O governo do "novo ciclo", iniciado no final de Julho sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República e do CDS, resolveu que tudo passa no médio e no longo prazo por aumentos "sexy" (recorro a um termo caro ao dr. Lima, uma das eminências mais desejadas desses idos de Julho) de tributos sobre o rendimento dos trabalhadores, dos pensionistas e o consumo. Claro que esta terapia do "DEO ex machina" vem temperada com uma vulgata política medíocre, atabalhoada e com falsas "preocupações sociais" típicas de hipócritas profissionalizados. No fundo, mais uma vez e com bastante pena minha, parece que a relação difícil com a verdade tornou-se numa condição indispensável para o serviço público democrático. As manchetes com a "limpeza da saída" destinavam-se, afinal, a limpar as mãos à parede. Isto vai acabar mal.
«Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida.» Adélia Prado
30.4.14
29.4.14
Os três mosqueteiros
O Senhor Presidente da República, cinco dias após o 40º aniversário do "25 de Abril", decidiu condecorar, entre outras, três amáveis preciosidades da nossa melhor "elite": o dr. Mexia, da edp, o engº Faria de Oliveira, da Caixa, e o dr. Pedro Reis acabado de sair da AICEP e do "colo" do senhor vice PM. Não discuto a oportunidade ou, sequer, o mérito do exercício. Decerto o Doutor Cavaco saberá explicar ao país o porquê de tamanha distinção. Mesmo que o país a ignore. Sobretudo aqueles portugueses que, no activo ou em casa, novos ou "velhos", sentem o que significa uma vida inesperadamente puxada para baixo. Tudo o que as três notabilidades em causa, por natureza, desconhecem. Em matéria de simbologia política, o Doutor Cavaco acerta pouco. E a política inclui a sabedoria e a grandeza dos gestos simbólicos. Este é demasiado pequenino para chegar a ser simbólico.
Engolir o sapo
A CRESAP, como há dias num colóquio promovido por um jornal o 1º ministro "deixou cair", foi um produto consensualizado com o (para não dizer uma exigência do) PS. É, pois, natural que alguns dos eleitos, dos poucos dos escolhidos, sejam "apreciados" com reticências públicas e notórias. Quem bebe pelo gargalo, compra a garrafa. Até com sapos dentro.
Se o ridículo matasse
Mas não, não mata. Não admira que o Sérgio Monteiro - designadamente pelo trabalho político efectuado no sector dos transportes, e apesar dos louvaminheiros espalhados pelo media em louvor e simplificação do dr. Lima - apareça cada vez mais como o verdadeiro ministro da economia. Pelo menos nunca o vemos metido em palhaçadas.
Acima da "imagem"

«Vasco Graça Moura, que conheci, graças às guerras contra o Acordo Ortográfico, era um homem muito bem educado. Mas não era um hipócrita. Quando entrava na eterna e bendita briga interpartidária, entrava com toda a força das cacetadas verbais, em que as "cacetadas" faziam questão de nunca serem físicas. Muitas pessoas espantavam-se (ou não queriam saber) ser este o mesmo homem que escrevia, traduzia e editava livros maravilhosos. Mas era essa a maravilha dele: era convencido bastante para não querer saber da "imagem", essa palavra estúpida que substitui a igualmente estúpida "opinião pública" ou a mais foneticamente satisfatória "reputação".»
Miguel Esteves Cardoso, Público
28.4.14
Serviço público

Nem eu nem muito menos o prof. Maduro sabemos bem o que é que o actual governo pretende da RTP. Mas sei que aprecio serviço público audiovisual quando o vejo. E foi isso que a RTP2 andou a fazer - e talvez pudesse continuar - a pretexto do 40º aniversário do 25 de Abril, com uma série de documentários inteligentemente construídos para televisão (não sei se houve mais): Capitão Desconhecido, Primeiras entre iguais, Terra da Fraternidade, Estética, Propaganda e Utopia no Portugal do 25 de Abril, O Império e os Românticos Armados e Ser e Agir. Indiscutivelmente mais úteis para as chamadas "novas gerações" do que as "regar" com trivialidades.
Adenda: Também no cinema, a RTP 2 andou bem este Abril com um "ciclo" Elia Kazan. Este sábado passou Esplendor na Relva que um poema de Ruy Belo conseguiu "dizer" na ambiguidade perfeita dos seus versos.
Eu sei que Deanie Loomis não existe
e vejo que caminha entre as mais
O bafio
A 25 de Abril deste ano, o primeiro-ministro, ladeado pelo inexistente secretário de Estado do desporto e da juventude e pelo inventor deste, o simpático dr. Marques Guedes, recebeu em São Bento, para almoço e paleio de circunstância, uns quantos "representantes" da referida juventude. Precocemente envelhecidos pelo "peso" das "academias" e "clubes" a que pertencem, os rapazinhos e as meninas ouviram, paciente e respeitosamente, o "pensamento" do dr. Passos sobre o evento que se comemorava nesse dia. A horticultura serviu-lhe de inspiração - falou em "regar" umas coisas - à semelhança da bacterologia por causa de uma alusão ao "bafio". Passaram três dias e, de facto, o cheiro a bafio voltou a impôr-se ao quotidiano governativo com um leve toque, assaz demagógico, de gás de botija. Voltaram o "DEO", o dr. Mota Soares e a sua fulgurante "sensibilidade social", o "verde" anunciador eng.º Moreira da Silva, as "limpas e as sujas" e a "responsabilidade orçamental" que é um eufemismo para "austeridade", inventado à pressa pelo dr. Rangel, para tentar evitar maiores estragos na sua infelicíssima e bafienta "aliança Portugal". Mas, como escreve o Luís Rosa, «pior do que o eleitoralismo das medidas anunciadas é a inconsistência do discurso do primeiro-ministro. Não pode dizer numa semana que a “austeridade vai continuar” e descer os preços da luz e do gás na semana seguinte. Não pode querer aumentar o salário mínimo a poucas semanas das eleições, quando há pouco tempo rejeitava tal ideia, e pensar que o eleitorado vai a correr premiá-lo (...). O desagravamento fiscal generalizado é a principal medida que a base social de apoio da maioria espera do governo de Passos Coelho. Os cortes na despesa pública (muitos dos quais continuam por fazer) só assim têm lógica. Mas três anos após o início da austeridade a pergunta que resta é: a maioria ainda tem uma base social de apoio? Há dois grupos que Passos Coelho conseguiu alienar e que não voltarão a votar tão cedo no PSD: reformados e funcionários públicos. As medidas que incidiram sobre estes grupos essenciais padecem de um problema comum: a forma como foram apresentadas e aplicadas. Tendo em conta o peso que as pensões e os salários da função pública têm na despesa do Estado seria impossível não mexer nesses items, mas a forma atabalhoada que caracteriza a acção de Passos Coelho estragou tudo. A substituição da Contribuição Extraordinária de Solidariedade e a tabela única salarial na função pública, medidas que devem ser conhecidas esta semana, só vão agravar a relação desses grupos com o governo. Os restantes cidadãos de classe média ainda não têm razões para voltarem a votar na maioria. Veja-se o caso das tarifas sociais da luz e do gás. A descida não se aplica à classe média. Pelo contrário, os preços da luz vão continuar a subir para estes cidadãos a propósito do défice tarifário. Passos Coelho sempre pensou que os primeiro sinais positivos macro-económicos que se têm vindo a repetir desde o final do ano passado fariam com que fosse premiado pelo eleitorado. Está enganado.» O dr. Rangel lamentavelmente também.
27.4.14
O respeitador cosmopolita do português

A erudição não abunda entre nós. Por isso a morte de um polémico erudito como Vasco Graça Moura é mais uma queda. Nem sequer era preciso estar sempre com o político que ele também apreciava ser. Mas o poeta, o prosador, o cronista, o ensaísta - "Camões e a divina proporção" aí está, por exemplo, para o erguer nessa difícil arte do ensaísmo literário -, o tradutor, o editor e, sobretudo, o respeitador cosmopolita do português (e não da babugem cretina parida pelo abstruso e ilegal acordo ortográfico através do qual muitos parolos o vão "homenagear" em letra de forma) são, naquele sentido em que hoje pungentemente nos falta enquanto memória, sociedade e cultura, exemplares. Ainda há pouco mais de um mês escreveu no DN que a língua estava a ser destruída. E acrescentava: «Não conheço hoje muitos políticos que sejam a favor disso. Se falarmos de outros utentes qualificados, também não, salvas as excepções menores do costume e as propensões para a cedência do costume. E estamos a falar de Portugal. Se passarmos a Angola temos uma noção de como se pode e deve defender a língua de um país, das suas tradições, da sua cultura, das suas relações humanas e sociopolíticas, enfim, da sua identidade. Quanto ao Brasil, faz o que entende e não se sente vinculado por uma série de baboseiras que, está mais do que demonstrado, são perfeitamente inconstitucionais no nosso país. Realmente, como na salada dos pais do imortal Basílio, o acordo foi mexido por uns cegos e temperado por uns loucos.» Ficamos com a sua derradeira inquietação que fazemos nossa: «Em que ortografia vão os nossos grandes autores ser servidos nas escolas? Serão implacavelmente desfigurados pela aplicação dessa coisa sem nome?»
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
25.4.14
O sintoma

À memória do José Medeiros Ferreira, homem do "código genético" da democracia
As "comemorações" dos 40 anos do "25 de Abril" decorreram conforme previsto. No parlamento o regime celebrou-se em torno do mesmo pastelão retórico. Salvo a filha de Camilo Mortágua, do Bloco, que é mais nova que o regime e que é realmente uma novidade, os discursos não tiveram qualquer interesse, polémica ou, sequer, "elegância" política (de "grace" em inglês). Mesmo quando o PR espevitava parte da casa - como aconteceu frequentemente com Eanes no tempo em que os governos também dependiam do Chefe de Estado - contra a outra, "crescia" na nação. Cavaco consegue o prodígio oposto: fala, a nação praticamente ignora-o e uma maioria parlamentar aplaude-o como um dos seus, e da sua infeliz circunstância, sem verdadeiramente o "respeitar". Fora do parlamento, a associação do Coronel Lourenço encheu o Largo do Carmo e teve direito a um ex-PR, o dr. Soares, obrigando as televisões a repartir-se entre o jazigo de família de São Bento e as toleimas voluntaristas do velho capitão de Abril. Ou seja, estes 40 anos da Revolução configuraram, da rua aos corredores do poder, um conflito, coisa de que o actual Presidente foge como o diabo da cruz. Foi, no entanto, o melhor sintoma da liberdade e da democracia. A melhor homenagem.
24.4.14
Debilidade
Depois do relatório do FMI, chegou o da Comissão Europeia. Ambos prometem-nos, tanto quanto nos exigem, mais austeridade (substantiva e de calendário) pese a debilidade político-comunicativa do ministro da presidência. Mas essa debilidade não decorre de uma fraqueza particular do dr. Marques Guedes, o único porta-voz consentido pelo senhor vice PM porque dá plenas "garantias" que não "voa". Decorre, antes, de uma debilidade que percorre todo o governo que, à força de tanto se "concentrar" no "ajustamento", parece, a cada dia que passa, ignorar o que fazer politicamente a seguir ao final formal do dito programa. E com a certeza de que ninguém, por lá, leu com a devida atenção a carta de demissão do dr. Gaspar que também "falava" do futuro. É, pois, natural que o país comece a perguntar o que é que há-de fazer ao governo, e com o governo, a partir do mês que vem.
Tempo de vésperas
«Este ano, o contexto das comemorações do 25 de Abril tem sido fortemente marcado pelo debate sobre o fim do período de excepção de três anos, iniciado com o pedido de ajuda financeira externa. Infelizmente, tudo se faz mais uma vez num euro-financês opaco, numa linguagem que, para o comum dos cidadãos, não convida a discutir a questão posta em termos de "saída limpa ou programa cautelar?". Tendo feito do Governo um mero agente dos cortes impostos pelas condições do resgate, Passos Coelho geriu o processo de um modo calamitoso para o País e para o seu futuro próximo e a médio prazo, sobre o qual, como se viu na recente entrevista que concedeu à SIC, não tem qualquer visão, projecto ou ideia. E os acontecimentos da última semana e meia vieram acrescentar a essa falta de visão uma descoordenação em crescendo de atritos entre vários sectores do Governo, nomeadamente em matéria fiscal, que não auguram nada de bom. A um mês das eleições europeias, e porque muito - para não dizer tudo - depende do que a União Europeia virá a ser e a querer, a situação exigia mais do Governo, exigia sobretudo que ele soubesse fazer uma ponte credível entre o que diz que fez e o que diz que quer para o País, distinguindo bem aquilo que depende de nós e aquilo que releva do enquadramento e das decisões europeias. Mas também a oposição pouco se tem feito ouvir, continuando demasiado presa às querelas nacionais num momento em que tudo devia ser feito para se assumir e discutir a Europa, uma Europa que se tem transfigurado, aos olhos de uma crescente parte de cidadãos, de sonho redentor em interminável pesadelo.»
«O jogo de sombras em torno da saída de Portugal do "programa de resgate" começa a ser insuportável. Não é aceitável que o Governo não tenha sobre isso uma posição clara. Só quem sabe o caminho para onde vai pode convidar os outros, neste caso a oposição, para seguirem na mesma direcção. Duas razões justificam a preferência por um programa cautelar, pois a actual tendência para a baixa das taxas de juro da dívida pública, em toda a Europa, é um fenómeno meramente conjuntural. Em primeiro lugar, essa tendência não deriva do alegado "sucesso" da austeridade. Prende-se, antes, com a saída de capitais dos mercados emergentes, e também com a política monetária expansiva do BCE. Na verdade, as três principais agências de notação financeira continuam a considerar Lisboa e Atenas abaixo da linha de água, o que não tem impedido os juros dos dois países de baixarem dramaticamente. Se esta tendência, que não controlamos, se inverter (e são vários os factores nesse sentido, entre eles a eventual ilegalidade do mecanismo OMT), o País ficará de novo encurralado. Em segundo lugar, um programa cautelar poderia garantir, durante dois anos, um cenário de contingência, a ser usado apenas em caso de necessidade. E teria a enorme vantagem de medir o grau efectivo de solidariedade dos outros Estados membros. Os portugueses ficariam a saber quem na Europa brinca à solidariedade e quem a pratica de facto. Mas, para tal, será preciso que o Governo português coloque, por uma vez, a sua espinha em posição vertical e fale com clareza para que a Europa seja capaz de ouvir.»
23.4.14
A meta dos leilões

Talvez devessemos estar, no chamado "espaço público", a falar no "25 de Abril". Este regime nasceu com ele e a respectiva duração já se aproxima do tempo que durou o "Estado Novo". Aliás, se contarmos esse tempo pela longevidade política do seu principal agente, o Doutor Salazar, o actual regime leva quatro anos de vantagem. São, pois, várias as gerações que este "calendário" apanhou e, sobretudo, muitas as novas nascidas "dentro" de mais nada do que o regime aberto pela Revolução de 1974. Tudo o que neste momento de tagarelice em "financês" e "economês" pudesse contribuir para não banalizar, ainda mais, a tão degradada vida pública nacional, seria bem vindo. Todavia não é isso que acontece. Infelizmente, o "calendário" coincidiu com um excesso do nosso presente medíocre: o desacreditado e desinteressante "debate quinzenal com o 1º ministro", a "execução orçamental" (com os impostos sobre o trabalho a "ajudar" à "alegria"), a presença da troika e um leilão, também muito "alegre", de dívida. Parece que Portugal, agora, não existe fora desta lengalenga. Nestes dias aptos para "ouvir" a História, preferimos continuar com e como os ceguinhos da presente pastorícia, e da que se avizinha, a bater no ceguinho sem outras metas que não sejam as dos leilões, a dos leitões e a dos campeões (a RTP Informação - "serviço público", vejo-a neste momento, associou-se ao evento afinal para quê? - interrompe um directo com Ramalho Eanes num colóquio sobre a Ditadura Portuguesa, e que também vai ouvir Soares e Sampaio, para passar uma conferência de imprensa do Benfica com um rapaz a falar espanhol seguido do loquaz Jesus interpelado em italiano e a tratar os interlocutores por "tu"). Até podemos ultrapassar as metas todas e mais algumas. Mas um país sem memória é um país de merda.
22.4.14
Prevalência da política
O Senhor Presidente da República, a dias dos 40 anos do "25 de Abril", decidiu "condenar" a natureza adversarial e conflitual da democracia. E a afirmar o primado da economia (empresarial, na circunstância) sobre a política. Para chegarmos a uma "economia avançada e dinâmica" não basta uma bonita colecção de cromos "empreendedores" preferencialmente apascentados ou pendurados, directa ou indirectamente, no Estado. É preciso, à cabeça, uma democracia liberal que funcione a tempo inteiro e não em regime de part-time consoante os interesses da "economia" ou das "finanças". Só assim se alcança, por exemplo, a estabilidade fiscal que o PR, e bem, defendeu.
21.4.14
Em busca de um princípio feliz
Para quem já assistiu, ou conhece da história, há um "ambiente" político toldado que "cheira" - apesar do combate larvar entre insossos e da irritação parlamentar do chefe da parte pequenina deles - ao fim de qualquer coisa. Mas, como diz a nossa Agustina ("parafraseada" ironicamente nos últimos textos do FMI sobre o Portugalório), o fim é sempre o princípio feliz de qualquer coisa.
20.4.14
Páscoa e "progresso"
Domingo de Páscoa. Três telejornais generalistas da hora do almoço. Dez minutos depois de começarem, ainda andam à volta da bola. "Esticam" a coisa com conversas parvas com os adeptos que, pelos vistos, não almoçam de tão empanturrados de bola que estão e que rondam o estádio com horas e horas de antecedência. No Público, Vasco Pulido Valente tem andado muito atormentado com a "esquerda" como se as esquerdas e as direitas, em 2014, não fossem apenas mais um "produto", como a bola, da "raça" e da sua miséria instintual crónica. Nada brotou, pois, de um descaso familiar envolvendo uma mãe alegadamente perversa e um filho precocemente "patriota". Como escreve o João Pereira Coutinho no Correio da Manhã, «o recúo do cristianismo na Europa tem consequências. E uma delas é a ignorância abissal sobre a história da civilização a que se pertence. Há quem veja nisto um "progresso": a libertação do homem de "dogmas" e "fantasias". Só que essa libertação não lida apenas com questões transcendentes. Também atinge as imanentes: igrejas, estátuas, museus - no fundo, a paisagem material do Ocidente, que passa a ser indecifrável para uma legião de analfabetos. Um "progresso"? Bois a olhar para um palácio não são propriamente a minha ideia de progresso.» Nem a minha.
19.4.14
"Faz com que a encontremos melhor"

«O Coronel Aureliano Buendía promoveu trinta e duas revoluções armadas e perdeu todas. Teve dezessete filhos varões de dezessete mulheres diferentes, que foram exterminados, um após outro, numa única noite antes de o mais velho fazer trinta e cinco anos. Escapou de quatorze atentados, a setenta e três emboscadas e a um pelotão de fuzilamento. Sobreviveu a uma dose de estricnina no café que teria chegado para matar um cavalo. Recusou a Ordem do Mérito que lhe foi conferida pelo Presidente da República. Chegou a ser comandante geral das forças revolucionárias, com jurisdição e poder de uma fronteira à outra, e o homem mais temido pelo governo, mas nunca permitiu que lhe tirassem uma fotografia. Declinou a pensão vitalícia que lhe propuseram e viveu até a velhice dos peixinhos de ouro que fabricava na sua oficina em Macondo. Ainda que tenha sempre lutado à frente dos seus homens, a única ferida que recebeu foi a que fez a si mesmo depois de assinar a capitulação da Neerlândia que pôs fim a quase vinte anos de guerras civis. Disparou um tiro de pistola no peito e a bala saiu-lhe pelas costas sem atingir nenhum centro vital. A única coisa que ficou de tudo isso foi uma rua com o seu nome em Macondo. No entanto, segundo declarou poucos anos antes de morrer de velho, nem sequer isso esperava na madrugada em que partiu com os seus vinte e um homens para se ir reunir às forças do general Victorio Medina. - Aqui te deixamos Macondo - foi tudo quanto disse a Arcadio antes de partir. - Deixamos-ta bem. Faz com que a encontremos melhor.»
G.G. Márquez, Cem Anos de Solidão
Sei o que fizeste no verão passado
A "facção" CDS do executivo prepara-se já para o "pós-troika" e, sempre que pode, dá um ar da sua graça à "comunicação" e à coordenação" do segundo governo do dr. Passos. No auge do debate sobre as pensões e das infelicidades que as esperam, Mota Soares só aparece, ou faz prova de vida indirecta, para espremer o mais que pode as décimas do emprego (do aumento do desemprego jovem ou da chaga do desemprego de longa duração não fala, não manda falar ou enfiar setinhas para cima nos jornais). A dra. Cristas, depois da chegada do eng. Moreira da Silva ao ambiente, emerge por vezes a apanhar coisas ou a remover dois ou três arbustos simbólicos numa qualquer obscura floresta. Finalmente a mais celebrada aquisição de Julho último, o dr. Lima, apesar das babugens diárias do jornalismo "amigo", acabou "entalado" entre um secretário de Estado (que sabe mais a dormir do que ele acordado) e o seu "general" Portas que acumula a economia com os negócios estrangeiros propriamente ditos e que "reside" fundamentalmente lá fora. Para fazer prova de vida política na linha do referido "pós-troika", este egrégio "soldado disciplinado" fez saber que há mais "especuladores" no governo para além do indicado pelo próprio 1º ministro, o dr. Leite Martins. Por causa de uma taxa para controlar os nossos vis apetites terrenos, sugerida pela dra. L. Albuquerque, por razões contabilísticas, e decerto estudada e preparada pelo "integralista" Leal da Costa, da Saúde, o dr. Lima veio a terreiro especular sobre a "especulação". O senhor vice entretanto manifestou "apoquentações", por escrito, em relação ao IRS. E assim sucessivamente. Suspeito que o CDS gostaria de "comemorar" da melhor maneira um ano da figura que fez perante o governo e o país no Verão passado. É só esperar pelo fecho do relógio do Caldas e pelas eleições europeias.
17.4.14
Um livro para a Páscoa
«As classes sociais estão reduzidas a duas: os amigos do governo, as grandes empresas amigas do governo, com os bancos amigos do governo no topo da escala. Estes são os verdadeiros "direitos adquiridos" em que o governo não ousa tocar, porque são os seus "direitos adquiridos", aquilo que lhes garante o futuro pós-governamental. Os outros somos nós, os pensionistas, os funcionários públicos, os servos da gleba.»
A utilidade subaquática do dr. Portas
«"Às vezes criam-se ideias que não são correctas", afirmou terça-feira Pedro Passes Coelho, em entrevista à SIC Notícias. O primeiro-ministro argumentava que o Governo tem trabalho feito no corte de consumos intermédios, referindo uma redução de 1,6 mil milhões de euros na máquina do Estado- as tão faladas gorduras - entre 2010 e 2013. O que Passos Coelho não referiu é que metade dessa correcção se deve a um efeito-base provocado pelo registo em 2010 dos dois submarinos comprados quando Paulo Portas era ministro da Defesa (...). "Em 2010 gastávamos 8,9 mil milhões de euros em consumos intermédios. Essa factura baixou em cerca de 1,6 mil milhões de euros", sublinhou. De facto, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam esse valor, mas não explicam como se chegou ali. Nos últimos três anos, os consumos intermédios tiveram uma contracção de 1.634 milhões de cures. A maior variação anual ocorre em 2011, com uma quebra de mais de mil milhões de euros. Grande parte dessa correcção deveu-se ao registo em contabilidade nacional dos submarinos Arpão e Tridente. Como? É que a compra dos submarinos foi contabilizada em 2010, engordando em 880 milhões dc euros a factura com consumos intermédios. No ano seguinte, como se tratou de uma despesa irrepetivel, esses 880 milhões desapareceram automaticamente, dando uma ajuda preciosa ao número apresentado por Passos. Excluindo essa operação extraordinária, o Governo cortou até agora 754 milhões de euros em consumos intermédios.»
16.4.14
O 25 de Abril dos pequeninos

«O senhor secretário de Estado Pedro Lomba não faz a mínima ideia do que foi o 25 de Abril.»
José Pacheco Pereira em entrevista ao Nuno Ramos de Almeida, i
15.4.14
Nem bom nem original
A entrevista do PM à sic fez lembrar uma observação atribuída ao Prof. Marcello Caetano numas provas académicas. A coisa teria alguns momentos originais e outros bons. Todavia nem os originais eram bons nem os bons eram originais. Só que Passos nem a tanto chegou. A coesão social está tão arruinada quanto o "consenso" político. Não terá sido aliás por acaso que o PS escolheu o eng.º João Proença para a reacção oficial. Enquanto isso, e apesar de escudado no "rigor orçamental", Passos já corre para eleições deixando, contrariamente ao que se escreveu no Programa do Governo, as pessoas para trás. Também deixou a "Europa", por exemplo, sobre a qual nunca se lhe ouviu um murmúrio. Esteve bem sobre Portas apesar de não ter sido original. Desde Julho que o tornou "irrevogável" no novo governo onde o promoveu. E não espera menos dele do que ingerir o cálice até ao fim. O vice-PM pode fugir das conversas dos "provisórios e definitivos" para as Arábias. Mas já não pode fugir de Passos outra vez. Nada, porém, que console especialmente o país.
Um "brilharete" imoral
Ontem, para além das palavras do General Ramalho Eanes sobre a intolerância perante a miséria e o desemprego, quarenta anos após o 25 de Abril, o Diário de Notícias estimava em 120 mil as famílias/pessoas a passar fome, fora os mais de 2 milhões em risco de pobreza. Com um cenário social e ético desta dimensão, o que é que paira na cabeça do evangelista do "financês" para quem não tenho já a menor contemplação ou pachorra (Deus sabe como expio hora a hora este logro)? «O Governo pretende repetir o brilharete de 2013 e alcançar um défice inferior à meta estabelecida com Troika. Porém, o objectivo é ir, uma vez mais, além do combinado, não enveredando por um alívio na austeridade, apesar do efeito benigno da retoma da economia e da folga herdada de 2013. Em vez de 4% do produto interno bruto (PIB), a equipa de Pedro Passos Coelho aponta agora para um défice à volta de 1,9% este ano». "Brilharete"? "Ir, uma vez mais, além"? "Não enveredando por um alívio na austeridade"? Estão, em suma, a brincar à tabuada com a vida das pessoas?
Adenda: O meu Amigo José Mendonça da Cruz enviou uma espécie de "errata" político-legislativa que reproduzo na íntegra. Porém, e sobretudo depois de ver o senhor PM na sic, mantenho (mantém ele, PM, porque rasura deliberadamente esses tristes factos) a parte que não é da responsabilidade do DN. «Estava tudo muito bem, meu caro João, se não se tratasse de uma fantasia do Diário de «Notícias», já desmentida pela ministra durante a conferência de imprensa de ontem. Não há brilharete nem intenção de exceder a receita. De intenção o que há um processo da mesma, habitual na informação da treta. Um abraço, JMC.»
14.4.14
Ainda engana alguém?
Qualquer pessoa olha para o facies do senhor vice PM e intui imediatamente que está ali um "reformador do Estado", não intui? Pois nessa auto-qualidade - o dr. Passos, sempre mais preocupado com a contabilidade e menos dado a espectáculos, já arrumou a chamada "reforma do Estado" numa prateleira qualquer e deixou a parte da opereta a quem de direito - o dr. Portas recebe os partidos para lhes mostrar o seu "guiãozinho". Como os cabeças de lista Rangel e Melo não estão à altura de um módico de eleitoralismo para evitar a absoluta humilhação no dia 25 de Maio, o presidente do CDS "ofereceu-se" para dedicar dois dias para o efeito no sossego das Laranjeiras. Ainda engana alguém?
Aprenda
Marcelo desmontou chãmente a cretinice política da dra. A. Esteves a propósito do "25 de Abril". E deu uma sugestão que podia fazer a ponte entre o embotamento do Coronel Lourenço e a infelicidade da senhora. «A presidente Assunção Esteves é presidente devido a eles. Os deputados, que representam o povo, estão lá pelo voto popular porque eles permitiram o voto popular. Assunção Esteves não tratou disto atempadamente, e teve aquela frase infeliz ["o problema é deles"] quando são «eles» a razão dela ser presidente da Assembleia da República.» Aprenda.
13.4.14
Para sempre a beleza de ter sido

Roma calou-se
Conforme "previsto", não houve "erro", nem "manipulação", nem "especulação", nem "ruído" como respectivamente sugeriram os drs. Portas, M. Guedes, P. Coelho e P. Maduro. Leite Martins, pelos vistos, é mais da "linha" Sir Humphrey. Os drs. Rangel e Melo, da "Aliança Portugal", já que estão tão ou mais imbuídos das questões doméstico-partidárias do que daquelas que supostamente os justificam como candidatos nas eleições europeias, deviam ter elaborado sobre a problemática das pensões uma vez que os seus chefes não falaram. Roma calou-se, a questão está decidida.
12.4.14
O "barrosismo" de excelência

«No Portugal não democrático, no Portugal pré-União Europeia e pré-Comunidade Europeia havia ensino de excelência apesar do regime político em que se vivia e isso era possível porque numa escola era desejável reforçar a própria cultura de excelência da escola. Não estou seguro que aconteça hoje o mesmo em muitas escolas portuguesas e europeias», afirmou Durão Barroso na cerimónia de entrega do donativo do prémio europeu Carlos V à CAIS e à Escola Secundária de Camões, em Lisboa.» Deve ser por isso que, na sua adolescência universitária, Barroso, já em pleno "Portugal pré-União Europeia", era contra os exames. Na faculdade de direito de Lisboa, "controlada" pelo MRPP, decorriam com quatro ou cinco alunos sentados num sofá simultaneamente a responder a perguntas aleatórias. E a "excelência" propriamente dita tinha sido saneada pelo promissor Barroso e pelos seus. Crato, ao pé deste, ainda não passou de um "liberal" aprendiz de maoísta.
Estes patriotas que nos pastoreiam

Segundo o Expresso, o senhor vice PM gostaria de abandonar o barco antes das legislativas de 2015 para se "acomodar", talvez, em Bruxelas. A "notícia" é um amuse-bouche para o Doutor Cavaco e o dr. Passos que dificilmente consentirão em mais uma debandada patriótica, desta vez de tão dissimulada eminência. Mas não deixa de ser reveladora. O serviço público, no sentido "republicano" do termo, que devia ser um motivo de orgulho para quem o pode exercer, tem vindo a ceder perante a vulgaridade e os "apetites" por outras coisas: "postos", conselhos de administração ou fiscais, bancos, negócios, tráfico de influências. A política, sob a forma de partidos, governos ou parlamentos, é apenas o trampolim para essas outras coisas onde o que releva é o primado da primeira pessoa (os seus interesses privados, corporativos ou a representação deles) e não o país que juraram por sua honra servir. Deviam, por consequência, lavar a boca cada vez que a enchem de empáfia "patrioteira" diante de uma nação apoucada que, ao contrário deles, não pode "fugir" para lado algum.
Uma missa de acção de graças

Não se percebeu - pelo menos decerto o país não percebeu nem tão pouco lhe prestou a menor atenção - o estranho evento promovido ontem pela Comissão Europeia na Gulbenkian. Verdadeiramente tratou-se de uma espécie de missa política de acção de graças pelo dr. Durão Barroso que teve por acólitos o Presidente da República e o governo. Só o carácter evangélico do exercício permite explicar o súbito interesse do dr. Passos Coelho pelas "pessoas", na respectiva homilia, ou as lambuzadelas trocadas entre os oficiantes com o mesmo edificante propósito de colocar Barroso como putativo salvador da pátria à distância. Seria interessante, por exemplo, o Doutor Cavaco partilhar connosco esse seu comovente "testemunho" da "atenção" que o dr. Barroso deu ao país nos irrelevantes anos de presidência da Comissão. Ou o dr. Barroso explicar os encómios que dirigiu ao dr. Passos como se estivesse a louvar publicamente um zeloso director-geral de Bruxelas. Ou, ainda, o dr. Passos enunciar, ponto por ponto, os "alívios" conseguidos através dos bons ofícios do dr. Barroso e que permitem à generalidade dos portugueses viver hoje "abaixo" das suas exageradas "possiblidades". Ámen.
11.4.14
10.4.14
"Não existe"

Apesar de se tratar da chamada "segunda figura do Estado", vale a pena rever na RTP esta outra fantástica figura, de não sei bem o quê, que fez. Repetiu tantas vezes o termo "não existe, não existe" que começamos a suspeitar que não existe mesmo. Quem teve a brilhante ideia de a apresentar a votos dos seus pares, bem pode limpar as mãos à parede.
Marguerite Duras - 1914, 2014
« - Je suis d'une moralité douteuse.
- Qu'est-ce que tu appelles, être d'une moralité douteuse?
- Douter de la morale des autres.»
Hiroshima mon amour
«Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezessete anos a quando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezenove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.»
L'Amant (tradução portuguesa de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira)
Há futuros e futuros
Tenho verdadeira alergia a termos Humpty Dumpty como "moldar positivamente o futuro", "fazer a diferença", "grande potencial ", "intervir na sociedade de forma positiva", ou "reforçar a autoestima". Mas o Senhor Presidente da República não. Também deve sonhar com os "cisnes elegantes" do dr. Lima, o ministro "ajudante" do secretário de Estado Sérgio Monteiro, por oposição aos "patinhos feios". Na verdade, só tenho visto o PR receber em Belém jovens "construtivos e positivos", grávidos dos inerentes "espíritos" e, por que não dizê-lo, com sorte. Seria bom, para variar, o Chefe de Estado poder receber uns quantos dos 35% de jovens no conjunto dos desempregados, a números a 1 de Abril último. Estes decerto não terão como "organizar-se" (ou quem os "organize") para "intervir na sociedade de forma positiva" ou para "moldar o futuro". Para já nem sequer antevêem "um" futuro, quanto mais "o" futuro.
Um retrato

«Já no átrio da Gulbenkian, perto da hora marcada, 18h, a APE comunicou-me que a cerimónia estava um pouco atrasada porque esperavam o Secretário de Estado da Cultura. Quando Barreto Xavier chegou e entrámos todos para a sala, o protocolo sentou-o ao centro da mesa, junto a Diogo Pires Aurélio. Nas pontas, Gulbenkian (representada por Rui Vieira Nery), APE (José Manuel Mendes, José Correia Tavares), júri (representado por Isabel Cristina Rodrigues) e eu. Vieira Nery abriu, sucintamente; seguiram-se discursos da APE; Isabel Cristina Rodrigues leu o texto em que o júri justifica a atribuição do prémio a "E a Noite Roda". Diogo Pires Aurélio e eu levantámo-nos para que ele me entregasse o sobrescrito do prémio, um minuto de formalidade, sem palavras, para a fotografia. Chegou a minha vez de discursar, li as páginas que trazia. No fim, houve uma ovação de pé. Digo isto para dar conta da atmosfera que os representantes do poder político tinham diante de si. A APE convidou então o SEC a intervir. Ele escolheu falar sentado, sem se deslocar ao púlpito. Uma das coisas que disse, na parte, digamos, cultural da intervenção, foi que eu bem podia declarar que não fazia ficção porque claro que fazia ficção porque é isso que um escritor faz, ficção. Foi o primeiro arroubo dirigista, que nos devia ter preparado para o que aí vinha. Na parte, digamos, política, destaco quatro coisas: o SEC disse que eu devia estar grata por estarmos em democracia e eu poder dizer o que dissera; que durante anos os portugueses se tinham endividado acima das suas possibilidades; que, ao contrário do que eu dissera, ninguém saíra de Portugal por incentivo deste governo; e, sobretudo, que eu tinha dito que não devia nada a este governo mas que isso não era verdade porque este governo também subsidiava o prémio. Referia-se ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca, que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar. Foi a mais escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos, de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos nós!", o SEC insistia. Como cabe ao Presidente da República, ou seu representante, encerrar a cerimónia, a APE instou Diogo Pires Aurélio a falar. O representante do Presidente da República declinou e encerrou a sessão. No fim, cumprimentou cordatamente todos os presentes na mesa e retirou-se. Já Barreto Xavier, aproximou-se de mim na confusão da retirada. Julguei que se vinha despedir, depois de dizer o que tinha a dizer. Nada disso. Queria dizer-me, visivelmente irritado, que o que eu fizera tinha sido de um grande "primarismo". Respondi-lhe que então devia ter dito isso mesmo ao microfone, que eu já dissera o que tinha a dizer e não lhe ia dizer mais nada. Fui andando, para contornar a mesa e acabar com a cena, mas o SEC insistia: que eu tinha sido “primária”.»
Não se é impunemente Marco António

«As coisas nunca deixam de se complicar para este Governo bicéfalo. O principal dançarino nesse baile de sombras era Paulo Portas, que pensava anunciar para sua glória e dos seus, no recém-ocupado Ministério da Economia, através de um dos inúmeros chapéus com que anda, a boa medida. Disse claramente que só não avançava com o salário mínimo porque a troika não deixava, sendo que, indo a troika embora, 15 dias antes das eleições segundo o seu relógio, estava-se mesmo a ver como seria comemorada a libertação de 1640. Porém, na guerra larvar de Passos com Portas, o primeiro- ministro deixou-o para trás fazendo ele mesmo o anúncio que conta numa reunião partidária do PSD. Haverá próximos capítulos. E no entanto o primeiro-ministro acrescentou para si próprio dificuldades que podia evitar. Não se limitou a dizer, repetindo o tom de incomodação típico de Portas, que isso era um diktat do “protectorado”, mas enunciou argumentos ideológicos para não subir o salário mínimo, dizendo que, bem pelo contrário, os salários deviam era baixar em vez de subir. Claro que somou mais umas frases ao longo historial de “problemas com a sua palavra”, visto que agora tem que haver malabarismos argumentativos para justificar a viragem. Marco António fará isso, que ele isso sabe fazer muito melhor que Passos.»
José Pacheco Pereira, Sábado
9.4.14
Passos, Papa e César
O secretário de Estado Leite Martins, pessoa que conheço vai para vinte e três anos, sempre gostou de latim. Recordo-me de o ver citar abundantemente, nessa bela língua morta, o "lema" da IGF o qual, traduzido, sugeria que "o trabalho fortalece". Por isso não me admirei de o ver refugiar-se nela para se "inclinar", ainda que sob forma erudita, diante da palavra "papal" de Passos Coelho. «O senhor primeiro-ministro anunciou publicamente a posição do Governo nessa matéria e eu sou um membro do Governo alinhado com a posição que o primeiro-ministro define. É prematuro fazer qualquer outro tipo de considerações sobre o assunto. Roma locuta, causa finita. Roma falou, a questão está decidida.» O termo é atribuído a Santo Agostinho mas existe, no campo teológico, quem discuta a veracidade dessa afirmação pelo menos na primeira parte. Todavia, se recuarmos umas boas décadas, da Roma de Agostinho de Hipona até à Roma dos Césares - mais apropriada ao "contexto" governativo doméstico -, talvez fosse útil a L. Martins reflectir nas palavras de Gore Vidal no prefácio que escreveu para Os Doze Césares de Suetónio. Mesmo que nunca o tenha lido, puro ou em tradução. «Suetónio, ao apontar um espelho a esses prolixos e lendários Césares, reflecte-os não apenas a eles mas também a nós: criaturas divididas cuja maior obrigação moral é manter o equilíbrio entre o anjo e o monstro que carregamos connosco dado sermos ambos. Ignorar esta dualidade conduz inevitavelmente ao desastre.»

