliográficas ("outras leituras") em torno da arrumação que White deu ao texto: desde os guias aos autores "clássicos" (Balzac, Colette, Breton, Gide, Proust...), os autores "exilados" (Stein, Hemingway, o próprio White, etc), os afro-americanos que viveram em Paris, os judeus, os "malditos" (Baudelaire), os pintores, o jazz, "o sexo e a cidade", etc. Paris, pois, sempre e de novo, uma cidade que proporciona imagens mentais, estes instantâneos do efémero, estes corrimões sinuosos e estas portas envernizadas, estes cais frios e vazios do Sena onde, sob uma ponte, alguém toca saxofone - todas estas memórias, de um valor inestimável e, no entanto, rigorosamente gratuitas, que só estão à espera de um flâneur que as faça suas.


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 FLANAR EM PARIS



Sou demasiado suspeito. Se há lugar no mundo onde poderia passar a vida a "flanar", esse lugar é Paris. Em relação à nossa "cidade branca", Paris tem a vantagem de ser plana e rigorosa. As suas amplas avenidas, permanentemente alvoraçadas e populosas, convidam a andar. Depois, mais para dentro da cidade ou nos seus limites, há sempre um mundo de  coisas para descobrir. Este livro de Edmund White, publicado pelas Edições ASA, Paris, Os Passeios de um flâneur (trad. de José Vieira de Lima), leva-nos a descobrir uma "outra Paris", aliás, sempre a mesma. Eu não sou grande apreciador deste americano que residiu em Paris uns quantos anos. Contudo, este livrinho conta histórias deliciosas de personagens da cidade, bem conhecidas, a partir de recantos menos conhecidos. Termina com um excelente capítulo de referências bibliográficas ("outras leituras") em torno da arrumação que White deu ao texto: desde os guias aos autores "clássicos" (Balzac, Colette, Breton, Gide, Proust...), os autores "exilados" (Stein, Hemingway, o próprio White, etc), os afro-americanos que viveram em Paris, os judeus, os "malditos" (Baudelaire), os pintores, o jazz, "o sexo e a cidade", etc. Paris, pois, sempre e de novo, uma cidade que proporciona imagens mentais, estes instantâneos do efémero, estes corrimões sinuosos e estas portas envernizadas, estes cais frios e vazios do Sena onde, sob uma ponte, alguém toca saxofone - todas estas memórias, de um valor inestimável e, no entanto, rigorosamente gratuitas, que só estão à espera de um flâneur que as faça suas.


25.7.04

ESTADO DE DESGRAÇA 
 
Durão Barroso, pouco tempo antes de virar José Barroso, garantiu ao país que nunca como agora se tinham disponibilizado tantos meios para o combate aos incêndios. Figueiredo Lopes, um fantasma que passou pelo MAI, entretanto foi para casa. Ficou o adjunto, um rapazinho do PP sem grande queda para emergências nem para nada. Daniel Sanches, o novo ministro, que veio das polícias e dos segredos, também não deve ser dado a extraordinárias perturbações públicas. A balbúrdia que resultou da fusão apressada dos bombeiros com a protecção civil esteve sempre no ar e nunca chegou a passar. Ninguém com responsabilidades pareceu excessivamente preocupado com isso. Eis que, de novo, o país arde e arde bem. Não consta, porém,  que os tais "meios" tenham chegado para prevenir, quanto mais para combater, a cíclica tragédia. A pulsão "executiva" de que Santana Lopes enfaticamente se reclama, vai ser posta à prova rapidamente. E não chegam umas passeatas de helicóptero para impressionar ou umas tiradas  aos microfones entre os arbustos. As populações estão legitimamente cansadas e desencantadas. Só se pode desejar que o amadorismo diletante não venha simplesmente deitar mais combustível para a fogueira. Santana Lopes entrou, mais depressa do que pensava, no seu estado de desgraça.

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ESTADO DE DESGRAÇA 
 
Durão Barroso, pouco tempo antes de virar José Barroso, garantiu ao país que nunca como agora se tinham disponibilizado tantos meios para o combate aos incêndios. Figueiredo Lopes, um fantasma que passou pelo MAI, entretanto foi para casa. Ficou o adjunto, um rapazinho do PP sem grande queda para emergências nem para nada. Daniel Sanches, o novo ministro, que veio das polícias e dos segredos, também não deve ser dado a extraordinárias perturbações públicas. A balbúrdia que resultou da fusão apressada dos bombeiros com a protecção civil esteve sempre no ar e nunca chegou a passar. Ninguém com responsabilidades pareceu excessivamente preocupado com isso. Eis que, de novo, o país arde e arde bem. Não consta, porém,  que os tais "meios" tenham chegado para prevenir, quanto mais para combater, a cíclica tragédia. A pulsão "executiva" de que Santana Lopes enfaticamente se reclama, vai ser posta à prova rapidamente. E não chegam umas passeatas de helicóptero para impressionar ou umas tiradas  aos microfones entre os arbustos. As populações estão legitimamente cansadas e desencantadas. Só se pode desejar que o amadorismo diletante não venha simplesmente deitar mais combustível para a fogueira. Santana Lopes entrou, mais depressa do que pensava, no seu estado de desgraça.

24.7.04

A ESTRUMEIRA
 
Com algumas-poucas-honrosas excepções, os episódios políticos a que assistimos desde há sensivelmente um mês, têm servido para tornar mais clara a essência da opinião que se publica. Portugal demorou a extinguir a inquisição e reproduziu-a, sob outras formas, subsequentemente. Durante grande parte do século XX, a censura e o "visto prévio" encarregaram-se de "moralizar" os escritos, o que gerava, quer a auto-censura, quer o "amaneiramento" dos textos por forma a simultaneamente não desagradar e a "deixar" passar qualquer coisa. De há trinta anos para cá, até os tecnicamente analfabetos passaram a opinar. Sobre os ombros de escribas, jornalistas, comentadores, editorialistas, etc, pesava - e pesa - o chumbo da  dependência, da cobardia e do medo. Isto não se cura de um dia para o outro. A pulsão democrática conduziu a que o mal se distribuísse pelas aldeias. Pessoas que, em princípio, nem para escrever uma receita de cozinha serviam, acabaram em grandes figuras com opinião firmada na praça. Começaram por um preço módico e agora pedem fortunas para babujar a última vulgaridade. A sua independência vende-se às postas a quem der mais. Os entusiasmos acerca dos escolhidos no governo para as áreas da economia, por exemplo, ou o destaque permanente que é dado aos vómitos dos nossos toscos empresários, diz tudo acerca da natureza da coisa. Basta igualmente olhar à forma como esta gente "aprecia" o exercício Santana Lopes em curso. Espremem-se, sem qualquer dificuldade intelectual ou moral,  e lá "descobrem" sempre,  no  fundo desta loucura normal, uma "boa solução". Estes basbaques iluminados não deviam ter o direito de nos maçar com a sua prosápia medíocre. Quem quisesse chafurdar na sua estrumeira, que a procurasse. O que dispensamos é sermos permanentemente invadidos por ela .


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A ESTRUMEIRA
 
Com algumas-poucas-honrosas excepções, os episódios políticos a que assistimos desde há sensivelmente um mês, têm servido para tornar mais clara a essência da opinião que se publica. Portugal demorou a extinguir a inquisição e reproduziu-a, sob outras formas, subsequentemente. Durante grande parte do século XX, a censura e o "visto prévio" encarregaram-se de "moralizar" os escritos, o que gerava, quer a auto-censura, quer o "amaneiramento" dos textos por forma a simultaneamente não desagradar e a "deixar" passar qualquer coisa. De há trinta anos para cá, até os tecnicamente analfabetos passaram a opinar. Sobre os ombros de escribas, jornalistas, comentadores, editorialistas, etc, pesava - e pesa - o chumbo da  dependência, da cobardia e do medo. Isto não se cura de um dia para o outro. A pulsão democrática conduziu a que o mal se distribuísse pelas aldeias. Pessoas que, em princípio, nem para escrever uma receita de cozinha serviam, acabaram em grandes figuras com opinião firmada na praça. Começaram por um preço módico e agora pedem fortunas para babujar a última vulgaridade. A sua independência vende-se às postas a quem der mais. Os entusiasmos acerca dos escolhidos no governo para as áreas da economia, por exemplo, ou o destaque permanente que é dado aos vómitos dos nossos toscos empresários, diz tudo acerca da natureza da coisa. Basta igualmente olhar à forma como esta gente "aprecia" o exercício Santana Lopes em curso. Espremem-se, sem qualquer dificuldade intelectual ou moral,  e lá "descobrem" sempre,  no  fundo desta loucura normal, uma "boa solução". Estes basbaques iluminados não deviam ter o direito de nos maçar com a sua prosápia medíocre. Quem quisesse chafurdar na sua estrumeira, que a procurasse. O que dispensamos é sermos permanentemente invadidos por ela .


23.7.04

TRISTES ANOS
 
Hoje não me apetece falar sobre o "ciclo" em curso. Melhor do que a minha, a palavra do Miguel Sousa Tavares:
 

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TRISTES ANOS
 
Hoje não me apetece falar sobre o "ciclo" em curso. Melhor do que a minha, a palavra do Miguel Sousa Tavares:
 
CARLOS PAREDES, OS VERDES ANOS

 

Carlos Paredes foi meu vizinho durante anos. Quando nos cruzávamos na rua, contava sempre com a sua saudação fraterna ("como é que vai o meu amigo?") e com uma breve troca de impressões sobre o quotidiano. A sua música, porque de um grande músico falo, está inscrita nos labirintos esconsos de Lisboa. Vai fazer falta a sua imensa humanidade e a sua sábia humildade. Vivemos um tempo do sucesso das não-pessoas, meras embalagens de cartão com duas pernas. Não é nem nunca foi esse o tempo e o modo de Carlos Paredes, o homem e o cidadão. Na primeira esquina da minha rua,  vou continuar a espreitá-lo no seu passo inconfundível , com o mesmo sorriso tímido e generoso dos  eternos verdes anos.

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CARLOS PAREDES, OS VERDES ANOS

 

Carlos Paredes foi meu vizinho durante anos. Quando nos cruzávamos na rua, contava sempre com a sua saudação fraterna ("como é que vai o meu amigo?") e com uma breve troca de impressões sobre o quotidiano. A sua música, porque de um grande músico falo, está inscrita nos labirintos esconsos de Lisboa. Vai fazer falta a sua imensa humanidade e a sua sábia humildade. Vivemos um tempo do sucesso das não-pessoas, meras embalagens de cartão com duas pernas. Não é nem nunca foi esse o tempo e o modo de Carlos Paredes, o homem e o cidadão. Na primeira esquina da minha rua,  vou continuar a espreitá-lo no seu passo inconfundível , com o mesmo sorriso tímido e generoso dos  eternos verdes anos.

22.7.04

SOAP OPERA
 
Para se aliviar dos dossiers, o primeiro-ministro faz questão em aparecer todos os dias na televisão. É a sua forma natural de respirar, coitado. Ontem serviu para desenvolver a sua tese acerca da formação de governos, por interposta Taggi, a polivalente de Portas, Artes & Espectáculos Lda. Foi um momento antológico, para mais tarde recordar. Hoje,  a pretexto da unção europeia de José Barroso, veio, em directo, estimular o "orgulho nacional". Para o lado palonço da coisa ser perfeito, devia ter decretado feriado nacional.

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SOAP OPERA
 
Para se aliviar dos dossiers, o primeiro-ministro faz questão em aparecer todos os dias na televisão. É a sua forma natural de respirar, coitado. Ontem serviu para desenvolver a sua tese acerca da formação de governos, por interposta Taggi, a polivalente de Portas, Artes & Espectáculos Lda. Foi um momento antológico, para mais tarde recordar. Hoje,  a pretexto da unção europeia de José Barroso, veio, em directo, estimular o "orgulho nacional". Para o lado palonço da coisa ser perfeito, devia ter decretado feriado nacional.
FOI VOCÊ QUE PEDIU UM BARROSO?
 
Antes da aprovação de José Barroso pelo Parlamento Europeu, uma deputada belga dirigiu-se-lhe: "o senhor é um homem de circunstância, não é um homem de convicção". Eu não me "orgulho" em ter um homem de circunstância à frente da CE só porque ele é português.

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FOI VOCÊ QUE PEDIU UM BARROSO?
 
Antes da aprovação de José Barroso pelo Parlamento Europeu, uma deputada belga dirigiu-se-lhe: "o senhor é um homem de circunstância, não é um homem de convicção". Eu não me "orgulho" em ter um homem de circunstância à frente da CE só porque ele é português.

Infeliz...
 
deste país que tudo permite. (no Almocreve)

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Infeliz...
 
deste país que tudo permite. (no Almocreve)
RESPEITO?
 
Na derradeira genuflexão perante o Parlamento Europeu, José Barroso afiançou que estava ali como "deputado" de Portugal, em sinal de "respeito" perante os "colegas europeus", Nós, os bardamerdas que votámos nele para primeiro-ministro, que tipo de respeito lhe merecemos? Não há dúvidas que é mesmo pequenino.

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RESPEITO?
 
Na derradeira genuflexão perante o Parlamento Europeu, José Barroso afiançou que estava ali como "deputado" de Portugal, em sinal de "respeito" perante os "colegas europeus", Nós, os bardamerdas que votámos nele para primeiro-ministro, que tipo de respeito lhe merecemos? Não há dúvidas que é mesmo pequenino.
IMPOSSÍVEL
 
O ministério é óptimo, porque é impossível.
 
das Memórias do Conde de Lavradio

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IMPOSSÍVEL
 
O ministério é óptimo, porque é impossível.
 
das Memórias do Conde de Lavradio
FEIRA CABISBAIXA
 
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
 
Alexandre O'Neill

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FEIRA CABISBAIXA
 
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
 
Alexandre O'Neill

21.7.04

MORANGOS COM AÇÚCAR  2

No rádio do automóvel, quando ia para a praia, ouvi o Dr. Portas  elogiar Teresa Caeiro (a Teggi, para os íntimos) como a primeira mulher a ter um cargo governativo na área da Defesa. Quando vinha da praia, a doce Teggi já era secretária de Estado das Artes e Espectáculos, uma invenção de última hora da dupla PP/PSL. Por mais "polivalente" que a moça seja,  como salientou Portas, não creio que estime enxovalhos desnecessários. Pelos vistos aceita-os, o que diz bastante acerca da polivalência da criatura. Quanto a Amaral Lopes, ex-adjunto de Roseta, ficou como secretário de Estado dos Bens Culturais. É, pois, este sublime trio, capitaneado por Maria João Burstorff, quem vai cuidar da "cultura" nas suas novas  e originais designações. Espera-se tranquilamente o pior. Quanto aos restantes ajudantes, o panorama é invariavelmente devastador, com uma ou outra luz aqui ou ali. O extraordinário disto é pensar-se que tanto podia ser assim como assado. Hesito, por ora,  em qualificar aquilo a que estamos entregues. Fossem outros os tempos, os meus incluídos, emigraria, nem que fosse para Marrocos. Eles não têm, mas eu tenho vergonha.

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MORANGOS COM AÇÚCAR  2

No rádio do automóvel, quando ia para a praia, ouvi o Dr. Portas  elogiar Teresa Caeiro (a Teggi, para os íntimos) como a primeira mulher a ter um cargo governativo na área da Defesa. Quando vinha da praia, a doce Teggi já era secretária de Estado das Artes e Espectáculos, uma invenção de última hora da dupla PP/PSL. Por mais "polivalente" que a moça seja,  como salientou Portas, não creio que estime enxovalhos desnecessários. Pelos vistos aceita-os, o que diz bastante acerca da polivalência da criatura. Quanto a Amaral Lopes, ex-adjunto de Roseta, ficou como secretário de Estado dos Bens Culturais. É, pois, este sublime trio, capitaneado por Maria João Burstorff, quem vai cuidar da "cultura" nas suas novas  e originais designações. Espera-se tranquilamente o pior. Quanto aos restantes ajudantes, o panorama é invariavelmente devastador, com uma ou outra luz aqui ou ali. O extraordinário disto é pensar-se que tanto podia ser assim como assado. Hesito, por ora,  em qualificar aquilo a que estamos entregues. Fossem outros os tempos, os meus incluídos, emigraria, nem que fosse para Marrocos. Eles não têm, mas eu tenho vergonha.
SON NOM BARROSO DANS UNE PENSÉE DÉSERT
 
Soube, através do Mar Salgado, que o Le Monde havia dedicado uma pequena prosa biográfica a José Barroso. Chamou-lhe, num trocadilho feito com o título de um livro polémico de Pierre Péan acerca de François Mitterrand, Barroso, une jeunesse portugaise ("Barroso, uma juventude portuguesa"). O articulista recorreu a "fontes" insuspeitas que conheceram bem J. Barroso, por diversos motivos: Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Rosas, José Luis Saldanha Sanches , Eduardo Dâmaso e José Freire Antunes. Quando escrevi Um Epitáfio, que está um pouco mais abaixo, este trecho do Le Monde ainda não estava editado, naturalmente. Dispenso-me de o traduzir, pois confio no poliglotismo dos meus leitores. Limito-me ao último parágrafo, veiculado por Marcelo ao articulista, a terrível súmula de um pensamento deserto:
 
"Sabe, diz  Marcelo com uma leve perfídia, Barroso não é propriamente um doutrinário. Não é nem liberal, nem atlantista, nem social-democrata. Porém, estuda com precisão os argumentos dos seus adversários - a sua experiência da juventude fez-lhe compreender bastante bem as contradições dos seus adversários de esquerda. Assim, sobre um determinado assunto, ele pode ser claramente social-democrata, sobre outro, profundamente liberal e sobre um terceiro totalmente democrata-cristão.Etc."
 
Barroso une jeunesse portugaise

Comment passe-t-on du maoïsme radical à une carrière politique respectable dans un parti de centre droit ? L'itinéraire du futur président de la Commission européenne offre une explication. "L'une des tactiques favorites de José Manuel Durao Barroso est de laisser tout le monde croire qu'il n'a pas les qualités nécessaires à l'exercice de sa fonction. Il est ainsi certain d'apparaître à l'usage plus brillant que prévu, et d'éviter de décevoir. .." Voilà qui ne va guère aider les parlementaires européens à se faire une idée de la personnalité véritable du "candidat désigné" à la présidence de la Commission européenne, lorsqu'ils auront à voter pour ou contre son investiture, le 21 juillet à Strasbourg. L'auteur de cette remarque aussi perfide qu'admirative, Marcello Rebelo de Sousa, connaît bien "José Manuel" : il a été son professeur de droit à la faculté, lorsque le jeune Barroso militait, après la révolution du 25 avril 1974, dans les rangs du Mouvement de réorganisation du parti du prolétariat (MRPP), le groupe maoïste le plus radical. M. Rebelo fut ensuite l'un des présidents du Parti social-démocrate (PSD), plus centriste que socialiste, où M. Barroso, revenu du marxisme-léninisme, fit toute sa carrière politique... avant de prendre la place de M. Rebelo, en 1999, et de devenir, en 2002, premier ministre du Portugal, à 46 ans.

José Barroso est politiquement difficile à cerner. Né en 1956 d'un père monarchiste et d'une mère républicaine, tous deux enseignants originaires du nord du Portugal, il ne semble avoir puisé ses engagements successifs et contradictoires ni dans une tradition familiale bien établie ni dans une "conscience de classe" affirmée. Est-il bien cet homme de droite que redoutent les socialistes français ? Son alliance avec le CDS-PP (Parti populaire), l'un des plus à droite sur l'échiquier politique portugais, semble le confirmer. Tout comme le choix de Santana Lopes, considéré comme le représentant de l'aile populiste et réactionnaire du PSD, pour lui succéder à la tête du parti et du gouvernement.
Pourtant, Fernando Rosas, un des fondateurs du MRPP, aujourd'hui professeur d'histoire à l'université de Lisbonne, se souvient fort bien que Barroso était l'un de ses militants les plus extrémistes lorsque ce mouvement, après la chute de la dictature, avait fait de la faculté de droit une de ses bases. Un épisode qui ne figure tout simplement pas dans les biographies officielles du premier ministre, mais qu'il n'a pas hésité à présenter aux journalistes comme "le meilleur moment de sa vie" lors de sa désignation à la candidature de la présidence de la Commission.
"Un jour, il nous a apporté tout le mobilier des bureaux du doyen de la fac : c'était une expropriation prolétarienne, destinée à meubler le siège du MRPP. Il a été très déçu quand nous lui avons ordonné de tout remettre en place", raconte, amusé, Fernando Rosas. Déployant alors toutes les ressources de l'art oratoire et du matérialisme dialectique, Barroso réussit à se faire élire président de l'association des étudiants, battant facilement le candidat d'un groupe d'extrême droite, le Mouvement indépendant de droite (MID), qui n'était autre que... Santana Lopes. "Ils partageaient la même chambre d'étudiant et sont devenus bons amis", rapporte José Luis Saldanha Sanches, un autre ancien leader du MRPP. Depuis leurs extrêmes respectifs, les deux amis convergeront peu à peu pour adhérer ensemble au PSD, en 1980.
C'est aussi dans ces moments flamboyants et romantiques que Barroso tombe amoureux d'une belle militante maoïste blonde, Margarida Sousa Uva, qui avait de surcroît l'avantage d'appartenir à une riche famille de propriétaires terriens, piliers du régime de Salazar. Elle est aujourd'hui son épouse, mais la presse portugaise s'est plue à rapporter que Margarida ne fut pas étrangère à la rupture, en 1990, de la vieille amitié entre Santana Lopes, séducteur impénitent qui remplit la presse people de ses frasques, et le froid Barroso. Un temps rivaux de cœur, les deux hommes sont toutefois redevenus amis politiques lorsqu'il a fallu passer des alliances entre factions rivales afin de conquérir la tête du PSD.
Comment Barroso a-t-il pu passer si rapidement de la ferveur révolutionnaire à un petit parti de centre-droit ? Eduardo Damaso, journaliste au quotidien Publico, y voit une certaine cohérence. Le MRPP a été créé en septembre 1970, alors que le conflit sino-soviétique est à son paroxysme. La "ligne" est de barrer la route au Parti communiste portugais (PCP) d'Alvaro Cunhal, l'un des plus pro-soviétiques d'Europe, qui menace ouvertement de prendre le pouvoir à Lisbonne à la faveur de la "révolution des œillets". Les affrontements entre communistes et maoïstes pour contrôler la rue sont alors quotidiens. Le MRPP, qui compte alors près de 3 000 militants dans tout le pays, fait alliance avec le Parti socialiste de Mario Soares pour créer l'Union générale des travailleurs (UGT), destinée à briser le monopole syndical des communistes. Et le MRPP appuiera le coup d'Etat du 25 novembre 1975, qui met un terme à la domination des militaires révolutionnaires proches du PCP. Mais c'est aussi la date que les historiens retiennent comme le "thermidor" portugais.
Désormais, la lutte contre le communisme passe, pour Barroso comme pour d'autres militants du MRPP, par l'engagement dans le PSD, susceptible de devenir le pivot d'alliances anti-PCP, vers la droite comme vers le Parti socialiste.
Mais si José Barroso se retire du MRPP, c'est aussi pour s'occuper de son père, frappé par un cancer. Parti à Londres pour le faire soigner et l'assister dans ses derniers moments, Barroso revient "transformé", les cheveux courts, les idées larges, et adhère au PSD. Est-ce un hommage rendu au père réactionnaire, qui a fait brûler toutes les photos et archives familiales témoignant de l'engagement maoïste de son fils ? L'intéressé lui-même explique plutôt son adhésion comme un hommage rendu aux idées d'un autre mort, Francisco Sa Carneiro, fondateur du PSD, tué dans un accident d'avion en décembre 1980. Ces explications convergent en tout cas pour modifier la trajectoire du jeune militant.
José Barroso passe ses examens, entame une carrière d'enseignant aux côtés des professeurs qu'il avait fait expulser de la faculté trois ans plus tôt, et obtient une bourse pour passer une maîtrise à l'Institut européen de l'université de Genève. Là, il découvre de 1979 à 1984 la science politique et la question de l'unité européenne, sous la houlette du professeur Dusan Sidjanski, chantre des thèses fédéralistes. En 1985, Barroso, déterminé à poursuivre une carrière universitaire, part préparer un PhD (doctorat) à l'Institut des relations internationales de l'université de Georgetown, à Washington, pépinière d'hommes politiques et de diplomates.
Est-ce dans ce bref séjour américain qu'il faut chercher les origines intellectuelles du fameux "sommet des Açores", qui a réuni, en mars 2003, à la veille de l'invasion de l'Irak, George Bush, Tony Blair, José Maria Aznar et José Barroso, forgeant l'image d'un Barroso résolument atlantiste ? Ce tropisme atlantique est en fait une constante de l'histoire portugaise, toujours en balance entre une alliance avec la puissance maritime du moment - l'Angleterre au XIXe siècle, les Etats-Unis aujourd'hui - contre les appétits de la puissance continentale la plus dangereuse - la France napoléonienne, l'Espagne, l'Union soviétique - et la volonté de participer aux équilibres continentaux.
C'est à Georgetown que le démon de la politique reprend José Barroso, en 1985. Cette année-là, son parti, le PSD, arrive enfin au pouvoir grâce à son leader Anibal Cavaco Silva, qui restera premier ministre pendant dix ans. "Cavaco Silva est le premier homme politique portugais qui, formé en Grande-Bretagne, rompait avec la culture politique continentale - Allemagne et Suède chez les socialistes, France gaulliste et Italie démocrate-chrétienne à droite - pour le grand large anglo-saxon", explique José Freire Antunes, historien, lui aussi ancien maoïste passé au PSD.
Cavaco Silva appelle Barroso aux Etats-Unis pour qu'il vienne le rejoindre au gouvernement. Abandonnant son PhD, il devient, à 29 ans, secrétaire d'Etat à l'intérieur, à 31 ans secrétaire d'Etat aux affaires étrangères, et enfin, à 36 ans, ministre des affaires étrangères. José Barroso trouve là une nouvelle passion, l'Angola. Alors qu'une bonne partie de la classe politique portugaise soutient l'Unita de Jonas Savimbi dans la guerre civile qui l'oppose depuis dix ans au MPLA de Dos Santos, Barroso utilise ses connexions américaines pour sentir que le vent tourne à Washington, malgré le soutien proclamé de la Maison Blanche à l'Unita : les compagnies pétrolières américaines ont manifestement décidé que le MPLA était un "client" plus sérieux.
Barroso convainc son parti de tourner casaque. Il obtient d'abord la signature par les deux parties des accords de paix de Bixette en 1991. Puis il appuie le MPLA lorsque celui-ci rompt l'accord en massacrant les cadres de l'Unita en octobre 1992 à Luanda. Certains murmurent même que le gouvernement portugais aurait contribué au repérage de l'escorte de Savimbi, qui permit au MPLA d'éliminer définitivement son ennemi en février 2002. Barroso est en tout cas devenu l'ami intime du président Dos Santos : la presse et l'opposition lui ont violemment reproché d'être allé assister, début 2004, au mariage somptueux de la fille du président angolais, alors que le pays est perclus de misère.
La défaite électorale du PSD, en 1995, réoriente la carrière de Barroso. En quatre ans, il déploie tout son savoir-faire politique pour conquérir la présidence du parti. Et il lui faudra encore trois ans pour mener son parti à la victoire. "Barroso est méthodique, extrêmement rationnel : il planifie tout, jusque dans sa vie privée, rapporte M. Rebelo. Il est par-dessus tout extrêmement méfiant : lorsque quelqu'un lui expose une idée, il se demande toujours où son interlocuteur veut véritablement en venir, et par qui il est envoyé. Je n'ai jamais vu quelqu'un passer autant de temps à étudier les sondages, les profils psychologiques et les déclarations de ses adversaires comme de ses partenaires. Pour lui, la politique est d'abord une science."
Afin de faire cesser les fuites qui étalaient dans la presse les débats internes au parti, Barroso a utilisé une bonne vieille méthode bolchevique : en distillant des confidences différentes à chacun de ses interlocuteurs, il pouvait déceler l'origine des fuites. Depuis, celles-ci ont cessé.
Malheureusement, cette maîtrise de la tactique politique, utile dans la conquête des appareils du parti, n'impressionne guère l'opinion. Barroso est considéré comme un piètre leader de l'opposition et un mauvais débatteur. "Je ne l'ai jamais entendu exprimer une opinion claire et déterminée sur un sujet important. Il a bien changé depuis le MRPP", soupire José-Luis Sardanhes. Il faudra toute l'impéritie des socialistes, contraints par les scandales à répétition d'affronter des élections anticipées, pour que le PSD l'emporte en mars 2002. Certes, les Portugais reconnaissent à leur premier ministre le mérite d'avoir redressé les finances publiques. Mais, comme le note M. Antunes, "Cavaco Silva avait un grand dessein pour le Portugal : ce n'est pas le cas de Barroso, qui n'a su que répéter aux Portugais trente fois par jour " le déficit, le déficit, le déficit ". La différence, c'est que Cavaco Silva a fait gagner 20 % de voix au PSD d'élection en élection, alors que Barroso lui en a fait perdre 30 %".
"Vous savez, dit M. Rebelo avec une suave perfidie, Barroso n'est vraiment pas un doctrinaire. Il n'est ni libéral, ni atlantiste, ni social-démocrate. Mais il étudie avec précision les arguments de ses adversaires - son expérience de jeunesse lui a fait bien comprendre les contradictions de ses adversaires de gauche. Et sur tel sujet, il pourra être plutôt social-démocrate, sur tel autre foncièrement libéral, sur le troisième totalement démocrate-chrétien. Etc."

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SON NOM BARROSO DANS UNE PENSÉE DÉSERT
 
Soube, através do Mar Salgado, que o Le Monde havia dedicado uma pequena prosa biográfica a José Barroso. Chamou-lhe, num trocadilho feito com o título de um livro polémico de Pierre Péan acerca de François Mitterrand, Barroso, une jeunesse portugaise ("Barroso, uma juventude portuguesa"). O articulista recorreu a "fontes" insuspeitas que conheceram bem J. Barroso, por diversos motivos: Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Rosas, José Luis Saldanha Sanches , Eduardo Dâmaso e José Freire Antunes. Quando escrevi Um Epitáfio, que está um pouco mais abaixo, este trecho do Le Monde ainda não estava editado, naturalmente. Dispenso-me de o traduzir, pois confio no poliglotismo dos meus leitores. Limito-me ao último parágrafo, veiculado por Marcelo ao articulista, a terrível súmula de um pensamento deserto:
 
"Sabe, diz  Marcelo com uma leve perfídia, Barroso não é propriamente um doutrinário. Não é nem liberal, nem atlantista, nem social-democrata. Porém, estuda com precisão os argumentos dos seus adversários - a sua experiência da juventude fez-lhe compreender bastante bem as contradições dos seus adversários de esquerda. Assim, sobre um determinado assunto, ele pode ser claramente social-democrata, sobre outro, profundamente liberal e sobre um terceiro totalmente democrata-cristão.Etc."
 
Barroso une jeunesse portugaise

Comment passe-t-on du maoïsme radical à une carrière politique respectable dans un parti de centre droit ? L'itinéraire du futur président de la Commission européenne offre une explication. "L'une des tactiques favorites de José Manuel Durao Barroso est de laisser tout le monde croire qu'il n'a pas les qualités nécessaires à l'exercice de sa fonction. Il est ainsi certain d'apparaître à l'usage plus brillant que prévu, et d'éviter de décevoir. .." Voilà qui ne va guère aider les parlementaires européens à se faire une idée de la personnalité véritable du "candidat désigné" à la présidence de la Commission européenne, lorsqu'ils auront à voter pour ou contre son investiture, le 21 juillet à Strasbourg. L'auteur de cette remarque aussi perfide qu'admirative, Marcello Rebelo de Sousa, connaît bien "José Manuel" : il a été son professeur de droit à la faculté, lorsque le jeune Barroso militait, après la révolution du 25 avril 1974, dans les rangs du Mouvement de réorganisation du parti du prolétariat (MRPP), le groupe maoïste le plus radical. M. Rebelo fut ensuite l'un des présidents du Parti social-démocrate (PSD), plus centriste que socialiste, où M. Barroso, revenu du marxisme-léninisme, fit toute sa carrière politique... avant de prendre la place de M. Rebelo, en 1999, et de devenir, en 2002, premier ministre du Portugal, à 46 ans.

José Barroso est politiquement difficile à cerner. Né en 1956 d'un père monarchiste et d'une mère républicaine, tous deux enseignants originaires du nord du Portugal, il ne semble avoir puisé ses engagements successifs et contradictoires ni dans une tradition familiale bien établie ni dans une "conscience de classe" affirmée. Est-il bien cet homme de droite que redoutent les socialistes français ? Son alliance avec le CDS-PP (Parti populaire), l'un des plus à droite sur l'échiquier politique portugais, semble le confirmer. Tout comme le choix de Santana Lopes, considéré comme le représentant de l'aile populiste et réactionnaire du PSD, pour lui succéder à la tête du parti et du gouvernement.
Pourtant, Fernando Rosas, un des fondateurs du MRPP, aujourd'hui professeur d'histoire à l'université de Lisbonne, se souvient fort bien que Barroso était l'un de ses militants les plus extrémistes lorsque ce mouvement, après la chute de la dictature, avait fait de la faculté de droit une de ses bases. Un épisode qui ne figure tout simplement pas dans les biographies officielles du premier ministre, mais qu'il n'a pas hésité à présenter aux journalistes comme "le meilleur moment de sa vie" lors de sa désignation à la candidature de la présidence de la Commission.
"Un jour, il nous a apporté tout le mobilier des bureaux du doyen de la fac : c'était une expropriation prolétarienne, destinée à meubler le siège du MRPP. Il a été très déçu quand nous lui avons ordonné de tout remettre en place", raconte, amusé, Fernando Rosas. Déployant alors toutes les ressources de l'art oratoire et du matérialisme dialectique, Barroso réussit à se faire élire président de l'association des étudiants, battant facilement le candidat d'un groupe d'extrême droite, le Mouvement indépendant de droite (MID), qui n'était autre que... Santana Lopes. "Ils partageaient la même chambre d'étudiant et sont devenus bons amis", rapporte José Luis Saldanha Sanches, un autre ancien leader du MRPP. Depuis leurs extrêmes respectifs, les deux amis convergeront peu à peu pour adhérer ensemble au PSD, en 1980.
C'est aussi dans ces moments flamboyants et romantiques que Barroso tombe amoureux d'une belle militante maoïste blonde, Margarida Sousa Uva, qui avait de surcroît l'avantage d'appartenir à une riche famille de propriétaires terriens, piliers du régime de Salazar. Elle est aujourd'hui son épouse, mais la presse portugaise s'est plue à rapporter que Margarida ne fut pas étrangère à la rupture, en 1990, de la vieille amitié entre Santana Lopes, séducteur impénitent qui remplit la presse people de ses frasques, et le froid Barroso. Un temps rivaux de cœur, les deux hommes sont toutefois redevenus amis politiques lorsqu'il a fallu passer des alliances entre factions rivales afin de conquérir la tête du PSD.
Comment Barroso a-t-il pu passer si rapidement de la ferveur révolutionnaire à un petit parti de centre-droit ? Eduardo Damaso, journaliste au quotidien Publico, y voit une certaine cohérence. Le MRPP a été créé en septembre 1970, alors que le conflit sino-soviétique est à son paroxysme. La "ligne" est de barrer la route au Parti communiste portugais (PCP) d'Alvaro Cunhal, l'un des plus pro-soviétiques d'Europe, qui menace ouvertement de prendre le pouvoir à Lisbonne à la faveur de la "révolution des œillets". Les affrontements entre communistes et maoïstes pour contrôler la rue sont alors quotidiens. Le MRPP, qui compte alors près de 3 000 militants dans tout le pays, fait alliance avec le Parti socialiste de Mario Soares pour créer l'Union générale des travailleurs (UGT), destinée à briser le monopole syndical des communistes. Et le MRPP appuiera le coup d'Etat du 25 novembre 1975, qui met un terme à la domination des militaires révolutionnaires proches du PCP. Mais c'est aussi la date que les historiens retiennent comme le "thermidor" portugais.
Désormais, la lutte contre le communisme passe, pour Barroso comme pour d'autres militants du MRPP, par l'engagement dans le PSD, susceptible de devenir le pivot d'alliances anti-PCP, vers la droite comme vers le Parti socialiste.
Mais si José Barroso se retire du MRPP, c'est aussi pour s'occuper de son père, frappé par un cancer. Parti à Londres pour le faire soigner et l'assister dans ses derniers moments, Barroso revient "transformé", les cheveux courts, les idées larges, et adhère au PSD. Est-ce un hommage rendu au père réactionnaire, qui a fait brûler toutes les photos et archives familiales témoignant de l'engagement maoïste de son fils ? L'intéressé lui-même explique plutôt son adhésion comme un hommage rendu aux idées d'un autre mort, Francisco Sa Carneiro, fondateur du PSD, tué dans un accident d'avion en décembre 1980. Ces explications convergent en tout cas pour modifier la trajectoire du jeune militant.
José Barroso passe ses examens, entame une carrière d'enseignant aux côtés des professeurs qu'il avait fait expulser de la faculté trois ans plus tôt, et obtient une bourse pour passer une maîtrise à l'Institut européen de l'université de Genève. Là, il découvre de 1979 à 1984 la science politique et la question de l'unité européenne, sous la houlette du professeur Dusan Sidjanski, chantre des thèses fédéralistes. En 1985, Barroso, déterminé à poursuivre une carrière universitaire, part préparer un PhD (doctorat) à l'Institut des relations internationales de l'université de Georgetown, à Washington, pépinière d'hommes politiques et de diplomates.
Est-ce dans ce bref séjour américain qu'il faut chercher les origines intellectuelles du fameux "sommet des Açores", qui a réuni, en mars 2003, à la veille de l'invasion de l'Irak, George Bush, Tony Blair, José Maria Aznar et José Barroso, forgeant l'image d'un Barroso résolument atlantiste ? Ce tropisme atlantique est en fait une constante de l'histoire portugaise, toujours en balance entre une alliance avec la puissance maritime du moment - l'Angleterre au XIXe siècle, les Etats-Unis aujourd'hui - contre les appétits de la puissance continentale la plus dangereuse - la France napoléonienne, l'Espagne, l'Union soviétique - et la volonté de participer aux équilibres continentaux.
C'est à Georgetown que le démon de la politique reprend José Barroso, en 1985. Cette année-là, son parti, le PSD, arrive enfin au pouvoir grâce à son leader Anibal Cavaco Silva, qui restera premier ministre pendant dix ans. "Cavaco Silva est le premier homme politique portugais qui, formé en Grande-Bretagne, rompait avec la culture politique continentale - Allemagne et Suède chez les socialistes, France gaulliste et Italie démocrate-chrétienne à droite - pour le grand large anglo-saxon", explique José Freire Antunes, historien, lui aussi ancien maoïste passé au PSD.
Cavaco Silva appelle Barroso aux Etats-Unis pour qu'il vienne le rejoindre au gouvernement. Abandonnant son PhD, il devient, à 29 ans, secrétaire d'Etat à l'intérieur, à 31 ans secrétaire d'Etat aux affaires étrangères, et enfin, à 36 ans, ministre des affaires étrangères. José Barroso trouve là une nouvelle passion, l'Angola. Alors qu'une bonne partie de la classe politique portugaise soutient l'Unita de Jonas Savimbi dans la guerre civile qui l'oppose depuis dix ans au MPLA de Dos Santos, Barroso utilise ses connexions américaines pour sentir que le vent tourne à Washington, malgré le soutien proclamé de la Maison Blanche à l'Unita : les compagnies pétrolières américaines ont manifestement décidé que le MPLA était un "client" plus sérieux.
Barroso convainc son parti de tourner casaque. Il obtient d'abord la signature par les deux parties des accords de paix de Bixette en 1991. Puis il appuie le MPLA lorsque celui-ci rompt l'accord en massacrant les cadres de l'Unita en octobre 1992 à Luanda. Certains murmurent même que le gouvernement portugais aurait contribué au repérage de l'escorte de Savimbi, qui permit au MPLA d'éliminer définitivement son ennemi en février 2002. Barroso est en tout cas devenu l'ami intime du président Dos Santos : la presse et l'opposition lui ont violemment reproché d'être allé assister, début 2004, au mariage somptueux de la fille du président angolais, alors que le pays est perclus de misère.
La défaite électorale du PSD, en 1995, réoriente la carrière de Barroso. En quatre ans, il déploie tout son savoir-faire politique pour conquérir la présidence du parti. Et il lui faudra encore trois ans pour mener son parti à la victoire. "Barroso est méthodique, extrêmement rationnel : il planifie tout, jusque dans sa vie privée, rapporte M. Rebelo. Il est par-dessus tout extrêmement méfiant : lorsque quelqu'un lui expose une idée, il se demande toujours où son interlocuteur veut véritablement en venir, et par qui il est envoyé. Je n'ai jamais vu quelqu'un passer autant de temps à étudier les sondages, les profils psychologiques et les déclarations de ses adversaires comme de ses partenaires. Pour lui, la politique est d'abord une science."
Afin de faire cesser les fuites qui étalaient dans la presse les débats internes au parti, Barroso a utilisé une bonne vieille méthode bolchevique : en distillant des confidences différentes à chacun de ses interlocuteurs, il pouvait déceler l'origine des fuites. Depuis, celles-ci ont cessé.
Malheureusement, cette maîtrise de la tactique politique, utile dans la conquête des appareils du parti, n'impressionne guère l'opinion. Barroso est considéré comme un piètre leader de l'opposition et un mauvais débatteur. "Je ne l'ai jamais entendu exprimer une opinion claire et déterminée sur un sujet important. Il a bien changé depuis le MRPP", soupire José-Luis Sardanhes. Il faudra toute l'impéritie des socialistes, contraints par les scandales à répétition d'affronter des élections anticipées, pour que le PSD l'emporte en mars 2002. Certes, les Portugais reconnaissent à leur premier ministre le mérite d'avoir redressé les finances publiques. Mais, comme le note M. Antunes, "Cavaco Silva avait un grand dessein pour le Portugal : ce n'est pas le cas de Barroso, qui n'a su que répéter aux Portugais trente fois par jour " le déficit, le déficit, le déficit ". La différence, c'est que Cavaco Silva a fait gagner 20 % de voix au PSD d'élection en élection, alors que Barroso lui en a fait perdre 30 %".
"Vous savez, dit M. Rebelo avec une suave perfidie, Barroso n'est vraiment pas un doctrinaire. Il n'est ni libéral, ni atlantiste, ni social-démocrate. Mais il étudie avec précision les arguments de ses adversaires - son expérience de jeunesse lui a fait bien comprendre les contradictions de ses adversaires de gauche. Et sur tel sujet, il pourra être plutôt social-démocrate, sur tel autre foncièrement libéral, sur le troisième totalement démocrate-chrétien. Etc."
A CADEIRA INESPERADA

Pedro Roseta, ex-ministro da Cultura aquando de uma entrevista ao Expresso

O que é que se pode dizer destes dois anos de Pedro Roseta à frente da Cultura? Eu julgo que nem o próprio consegue fazer qualquer "balanço". Sem menosprezo por o homem, sensível, amável e culto, a verdade é que o seu consulado se salda genericamente por um imenso buraco negro. Preocupados, ele e o seu secretário de Estado, com o dinheiro que não ousaram conquistar nos Orçamentos de Estado, quase tudo se resumiu à mercearia e ao direito. Pergunta-se pelo pensamento político para o sector e não se encontra rigorosamente nada. Amaral Lopes, o adjunto, viveu o seu mandato em permanente frenesim legislativo. Mesmo naquilo que estava bem - os diplomas orgânicos do teatros nacionais, por exemplo, que nem tempo tiveram para funcionar plenamente-, Lopes insistiu em mexer. Está em estágio, no D. Maria, o regime SA para os teatros, coisa muito bonita à vista desarmada, mas que não deixa de depender do eterno "sócio maioritário", o OE. Do melhor do passado, foram recuperados Ricardo Pais e António Lagarto que, com mais imaginação do que qualquer outra coisa, têm conseguido sobreviver no deserto. No São Carlos, por onde passei, foi renovado o contrato do director,  Paolo Pinamonti, o qual, graças à sua notável flexibilidade, já vai no quarto ministro. Os museus estão praticamente exangues e moribundos. O "cinema nacional" resmunga e desconfia da nova lei de Amaral Lopes, sendo certo que sempre assim seria. O "fusionismo" dos institutos ficou incompleto, à excepção, também ainda em estágio, do Instituto das Artes, que foi entregue ao diletante Dr. Cunha e Silva, e que se destina a prover à habitual indigência dos nossos obnóxios "criadores" e "agentes culturais". Outras audácias jurídicas ficaram a meio, alguns propósitos anunciados não saíram do papel e a intriga barata fervilhou nos gabinetes. À semelhança dos seus três últimos antecessores, também não se conhece a Maria João Burstorff uma única ideia sobre o sector que vai tutelar. Com o exemplo que lhe vem de cima, à partida isto não parece ser um grave obstáculo e é, pelo menos, uma garantia de sobrevivência. Roseta passou "ao de leve" pelo Palácio da Ajuda, onde ocupou, claramente a contra-gosto, uma cadeira inesperada. Algo, porém, em que, desde meados de 2000, se transformou o ministério da Cultura.

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A CADEIRA INESPERADA

Pedro Roseta, ex-ministro da Cultura aquando de uma entrevista ao Expresso

O que é que se pode dizer destes dois anos de Pedro Roseta à frente da Cultura? Eu julgo que nem o próprio consegue fazer qualquer "balanço". Sem menosprezo por o homem, sensível, amável e culto, a verdade é que o seu consulado se salda genericamente por um imenso buraco negro. Preocupados, ele e o seu secretário de Estado, com o dinheiro que não ousaram conquistar nos Orçamentos de Estado, quase tudo se resumiu à mercearia e ao direito. Pergunta-se pelo pensamento político para o sector e não se encontra rigorosamente nada. Amaral Lopes, o adjunto, viveu o seu mandato em permanente frenesim legislativo. Mesmo naquilo que estava bem - os diplomas orgânicos do teatros nacionais, por exemplo, que nem tempo tiveram para funcionar plenamente-, Lopes insistiu em mexer. Está em estágio, no D. Maria, o regime SA para os teatros, coisa muito bonita à vista desarmada, mas que não deixa de depender do eterno "sócio maioritário", o OE. Do melhor do passado, foram recuperados Ricardo Pais e António Lagarto que, com mais imaginação do que qualquer outra coisa, têm conseguido sobreviver no deserto. No São Carlos, por onde passei, foi renovado o contrato do director,  Paolo Pinamonti, o qual, graças à sua notável flexibilidade, já vai no quarto ministro. Os museus estão praticamente exangues e moribundos. O "cinema nacional" resmunga e desconfia da nova lei de Amaral Lopes, sendo certo que sempre assim seria. O "fusionismo" dos institutos ficou incompleto, à excepção, também ainda em estágio, do Instituto das Artes, que foi entregue ao diletante Dr. Cunha e Silva, e que se destina a prover à habitual indigência dos nossos obnóxios "criadores" e "agentes culturais". Outras audácias jurídicas ficaram a meio, alguns propósitos anunciados não saíram do papel e a intriga barata fervilhou nos gabinetes. À semelhança dos seus três últimos antecessores, também não se conhece a Maria João Burstorff uma única ideia sobre o sector que vai tutelar. Com o exemplo que lhe vem de cima, à partida isto não parece ser um grave obstáculo e é, pelo menos, uma garantia de sobrevivência. Roseta passou "ao de leve" pelo Palácio da Ajuda, onde ocupou, claramente a contra-gosto, uma cadeira inesperada. Algo, porém, em que, desde meados de 2000, se transformou o ministério da Cultura.

20.7.04

TRAGICAMENTE OBSOLETOS 
 

Tucídides, autor da História da Guerra do Peloponeso

Com este título, o Diário de Notícias de domingo passado, incluia um texto de Umberto Eco cuja oportunidade, para este "Portugal dos Pequeninos" que estamos infelizmente a viver, me parece indiscutível.  Gira em torno de um trecho de Tucídides, retirado da sua História da Guerra do Peloponeso. À falta de link naquele jornal, forneço outro que descobri em espanhol. O ensaio começa assim:
 
E os atenienses disseram aos homens de Melos: "a vossa amizade seria a prova da nossa fraqueza, enquanto que o vosso ódio é a prova da nossa força".



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TRAGICAMENTE OBSOLETOS 
 

Tucídides, autor da História da Guerra do Peloponeso

Com este título, o Diário de Notícias de domingo passado, incluia um texto de Umberto Eco cuja oportunidade, para este "Portugal dos Pequeninos" que estamos infelizmente a viver, me parece indiscutível.  Gira em torno de um trecho de Tucídides, retirado da sua História da Guerra do Peloponeso. À falta de link naquele jornal, forneço outro que descobri em espanhol. O ensaio começa assim:
 
E os atenienses disseram aos homens de Melos: "a vossa amizade seria a prova da nossa fraqueza, enquanto que o vosso ódio é a prova da nossa força".