30.9.13

O lapso


 


O primeiro-ministro, por causa da saída de cena do dr. Gaspar e da "ameaça" do espectro governativo, o actual vice, remodelou o Governo em Julho com a aquiescência do Presidente da República. Saíram pessoas que sempre lhe foram leais - Relvas tinha sido removido em Abril - para entrarem (e ficarem, algumas "subindo") pessoas cujo papel nessa matéria (a da lealdade) ainda está por apurar. Apesar do resultado das autárquicas, Passos não tem qualquer margem para remodelar agora o que quer que seja. Aliás, o PR, depois de exercer o seu direito de voto, reiterou a sua opção de Julho, isto é, que o futuro do Governo não depende do resultado de ontem. Todavia, e sendo esta proposição presidencial formalmente correcta, decerto a longa experiência de Cavaco ter-lhe-á sussurrado duas coisas que o deixaram assustado. A primeira, é que não vai ser fácil ao Executivo do "novo ciclo" engolir até ao fim a cicuta que ele próprio fabricou. A "ruralização" do PSD e a profunda derrota nos grandes centros urbanos praticamente anularam o sucesso de Junho de 2011, deixando Passos mais isolado do que ele já estava no partido. Que "decresceu" aos olhos da nação quando o objectivo fundamental de qualquer aspirante a pastor da pátria é o de crescer do partido para fora. Como se isso não bastasse, das três coligações que Portas estabeleceu com o PSD, esta é a que ele mais execra. Agarrou-se como gato a bofe a cinco pequeninas câmaras, passou levemente pelos "sucessos" minguados das coligações autárquicas e fez questão de se colocar às cavalitas de Rui Moreira contra o mau exemplo de "contas" representado por Menezes. Ora isto conduz ao segundo aspecto a cair, mais tarde ou mais cedo, na agenda presidencial. Esta sopa turva de lentilhas não deixará de "impressionar" os credores que, por coincidência, andam por aí a somar e a subtrair. Ou os impagáveis "mercados". Ou, mesmo, esse decisivo documento político chamado OE 2014. Passos, afinal, não preparou nenhum ponto de partida com as infelicidades de Julho ao contrário do que insinuam, sempre que podem, os principais "ministros da propaganda", o prof. Maduro e o dr. Lima, embalados por dois ou três "degraus" da "escada" do crescimento que faz a permanente felicidade filológica do dr. Portas. E, indirectamente, do Doutor Cavaco. Ontem, lamentavelmente, o primeiro-ministro não deu sinais de ter entendido a realidade de que procurou em vão falar nas aparições da campanha. Vai pagar caro o lapso.

A tripla negação

Não sei se o dr. Lima está minimamente familiarizado com a psicologia, a humana e a dita das "organizações". Mas admitindo fortemente que não esteja, um módico de bom senso recomendaria - e logo no dia seguinte a uma eleição que não foi propriamente um sucesso nacional para a coligação da qual ele emana - que não recorresse ao termo "segundo resgate" mesmo que fosse para o negar. E até o negou três vezes. Esta tripla negação tem antecedentes nomeadamente bíblicos que não deram bom resultado. Mas confiemos no dr. Lima que é apenas um homem. E, como todos os homens, sujeito à decepção e ao engano.

Os cavalos também se abatem

Aí por volta das quatro da manhã, a traquitana que estava a contar os votos parou. Foram mobilizados os velhinhos telefones e as "forças da autoridade" (a pé, de carro e talvez "no dorso do animal") para ajudar na transmissão da contagem. Na altura estavam por atribuir quase trinta câmaras municipais. Parece que entretanto recomeçou. Um "especialista" explicou que, apesar da empregadoria partidária que representavam, é nestas alturas que se "nota" a falta dos extintos governos civis. Não estou de acordo. O que o episódio revela é que, em matéria de "progresso" e de "modernização", ainda há muito para fazer se é que alguma vez se fará. A remoção de freguesias e a a sua "reorganização" também ajudaram a tramar a traquitana. Talvez fosse melhor dirigir a chamada "requalificação" para coisas como esta - pode ser que o "guião" da "reforma" do dr. Portas o preveja - do que para "abater" pessoas. Até porque, desde ontem, ficou claro, passe a imagem, que os cavalos também se abatem.

29.9.13

Os votos


 


Desde Julho último - se não contarmos com o congresso do PSD do ano passado no qual o eng. Moreira da Silva ascendeu inexplicavelmente a "nº2" - que se andava a falar em um "novo ciclo". Numa tarde quente desse mês de Julho, o "novo ciclo" foi consagrado oficialmente no Hotel Tivoli em Lisboa. O Presidente da República empossou-o, ao "novo ciclo", uns dias depois. Pelo meio houve uma demissão a sério e uma demissão a brincar que o país está a pagar em prestações suaves. O PSD começou este domingo a pagar a sua. Ironicamente a extraordinária "coesão interna" e a "consistência" deste "novo ciclo" até nas autárquicas se manifestou. No Porto, por exemplo, o presidente do PSD apoiava o candidato que ficou em segundo ou terceiro lugar enquanto o presidente do CDS estava com o candidato vencedor. Em Lisboa, ambos perderam com estrondo por interposta má escolha. Em Sintra, o único sítio em que os dois dirigentes apareceram juntos, a coligação quedou-se por um humilhante terceiro lugar protagonizado por um vice-presidente do PSD. A hegemonia do PSD na Madeira também foi abalada com uma brutal perda de câmaras como a do Funchal. O CDS ganhou cinco câmaras, directamente, o que decerto é mais um reflexo daquela "coesão interna" e "consistência" coligatórias. Finalmente a própria coligação, enquanto tal, conseguiu a proeza de ser ultrapassada em presidências pela CDU.Tudo visto e ponderado, começou "outro" ciclo pelo menos para o PSD. Quem não perceber isto, meta explicador.

Tem graça, não tem?


 


É provável que quem escolhe os filmes que a RTP passa fora de horas - na 1 ou na 2 - possua uma literacia distinta dos que escolhem outras coisas. Mas, para ver ou rever, ainda é do pouco de jeito que o "serviço público" oferece a soturnos como eu. O resto está sensivelmente bem analisado em meia dúzia de palavras do Eduardo Cintra Torres no Correio da Manhã. Ou nas três letrinhas que comandam o "modo de emprego" da informação da casa: "fun". «A empresa inquiriu espectadores que não vêem RTP para saber porquê. Obviamente, estes disseram que gostariam que a RTP fosse como o que vêem, a SIC e a TVI. Os (ir)responsáveis da RTP, que punham a mão no peito pela "estratégia" anterior, começaram a defender, sem vergonha, também de mão ao peito, a nova "estratégia": fazer a RTP como a SIC ou a TVI. O presidente da RTP disse em entrevista que é só fazer como ele fez para lançar a Mini da Sagres e, já está!, conquista-se os jovens. Na nova "estratégia", a RTP 1 aposta em: concursos, como ‘Sabe ou Não Sabe’, onde se ganha dinheiro por não se saber as respostas; três telenovelas por dia, piores que as dos privados; aumentar o ‘Telejornal’ (já está mais longo do que os dois concorrentes); acabar com programas de reportagem e entrevista; substituir notícias de política e economia por notícias "leves"; fazer da RTP 1 o CCC, Canal (Tony) Carreira & Continente. Em resumo: a "estratégia" é fazer TV comercial, em vez de alternativa. Não faz qualquer sentido num operador do Estado pago pelos contribuintes. Mas o governo insiste em mudar leis e papéis, enquanto deixa a empresa entregue a incompetentes sem o mínimo sentido de serviço e de respeito pelo povo e seus impostos.» Mais. «O presidente da BBC, Chris Patten, recomendou que se reduzam a metade as chefias da BBC. A RTP faz ao contrário: deixa sair técnicos e jornalistas competentes, mas nas chefias não toca. A elite parasitária defende-se. E finge: para enganar o governo, há chefias que desapareceram no papel, mas as mesmas pessoas exercem as mesmas funções com os mesmos salários.» Tem graça, não tem, prof. Maduro?

A mansidão

O PR saiu da letargia que ultimamente o engoliu para vir defender a mudança da legislação eleitoral na véspera de uma eleição. O PR decerto não ignora que, à semelhança do que se passa com quase tudo o que o define, a dita legislação "é" um produto do regime a que ele preside com aquela original equanimidade do "isto não é nada comigo". Razão, pois, a Vasco Pulido Valente: "nós somos de facto um povo muito manso". E temos, por consequência, o que merecemos.

28.9.13

Dia de reflexão








 


Como é dia de reflexão, só se pode falar do chamado segundo resgate - do qual também não se pode falar apesar de ter sido o próprio primeiro-ministro a falar nele faz hoje oito dias e do dr. Portas ter dado o "tiro de partida" para a conversa no passado dia 2 de Julho - e da sra D. Iolanda Oliveira Costa.


 


Ilustração: Excertos do artigo de José Pacheco Pereira no jornal Público de sábado.

27.9.13

Votos


 


Voto em Lisboa. Há quatro anos apoiei Pedro Santana Lopes e perdi. Agora apenas desejo que António Costa não obtenha uma maioria absoluta e que o dr. Roboredo fique longe como merece. No Porto, não gostaria de ver o despesista utópico do dr. Menezes substituir e dar cabo do trabalho de Rui Rio. Em Braga, Ricardo Rio merece acabar com o reinado absurdo do betoneiro Mesquita Machado. Em Gaia, Carlos Abreu Amorim vai pagar, não o despesismo do incumbente de saída, mas a cizânia no PSD - a câmara deve voltar para o PS. Barbosa de Melo, em Coimbra, pode não chegar para travar o regresso de Manuel Machado e do PS. Na Guarda, espero que Álvaro Amaro seja bem sucedido apesar da transumância de cernelha. Em Loures, acharia piada à vitória do meu vizinho Bernardino Soares (quem é que conhece o truculento Fernando Costa vindo das Caldas de balão?). Dizem-me que Marco Almeida, o "independente" do PSD, era o passador dos cheques do dr. Roboredo (razão pela qual conhece bem as freguesias rurais que lhe podem dar a vitória), mas entre ele e o dr. Basílio não hesitaria. Pedro Pinto não existe. Dar-me-ia um certo gozo se Paulo Vistas continuasse presidente em Oeiras ou Marcos Sá surpreendesse. Moita Flores nunca. Não sei quais são as hipóteses do meu amigo João Ribeiro, do PS, em Setúbal. O eleitorado "moderado" devia votar nele. O transumante da CDU em Évora é capaz de tirar a câmara ao PS e em Beja, Pulido Valente, outro que tal pelo PS, ficava bem. Com a saída de Macário em Faro, é natural que o PS reconquiste a edilidade. Sempre com Alberto João Jardim na Madeira e sempre contra César e os seu epígonos nos Açores. Finalmente Cascais, que alberga a minha praia favorita, fica tranquila nas mãos de Carlos Carreiras. No todo nacional, como diria o Doutor Salazar, vamos ver como é que os eleitores (a abstenção deve ser enorme) avaliam o "novo ciclo" e o dr. Seguro. Boa tarde e boa sorte.

"Uma estupidez sem nome"


 


A meio de uma peça do Expresso sobre a "situação", um "colaborador próximo" do senhor vice PM classifica de "estupidez sem nome" a simples menção da hipótese de um segundo resgate. Porquê? O "colaborador próximo" explica. «É uma estupidez sem nome falar em segundo resgate, porque cria a percepção internacional de que já estamos à espera disto.» Mais. O "colaborador próximo de Portas" defende, pelo contrário, o "discurso de mobilização e motivação" (o das escadas) que o seu chefe anda a fazer aqui e ali. Ora aquilo que o "colaborador próximo" de Portas apelida de "estupidez sem nome" foi perpetrada, nem mais nem menos, pelo senhor PM, o dr. Passos Coelho. Assim, de repente, não é bonito, para dizer o menos, chamar "estúpido" ao presidente do PSD e primeiro-ministro da mesma coligação e do mesmo Governo onde o chefe do "colaborador próximo" é o número dois. Mas é neste "estado" semântico - de "credibilidade", "solidez", "consistência" e "coesão interna"- que a coligação (e indirectamente o Governo) chega a votos, um pouco por todo o lado, no domingo. Prometedor, não é?

26.9.13

A batalha naval


 


A Constituição em vigor não é fruto de geração espontânea. Muito menos o foram as sucessivas revisões constitucionais. Basta consultar um arquivo fotográfico para encontrar os protagonistas dos acordos entre os partidos - sobretudo o PS e o PSD - que viabilizaram aquelas revisões. Estão todos vivos, graças a Deus, e alguns ocupam ou ocuparam distintos cargos no regime. Os órgãos de soberania emanam dela e desempenham as respectivas funções à sombra dela. O Tribunal Constitucional, tal como o Governo, não é excepção. Pelo contrário, o TC (outra emanação dos referidos acordos) "vela" pelo seu cumprimento e quer o parlamento quer o Governo legislam de acordo com ela. Como dizia Medina Carreira, a Constituição foi feita no âmbito do escudo. E no âmbito de uma série de coisas que aparentemente os partidos acharam por bem manter a título quase programático. Não passou pela "cabeça" da Constituição que íamos chegar praticamente à falência. Nem tão pouco que teríamos de passar por um "país de programa" em ambiente de crise europeia e mundial. O Tribunal Constitucional e o Governo, por causa destas derradeiras contingências, entraram em modo de batalha naval com a Constituição a fazer de jangada. Algumas decisões políticas legítimas do Governo foram "judicializadas" e algumas decisões jurisprudenciais do Tribunal, igualmente legítimas, foram "politizadas". Como na batalha naval em papel, umas vezes os "tiros" são num barco de um, de dois ou de três canos, e outras no do quatro ou no porta-aviões, com "disparos" de ambos os lados. Hoje foi um destes casos com aspectos da legislação laboral. E outros virão já de seguida.

25.9.13

RTP, da EDP a Moura Guedes

Tentei ler online o relatório em causa nesta notícia mas tem tantos bonequinhos que o meu pequeno pc quase gastou a bateria a abri-lo sem sucesso. Por isso vou valer-me da notícia. «Em 2012, a EDP foi o segundo maior fornecedor da RTP, tendo recebido quase seis milhões de euros da empresa pública de rádio e televisão. O valor está identificado no relatório e contas da RTP, na rubrica de fornecedores de serviços externos. Contudo, o mesmo documento indica que no ano passado, a fatura da eletricidade da RTP foi de ‘apenas’ 2,848 milhões de euros, menos de metade do que a empresa de António Mexia recebeu da RTP. Contactada, a RTP não esclareceu o que motiva estas diferenças de valor. De recordar que em 2012, como o CM revelou na altura, a RTP lançou um concurso para encontrar um novo fornecedor de energia, oferecendo um contrato de 24 meses, com apenas um critério de adjudicação: "Mais baixo preço". Contudo, o relatório feito pela RTP deliberou que todos os concorrentes [Galp, Iberdrola e Endesa] foram excluídos, por não terem respeitado o preço máximo estipulado no caderno de encargos. Dessa forma, a EDP continuou a ser o fornecedor de energia da empresa pública.» Quando tomou posse a tutela Relvas, a RTP pagava cerca de 57 a 58 milhões de euros em "fornecimento de serviços externos". Isso inclui produtoras - na altura, por exemplo, a "campeã" era a Produções Fictícias e também estava na lista uma da TVI, a Plural - e, obviamente, serviços como os referidos na notícia. Decerto, e no que à EDP diz respeito, que pelo menos o conselho fiscal da RTP - constituído por pessoas que trabalham na administração pública há anos e, uma em particular, em auditoria ao mesmo tempo que é dirigente num instituto público o que lhe confere especiais "competências" para o efeito - terá ou pedirá cabais explicações para o que é relatado ao conselho de administração. Nisto de contas de uma empresa cem por cento detida pelo Estado não convém deixar nada por responder. E logo agora que, em boa hora, a televisão pública entregou um programa à excelente profissional que é Manuela Moura Guedes que só num país absurdo como o nosso pôde estar este tempo todo sem aparecer e trabalhar, independentemente de se gostar muito, pouco ou nada do "modo de emprego". Apenas aconteceu porque ela usa a cabeça dela em vez de perpetrar em nome de mulas sem cabeça.

Uns e outros

«Uns falam de outras coisas, mas eu digo-vos: continuarei a falar sobre os factores de desenvolvimento do crescimento económico, da criação de emprego e do reforço de competitividade das nossas empresas", sublinhou, depois de ter repetido ser há longa data um defensor da “consolidação orçamental amiga do crescimento.» Mais adiante o PR acrescentou que «gostaria que a comunicação social, em particular as televisões, reservasse mais espaço à divulgação das iniciativas empresariais de sucesso”, afirmou, argumentando que a confiança no país aumentaria se esses casos fossem mais conhecidos, especialmente de jovens empresários que são o "motor da mudança" do tecido empresarial e "os verdadeiros alicerces da criação de uma economia portuguesa sustentável". "Se isso fosse feito pelos órgãos de comunicação social e pelos outros agentes políticos, a confiança no nosso país e no estrangeiro seria mais forte e, consequentemente, seria maior o investimento e seria maior o emprego.» O Doutor Cavaco veio, uma vez mais, falar de cordas em casa de enforcados e de degraus numas escadas "ténues" que os não têm. Digo isto porque os "uns" com que o Presidente começa a conversa são aqueles a quem ele outorgou em Julho o ónus de dar corpo ao ciclo a que ele muito justamente aspira: o do "crescimento económico, da criação de emprego e do reforço de competitividade das nossas empresas". Até imaginou uma espécie de arca de Noé chamada "compromisso para a salvação nacional" em que esses "uns" e os "outros" coubessem todos e nos salvasssem da desgraça iminente. Contava, como se vê, com os derradeiros sacerdotes de Nietzsche, os media e o seu inefável cortejo de comentadores. Hoje deve ser um homem desiludido quando olha para "uns e outros". Não tem, porém, por que se queixar. Deu-lhes a dita corda para se enforcarem. Agora ature-os.

24.9.13

Escreve-se com v pequenino


 


O "quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas" já foi ultrapassado por "o sexo do homem é muito mais honesto, visível e mais facilmente lavável, enquanto o das mulheres é mais sinistro". Dizem que é "literatura portuguesa contemporânea". Perdoem-me mas o mais parecido que encontro com isto é cocó de cão. Com a vantagem de ser removível.

Revisão da matéria

Num notável exercício de auto-crítica e de retratação que se aprende lendo o Grande Timoneiro e a sua "história", o prof. Crato, em menos de uma semana, "decidiu" que, afinal, o inglês devia ser obrigatório desde o primeiro ciclo de escolaridade. A coisa foi revelada ontem, numa reunião do "conselho nacional de educação" que é presidido pelo prof. David Justino, "por acaso" assessor do Presidente da República e ex-ministro da pasta. Justino "bebeu" noutra cartilha esquerdista que, pelos vistos, o providenciou com uma maior densidade política do que a do prof. Crato. E Crato solicitou ao "conselho" que o "aconselhasse" no sentido indicado. Ou seja, o ministro foi obrigado pelas evidências - estas incluíram algum PSD - e pelo bom senso, ao nível do primeiro ciclo, a rever a matéria. Antes que a matéria o reveja.

Zelig-Portas






Dão-nos conta que o dr. Portas e um seu ajudante andam "empenhados" em trazer Woody Allen a Lisboa. O presidente da CML é mais avisado e sabe o que é contar dinheiro ("Infelizmente não estou nas condições de dizer o que o prefeito Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, disse: que pagava o que fosse necessário para que Woody Allen filmasse o Rio"). Depois de Londres, Paris e Roma, estas almas presumivelmente pretendem que o realizador use a capital - com o seu faduncho, o seu lixo, as suas obras de fachada e a sua irremediável decadência  - num filme que promova o lugar. Allen, evidentemente, não se importa «se o país estiver disposto a "pagar o filme".» O ajudante do dr. Portas olha todavia para Allen como para um chouriço ou um par de sapatos lusitanos - «Apesar das dificuldades de financiamento, o secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, admitiu no final de Março ao semanário "Expresso" que se houver contrapartidas o governo não descarta apostar neste projecto. "Qualquer apoio a existir por parte do Turismo de Portugal terá de ser dirigido a um filme com manifesto potencial de captação de turistas e que projecte realmente o destino.» Isto é não perceber nada do cinema de Woody Allen. Parecem a personagem de um filme dele intitulado Zelig, de 1983. Leonard Zelig vai-se apropriando da personalidade de algumas celebridades mundiais a partir dos anos 20 em diante. Quer ser como elas e quer aparecer ao lado delas sem saber muito bem o que é que lá está a fazer. Reescreve-as, reescrevendo-se enquanto caricatura de si mesmo no meio delas. Compreende-se este "lado Zelig" do senhor vice PM. Terá sido ele ou Zelig-Portas quem escreveu a carta de Julho, irrevogável e não dissimulada? Será ele ou Zelig-Portas que vai andar por Sintra ao lado do dr. Passos Coelho em campanha pelo improvável Pedro Pinto? Será ele ou Zelig-Portas quem nos meteu directamente nesta alhada?


 


 


Adenda (do leitor Alexandre Lopes): «Entretanto na futura Menezolândia, entre um porco no espeto e um bailarico pago sabe-se lá por quem, mais uma proposta espectacular (no seguimento das reuniões de Dr. Portas e ajudante): http://cinema.sapo.pt/atualidade/noticias/filme de-woody-allen em-portugal-deve-ser-feito-no-porto-diz-menezes. Nós, enquanto povo, merecemos muito do que nos está a acontecer. Mas será que merecemos tanto? Todos estes Portas e Menezes?»

23.9.13

A implosão

O único fim de semana de campanha autárquica foi politicamente desastroso em termos nacionais. Como as televisões só passam o que os chefes dos partidos dizem e, de preferência, o que nada tem a ver com o acto eleitoral do próximo domingo, a opinião pública ficou entregue aos delírios dessas pessoas. Do PS, pela natureza das coisas, não se pode esperar outra conversa que não seja a da demolição. Mas da maioria e do governo o que não se esperava era, dois meses após o início do prometedor "novo ciclo", pejado de luminárias e de salvadores avulsos da pátria, a pura e dura implosão. No entanto, foi precisamente de implosão que o primeiro-ministro, num mau lance de "coitadinho", falou em Alcanena - implosão do seu acrisolado amor pelo "mercado" e pelo "regresso a mercado", implosão do actual programa de ajustamento, implosão dos juros, implosão da credibilidade interna e da coesão da maioria. Porque noutro sítio, a salivar por leitões, o vice PM prometia uma vez mais a subida das escadas sem degraus a partir de "sinais ténues" e outras venturas que não foram avistadas em Alcanena. Mais. O primeiro-ministro não quis gentilmente deixar de notar que tudo se agravara com a crise de Julho que tem o corpo do vice PM todo derreado na respectiva balaustrada na melhor pose "eu fico". Isto quer dizer que, daqui para diante, vamos suportar uma farsa pior que a anterior e um jogo de sombras infinitamente mais perigoso para o país. O que estava a fazer mais falta agora aos portugueses era esta oscilação oratória (para esconder que não há efectivamente mais nada: nem "reformas" que, como bem recordou Marco António Costa, estavam feitas quando o dr. Lima aterrou caprichosa e traiçoeiramente na Horta Seca, nem desígnios a não ser a doentia e estúpida obsessão com um "Estado" que desconhecem) entre a mediocridade brilhante de um e superficialidade teimosa de outro enquanto tudo à volta arde. As menos que isto imploda como a torres em Tróia. Num ápice.

22.9.13

O que faz correr Sócrates?


 


Depois da entrevista e dos comentários semanais na RTP, José Sócrates vai publicar a sua tese de mestrado em Outubro. É "apadrinhada" e prefaciada por Lula da Siva que vem cá a expensas de uma empresa de construção civil. O que não deixa de ter a sua graça quando falamos de filosofia política. Mas isso não me interessa nada para o efeito. Afinal, o que faz correr Sócrates? A "vontade" de participar no debate público é curto. As audiências também são curtas. A presença na comissão de honra de Costa em Lisboa ainda mais curta é. Não. Sócrates quer "testar-se" numa altura em que os tempos políticos passaram a viver sob o signo do curto-termismo. E quer "testar-se" na frente externa e na frente interna. Um cargo internacional - na Europa, eventualmente -, indicado pelo PS, sozinho ou num governo de "compromisso nacional", podia ser uma hipótese. Mas uma candidatura presidencial ("tecnicamente" afastada numa entrevista a um jornal moçambicano) talvez seja tentadora perante o desvanecimento político e instiitucional em curso. Sobretudo se for assumida com um recorte presidencialista e de ruptura com a "praxis" minimalista em vigor. Os proto candidatos das direitas e das esquerdas que para aí andam, ou contentam-se com o perfil constitucional do PR ou até não desdenhavam diminui-lo um pouco mais. Quando chegarmos às vésperas das eleições presidenciais, se nada de extravagante se passar entretanto e a nação ainda for viva, o país estará exangue e farto das "instituições" e dos seus jogos florais. Os candidatos a candidatos que intuírem que é preciso "outra coisa" talvez obtenham a graça de ser ouvidos. E, com sorte, de ser seguidos nem que seja pela "felicidade" do esquecimento. Nenhuma das eleições previstas até às presidenciais de 2016 apresenta a priori condições para um valente murro na mesa democrática. Não estou a dizer que Sócrates possa, queira ou deva sequer aparecer nelas. Estou apenas a tentar perceber por que "corre" mesmo que, por fim, acabe por não sair do mesmo sítio.

Estados de necedade

«Não sei, por exemplo, se [Passos Coelho] fala inglês com alguma fluência e correcção, mas dizem por aí que não e que, nas conferências a que vai na Europa, acaba sempre por fazer uma figura penosa. Esta ignorância - se por acaso existe - seria, em princípio, só com ele. Mas passou a ser com todo o país, a partir do momento em que o Governo tornou o Inglês no 1.º ciclo do básico uma disciplina facultativa que cada escola fornecerá ou não a seu arbítrio às crianças que a frequentam: apesar de 90 por cento dos pais (e, em certas zonas, 95 por cento) estarem em desacordo com esta medida estúpida e ridícula (...) O Governo do sr. Passos Coelho, que não pára de insistir na necessidade de aumentar o que Portugal exporta, que sonha com a "internacionalização" dos produtos portugueses e que vive da escassa confiança dos mercados financeiros da Alemanha, de Hong Kong ou de Londres, decidiu de repente poupar uns tostões em aulas de Inglês, enquanto mantinha a obrigatoriedade de disciplinas tão úteis como a do "Estudo do Meio" e de "Expressões artísticas: físico-motoras". O que o Governo e o dr. Passos Coelho precisavam era de um curso intensivo para diminuir rapidamente a sua iliteracia e lhes dar uma ideia aproximada do universo em que vivem.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


 «A BBC tem vivido um "annus horribilis", nas palavras da ministra da Cultura. Escândalos atrás de escândalos: a quase-protecção de um apresentador famoso, predador sexual e pedófilo dentro das suas instalações; um projecto catastrófico de "modernização" que deitou 117 milhões de euros para o lixo; pagamento de 71 milhões de euros em indemnizações a altos quadros que se demitiram; humilhação no parlamento; pedido de auditoria a todos os salários; falta de ousadia na criatividade dos conteúdos. Deputados, governo e comentadores convergem: grande parte da responsabilidade desta situação deve-se ao sistema de governança da BBC que o governo português quer copiar. O modelo bicéfalo de um Trust e de uma administração foi criado à última hora pelo governo de Blair, substituindo uma proposta mais razoável de um grupo de trabalho. Deu nisto. Neste momento está em cima da mesa uma proposta para o modelo não chegar a 2017, quando deveria ser revisto (...) Desastroso, o processo da TDT deve agora ser reaberto. O ministro Maduro, com a sua ideia estatista de RTP "bandeira do Estado" e com precedência no mercado concorrencial, quer pôr a RTP Informação em sinal aberto, omitindo os privados. Logo SIC, TVI e Cofina, proprietária do CM e CMTV, reivindicaram, e bem, canais em sinal aberto na TDT. Liberal, este governo? »


 


Eduardo Cintra Torres, CM


 


 «Já fiz uma campanha inteira a ouvir a música dos The Gift e ganhei alma todos os dias [e agora é só subir as escadas]




Presidente do CDS, Alcobaça, DN

21.9.13

Juan Luis Panero 1942-2013






«Embora saiba, melancolicamente, que a inteligência, tal como o silêncio, as mulheres elegantes e, pelos vistos, o prazer de fumar são coisas chamadas a desaparecer, nego-me a acreditar que entre esses dois grandes grupos em que Sir Steven Runciman dividia o género humano, os tolos e os estúpidos, não restem ainda uns tantos interessados em evitar pertencer a tão populares agrupamentos.»

A papinha

Segundo o Expresso, o Presidente da República tenciona regressar à papinha farinha Amparo do "compromisso nacional" depois das eleições. Pelos vistos ao Doutor Cavaco não chegou a telenovela de Julho último, com aquela extraordinária semana entre os seus dois discursos na qual os partidos "fingiram" que andavam em busca do tal "compromisso de salvação nacional". Na tarde do dia do primeiro desses discursos tive ocasião de dizer ao prof. Álvaro Santos Pereira - passavam dez dias sobre a "crise Portas" - que a única solução política razoável para o que se estava a passar era eleições antecipadas. Os presentes olharam para mim como se lhes tivesse sido anunciado o fim dos tempos. Sucede que o PR decidiu prolongar "este" original fim dos tempos (os presentes agradeceram ingenuamente tamanha graça) e "delegou" nos partidos o único poder que depende exclusivamente de si - a dissolução do parlamento. Aparentemente é a isto que quer voltar depois das autárquicas porventura já a pensar no segundo resgate, "cautelar" ou não "cautelar", e na incapacidade política das presentes pessoas em exercício o impedirem já que pelo menos uma delas deu o maior empurrão que podia dar para o efeito. Boa noite e boa sorte.

A ilha grega


 


Por volta das cinco da tarde fui até à praia do Guincho. Esta costuma ser a melhor altura para lá ir, entre o fim do que era dantes o verão e o princípio do que era dantes o outono. Sem vento, com temperaturas de ar e de mar agradáveis, a coisa sempre prometia. Hoje também não havia vento, o mar estava agitado mas adequado a quem o conhece. O calor destoava da época e a época destoa de tudo. As pessoas também, sobretudo porque eram muitas. O que implica, por exemplo, que nas estradas contíguas fique quase só disponível uma faixa para circular. As ditas pessoas apreciam "largar" os carros em vez de os estacionar. Algumas apenas não os levam para a praia propriamente dita porque não podem. Na areia, as amenidades passam pelas inevitáveis bolas, grandes e pequenas com raquetes irritantes, e por famílias numerosas que se tratam por "você". As meninas salpicam-se à beira-mar em fatinhos de banho dos anos 20 do século XX e as mãezinhas falam entre si até que uma das meninas é ameaçada por uma onda mais alvoraçada que vem morrer aos pés da criancinha. Passados uns segundos, já as meninas correm atrás uma da outra e as mães retomam a prosa vaga. A rapaziada do surf e do bodyboard troca impressões sobre o estado do mar e cumprimenta as meninas mais velhas com um solitário beijo. Elas passeiam-se com os telemóveis, melancólicas e conspirativas, sendo salpicadas intermitentemente pelos rapazes que entram e saem da água consoante os intervalos da bola. São todas e todos iguais. Havia ainda um "estrangeiro" que ressumava a uma lula e que se enrolava na ondulação despreocupadamente. Em suma, reinava a tranquilidade, a mansidão e a indiferença. Parecia uma ilha grega.

20.9.13

A escada não tem degraus

Jorge Moreira da Silva, ministro do ambiente e de mais duas ou três coisas que não me ocorrem, só tinha aparecido para tomar posse. Ainda não lhe ouvimos uma palavra sobre as rendas energéticas, por exemplo. Em compensação fomos contemplados com a sua "opinião" acerca dos colegas de Governo e da maioria que tagarelam incessantemente sobre as décimas, o défice, a perfídia dos credores e, em especial, a do FMI. Moreira reputa de "insensatas" essas conversas enquanto a troika avalia. Não sei se o ministro inclui neste "conselho" o Presidente da República, de quem foi assessor, uma vez que o Doutor Cavaco foi o primeiro a apelar ao "bom senso" da troika durante a 8ª e 9ª avaliações. Por outro lado, quem surgiu a "explicar" a "chuva" (sic) de cerca de 21 mil milhões de euros do novo fundo europeu 2014-2020 foi um dos secretários de Estado do prof. Maduro - o do desenvolvimento regional -, quando o prof. Maduro é o homem que precisamente devia evitar a prolixidade comunicacional do Executivo. Aliás, o seu bracinho direito, o dr. Lomba, ainda há umas escassas semanas prometia uma comunicação "mais consistente". Tem-se visto e, pelos vistos, o eng. Moreira da Silva também viu e acabou livremente a falar por conta própria. Todavia, nem tudo é mau na semântica do "novo ciclo". De acordo com o senhor vice PM, «já saímos do fundo, estamos a começar a subir a escada.» O que o dr. Portas não diz, porque não é dissimulado, é que a escada não tem degraus.


 


Adenda: O prof. Maduro, afinal, regressou às declarações apesar dos avisados conselhos do prof. Marcelo. A sua versão da "escada que não tem degraus" é pois a seguinte - «Portugal está “claramente” numa situação “de viragem do ciclo económico” que, contudo, “não se processará do dia para a noite nem da noite para o dia”.» E assim sucessivamente, acrescento eu em homenagem a João César Monteiro.

19.9.13

O prof. Crato


 


Quando o prof. Crato ruminava pelas televisões e calhava ouvi-lo, nunca encontrei motivos particulares para discordar. O homem era cordato, argumentava com um módico de concordância formal e substantiva e, apesar de ser economista, tinha um particular desvelo intelectual pela matemática o que, num país em que essa literacia não é famosa, o tornava interessante. Para além disso, condenava o "eduquês", uma coisa em que a educação, do básico ao secundário, se foi transformando obsessivamente durante o regime. Talvez por causa disto, alguém o recomendou ao dr. Passos, famoso pelo seu deslumbramento kitsch pela academia. O prof. Crato começou aparentemente bem como uma espécie de supra-Isabel Alçada, a sua antecessora. A ecologia do ministério e os sindicatos reagiam sem excessos às reuniões e às propostas, e Crato, como bom maoísta que foi, "diluiu" as latências conflituais no pacote do dr. Gaspar que, por natureza, tinha as costas largas. E até caiu em melhores graças mediáticas quando, de novo na televisão, e louvando-se num relatório do qual nunca mais se ouviu falar, esquartejou, com a impiedade típica de um zeloso velho seguidor do desdentado Mao, um colega seu de governo que acabara de se demitir. Entretanto estes biombos, para não sair do recorte chinês, foram caindo e o prof. Crato acabou exposto recentemente com as "novidades" divulgadas para o novo ano lectivo. Hiper liberal como qualquer ex-maoísta que se preze deve ser, o prof. Crato tem andado para aí a defender a "liberdade de escolha" como se vivessse na Noruega ou na Finlândia. E como se os destinatários da dita "liberdade de escolha" tivessem rendimentos per capita equivalentes aos desses maravilhosos países. O resultado está à vista. Uma trapalhada, quer pelo lado dos professores, quer pelo lado dos alunos, nas sucessivas "aberturas" do ano lectivo, o desvirtuamento ético do papel da escola pública numa democracia liberal, uma mexida deletéria no ensino do inglês que não se compreende, etc., etc. Em resumo, um conjunto de infelicidades que recomendam pelo menos, como Marcelo sugeriu em relação a outros dois membros do governo, que se cale.

A visita ao buraco


 


No metro vinha um dos "ajudantes" da troika. Contemplava a fauna com o ar que quem repete para si mesmo: "é isto?" Estas avaliações, a oitava e a nona, serão muito difíceis. Até um cego já viu. Nada ajuda. A coisa já tinha começado com a sétima como famosamente o dr. Gaspar fez questão de salientar na sua carta de demissão, o tal documento que toda a gente finge que nunca existiu. Quase simultaneamente, o dr. Portas abriu a "crise de Julho" e, com a mesma cara de pau, foi apresentar-se aos credores, cerca de um mês depois, como o novo Lidador da pátria. Imagino que devem ter adorado conhecê-lo e ao seu misterioso programa de "reforma do Estado". Uma vez chegados aqui, os credores depararam-se com uma campanha eleitoral absurda em que os principais dirigentes partidários discutem, de uma terra para a outra, as décimas do défice e a intrínseca "hipocrisia" dos referidos credores. Pelo meio, alguém lhes há-de dizer que a principal interlocutora está a ser alvo de uma campanha mediática destinada a enfraquecê-la politicamente por causa da sua "vida anterior" enquanto trabalhadora investida em funções públicas. Em suma, os homens vieram meter-se num buraco do qual necessariamente vão retirar as piores ilações. E é entretanto neste buraco infecto que se "oferece" vistos de residência e, até, a nossa gloriosa nacionalidade a terceiros que queiram investir nele pelo menos 500 mil euros. Por natureza, um buraco é o mais fundo dos fundos. É onde estamos e não merecemos melhor.

18.9.13

A nossa era do vazio






Numa breve troca de palavras com Gilles Lipovetsky à porta da SPA, referi-lhe andar a reler A Era do Vazio (na 1ª edição uma vez que, disse-me o autor, hoje em Aveiro, onde é doutorado honoris causa na respectiva Universidade, será lançada uma nova com prefácio de Manuel Maria Carrilho). O livro é de 1983 mas, para o caso, podia ter sido escrito nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos. No fundo Lipovetsky antecipa as infelicidades que vivemos presentemente na sociedade e na "individualidade". É, insisti com ele, um livro da maior actualidade para tentar perceber, por exemplo, o que para aí vai entre nós - a boçalidade social, política, económica, financeira, cultural e mediática que domina - e que mais não corresponde do que a "formas de aniquilamento destinadas a reproduzirem-se por um tempo ainda indeterminado" nas quais "o deserto cresce", a "ameaça absoluta", "a potência do negativo, o símbolo do trabalho mortífero dos tempos modernos até ao seu termo apocalíptico" também. Estamos, portugueses, tomados pela síndrome do "hiper" em tudo sem praticamente qualquer saída para nada. Veja-se os juros da dívida a longo prazo e a queda generalizada na procura dos nossos amados bilhetinhos do Tesouro nas diversas maturidades. Olhe-se para a falácia da "requalificação" (alguém explica seriamente às pessoas que, ao fim de três anos, pura e simplesmente não podem regressar a umas funções que já não existem porque o vínculo laboral se extinguiu entretanto?). Espere-se pelos "milagres" que o dr. Lima vai trazer à economia portuguesa apesar de quase dois meses de banalidades deslumbrantes debitadas com o embotamento estéril das "grandes" certezas. Atente-se nas dezenas de "anos lectivos" que o prof. Crato já abriu, semi-abriu e ou não abriu de todo por esse país fora e naquilo que vai dizendo e fazendo em contradição com tudo o que fez dele o campeão do anti-eduquês (Lipovetsky bem explicou o papel da Escola e dos professores na preparação, desde cedo, para a cidadania que ele denomina "cultura-mundo" no seu lado luminoso e feliz) e faz dele, agora, a nova nemesis dos centros de emprego. Podia continuar. Todavia um dado revelado por Carrilho na introdução da conferência resume dramaticamente esta doméstica era do vazio. Em cada cem euros de dinheiros públicos, apenas um a dois cêntimos se destinam à cultura. Não é preciso dizer mais nada.

17.9.13

Lipovetsky em Lisboa


 


 


«O filósofo francês Gilles Lipovetsky inaugura na terça-feira em Lisboa [pelas 18.30]uma série de encontros mensais para debater o actual estado da cultura em Portugal, coordenados pelo ensaísta Manuel Maria Carrilho, anunciou a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). O "Fórum Cultura Viva", que acontece na sede da SPA, é uma iniciativa deste organismo, "preocupado com a falta de debate, com a falta de discussão em torno da situação da cultura, com as políticas públicas, mas não só", explicou à agência Lusa Manuel Maria Carrilho. "Há muito queixume, muita lamentação, há muita crítica, mas não tem havido debate: qual é a situação, o que é que se deve fazer, quais as causas, o que se pode fazer em termos nacionais, em termos europeus, em termos lusófonos. Há muita coisa a pensar se as pessoas o quiserem fazer."» Se as pessoas o quiserem fazer em vez de constantemente se afundarem entre ovos moles e claras em castelo "consensuais".

O Estado de Direito morreu?

«Um princípio essencial a qualquer regime democrático, adoptado no art.º 13.º da nossa Constituição, é a igualdade perante a lei. Esse princípio proíbe, naturalmente, o lançamento de tributos apenas a uma classe de cidadãos, como foram exemplo histórico os impostos lançados aos judeus. No entanto, em Portugal, desde que a crise começou que têm surgido sucessivos tributos de classe, levando a que algumas categorias de cidadãos sejam especialmente chamados a pagar a crise. Infelizmente, esta escandalosa discriminação tem contado com a complacência do Tribunal Constitucional, que apenas interveio numa situação, legitimando todas as outras. Foi assim que os funcionários públicos, inicialmente sujeitos a um corte de 10% nos salários em 2011, viram repetido esse corte no ano seguinte, aumentado para 24% por via do corte dos subsídios. Declarado inconstitucional em 2012, o Tribunal Constitucional só mandaria o governo repor os subsídios em 2013, legitimando assim um confisco inconstitucional. Neste mesmo ano, o Tribunal Constitucional aceitou uma escandalosa tributação especial que apenas incide sobre os pensionistas, a denominada contribuição especial de solidariedade. Agora temos uma nova tributação de uma classe dentro desta última: depois de as suas pensões já terem sido sujeitas a uma tributação especial, os pensionistas do sector público vão ainda sofrer mais um corte de 10%.
Em Portugal, o Estado de direito morreu.»


 


Luís Menezes Leitão, i


 


Nota: pelo lado "político" da coisa, em relação aos pensionistas, o Henrique Monteiro interpela adequadamente o senhor vice PM, ou seja, o Governo do "novo ciclo", e «a sua irrevogável tentação para o populismo». Mas o que é que isso importa quando Portas tem por aliados tantos "amiguinhos" nos media (ele e os seus) e a aparente tolerância do imenso deserto indiferente que é hoje a opinião pública nacional, devidamente acantonada nos seus receios e nas suas coisinhas,  salvo dois ou três derradeiros sacerdotes como diria Nietzsche?

16.9.13

Está tudo dito

Depois das infelicidades de Julho, o Presidente da República reapareceu e falou. Toda a gente deu relevo à reprise da "cultura do compromisso" e ao apelo ao "bom senso" da troika porque supostamente estamos "a crescer". Poucos repararam - porque o PR disse que a coisa primeiro tem de passar pelo parlamento que, nesta matéria, ouviu hoje declarações inadmissíveis de deputados que pretenderam defender o indefensável - que, a propósito dos cortes ditos de convergência nas pensões em vigor, o Chefe de Estado usou o termo imposto extraordinário. Está tudo dito. E bem dito.

Um plano inclinado






O meu "par" dos Portistas de Bancada relata um episódio "edificante" que envolve a língua portuguesa. Tanto mais interessante, o episódio, quando o prof. Crato anda para aí num interminável road show de aberturas e mais aberturas do ano lectivo, de "acordos" com terceiros para exames de inglês e de conversas surdas sobre colocações, etc., etc, o que revela, como se fosse preciso, a importância que a Escola devia ter no futuro de tudo e não tem. Esta "história" evidencia um presente em que "tudo desliza e se apaga numa indiferença descontraída", para usar um termo de Lipovetsky que amanhã está em Lisboa. Em suma, um plano inclinado.

O que vale

Até conseguir ver a troika "pelas costas", o senhor vice PM ainda tem muito que penar para desatar um nó que ele mesmo atou («O problema é que, desde a crise política, e com um novo agravamento na última semana, as taxas de juro da dívida pública portuguesa estão a um nível que não permite pensar num regresso bem sucedido aos mercados. Na sexta-feira, as taxas a dez anos chegaram muito perto dos 7,5%. Perante isto, o debate com a troika deverá ser muito mais sobre um segundo resgate do que sobre um programa cautelar.»). E, antes dele, os portugueses, essa entidade abstracta servida em doses moderadas pelos jantares de campanha. E antes dessa abstracção retórica, outros portugueses efectivamente bem caracterizados pela Ana Sá Lopes e que durante muito tempo "comoveram" o actual número dois do Governo a ponto de o terem "obrigado" a traçar uma "linha vermelha" que nunca mais se viu: «O esquecimento, a demagogia, a cassete da austeridade virtuosa (para lhe chamar qualquer coisa que não seja simplesmente a cassete da defesa da classe dominante) é particularmente evidente no corte retroactivo das reformas e na lei chumbada do despedimento de funcionários públicos. Estes reformados nunca viveram acima das suas possibilidades porque, quando nasceram, não havia “possibilidades”. Nasceram num país miserável, onde quase ninguém estudava e os serviços de saúde metiam medo. Foram eles que ajudaram a construir o país mais ou menos decente que ainda temos enquanto não rebentarem com ele de vez. Solidariedade intergeracional é ter consciência do que lhes devemos e não os tratar como carne para canhão.» Pois é, senhor vice PM, chegou a hora de mostrar finalmente o que vale. Serei o primeiro a tirar-lhe o chapéu.

15.9.13

Medidas últimas ou as últimas medidas?


 


Vozes ligadas aos partidos da maioria, como Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou Marques Mendes - este ainda mais insuspeito porque "frequenta" a maioria e o Governo -, criticaram asperamente não apenas a substância mas também a forma escolhidas pelo Governo para tratar a alegada convergência de pensões e a chamada "requalificação" dos trabalhadores públicos. Marques Mendes, aliás, colocou uma questão politicamente relevante. Por menos do que isto, o Governo, pela voz do próprio primeiro-ministro, "explicou-se" ao país e não deixou a coisa por um comunicado e por umas frases soltas proferidas por um secretário de Estado. Ou pelas manchetes dos jornais e das televisões que, evidentemente, "explicam" tudo como entendem. Nalguns casos até prestam um serviço público de esclarecimento que quem de direito não consegue, ou não quer, prestar. Aparentemente o Governo ainda não se deu conta do "alarme" social que isto pode provocar quando, por exemplo, se perceber que os "cortes" (no jargão em vigor, "medidas" equivalem a "cortes" e os "cortes" são as "medidias"), quando nascem, não são para todos (M. Mendes recordou a subvenções "políticas"). Sempre disse que o OE de 2014, de que estas "medidas" fazem parte, é o documento político mais importante que o Governo jamais deu ou dará à luz. Todavia, dá a impressão que trabalha afincadamente para que seja o último.

O nosso tio da América


 


Os telejornais da hora do almoço abriram com o contrato que Ronaldo acabara de assinar com o Real Madrid. Na sequência dele, o rapaz da Madeira passa a ser o jogador que maior ordenado aufere no mundo da bola. Porque é que isto interessa? Por vários motivos o menor dos quais a nacionalidade do rapaz que apenas serve para ser usada em manobras de propaganda lá fora, a mais recente das quais anunciada para a China a expensas do Turismo de Portugal. Ronaldo, apesar da tenra idade, é o "nosso tio da América". Teso que nem um carapau, humilhado nos seus rendimentos de trabalho, tratado amoralmente como lixo depois de aposentado, sem perspectivas de emprego, estude muito, pouco ou nada, o português aprecia rever-se nestes negócios. Toma simbolicamente como seus os quase 20 milhões/ano que o rapaz vai ganhar, prefere-o ao "intelectual" Mourinho que é demasiado sofisticado para ser entendido aqui, gostava de ter as namoradas que ele tem, as casas que ele tem, as viagens que ele faz, as cuecas que ele promove. Ronaldo é, assim, uma "honra nacional" num momento em que a honra nacional não se recomenda nem nas Selvagens. Mas que o português deslumbrado por estas façanhas não se engane. O mérito é apenas do rapaz. Calhou-lhe ter nascido neste sítio. Mas, para sua perpétua felicidade, viu-se livre disto rapidamente. Só por aí, estará sempre de parabéns.

14.9.13

A "entidade genuinamente independente", a BBC e a RTP

Acerca disto, estas interessantes observações de Nuno Azinheira no Diário de Notícias sobre a "exemplar" BBC dos dias de hoje. «É que o busílis, no que à RTP diz respeito, não está na tutela: está na dimensão. Na dimensão da empresa, na dimensão do caderno de encargos, no peso exercido pela estrutura quer sobre o erário público quer sobre o universo da televisão portuguesa. De resto, não vamos mais longe: hoje mesmo, a revista conservadora The Spectator exige, em editorial, a privatização da BBC. Em parte por azar, em parte por forçar a tónica errada, Poiares Maduro dá-nos conta da intenção de replicar em Portugal o modelo de propriedade e administração da estação pública britânica na mesma semana em que, em Inglaterra, se debate um tema quente: o pagamento de indemnizações sumptuosas a ex-administradores da empresa, num valor total acima dos 60 milhões de libras - e, de repente, o recurso a uma série de expedientes de facturação especial (incluindo, por exemplo, processos em tribunal contra os profissionais de comunicação com licenças em atraso) para compor o orçamento. A BBC, independentemente da The Spectator, é grande de mais. E burocrática de mais. E corporativista. E fundamentalmente sem desafios, porque tem o financiamento garantido. E porque os seus profissionais têm o emprego garantido também (ou então as indemnizações sumptuosas). E porque, no fundo, há um défice de monitorização da parte da sociedade civil. E porque, em todo o caso, ainda não se sabe bem o que o serviço público seja. Portanto, o primeiro passe de Poiares Maduro, é bom. Mas falta - insisto - saber o essencial: que dimensão terá a RTP? Quanto custará? O que deverá fazer? Que publicidade roubará aos seus legítimos destinatários? Nada disto se percebeu ainda.»

"Não percas a rosa"


 


Se fosse viva, Natália Correia teria feito ontem noventa anos. Pouco dirá agora às gerações que julgam que o protótipo do literato é um "valter hugo mãe" ou uma treta semelhante. Ou que um polemista se resume a um misto de sucessivas declinações do "eixo do mal" com Medina Carreira, por exemplo. Natália Correia - como, noutro plano, Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) - pertence a um mundo que acabou. É claro que há os livros, os programas, as fotografias, as memórias deste ou daquele (sem contraditório, o que as pode tornar num pretexto para os seus autores falarem mais deles do que dela), etc., etc. Mas, no fundamental, aquela espécie de festim nu que Natália e os seus protagonizaram décadas a fio, sobretudo no "meio" lisboeta (como se houvesse outro), é incompreensível à luz dos "valores" em vigor. Não porque Natália fosse um extraordinário poeta (nunca foi), um invulgar dramaturgo (também não) ou um prosador, como se costuma dizer, incontornável. O que sobretudo retemos de Natália é aquilo que mais falta faz no espaço público nacional e que talvez o livrinho Não percas a rosa resuma melhor do que qualquer outro, datado ou não: a liberdade de espírito, a opinião forte, a impiedade crítica que irrita. Não é por acaso que o declínio físico de Natália é coevo da banalização e da trivialidade que tomou conta de tudo e de todos a partir de certa altura. Acredito que Natália tenha morrido afogada em amargura e solidão. A partir de dado momento as coisas devem ter deixado de fazer sentido e ela - espírito, corpo, cidadania - desistiu. Apesar de ter sido sempre uma mulher moderna desde a adolescência, não conseguiu rever-se na "modernidade" absurda e vazia que se instalava mansamente entre nós. Pessoas como Natália Correia não aceitam contemplar espectáculos destes até ao fim como bonzos vulgares. A sua dimensão não é a vida nem é a morte.

Os pastelões


 


Precisamente daqui a quinze dias - inúteis - têm lugar as eleições autárquicas. As últimas com um módico de punch foram as de Dezembro de 2001. De norte a sul, o país, mais do que escolher este ou aquele contra o outro, decidiu varrer indirectamente o imenso pastelão em que se tinha tornado a governação de António Guterres. A coisa foi tão surpreendente que o então líder do PSD, D. Barroso, que já se tinha despedido da noite eleitoral, voltou depois de Guterres ter anunciado que se ia embora, exibindo a gravitas de futuro, ainda que breve, PM. Nada disto veremos na noite de 29 de Setembro a menos que haja para aí uma qualquer "maioria silenciosa" que não debita para as sondagens e que se reserva para o voto. E não será por falta, não de um, mas de vários pastelões. Sucede que a mediocridade do "ambiente" político geral fatalmente contamina este processo. Para além disso, as pessoas estão assustadas. As prestações dos principais dirigentes partidários são confrangedoras e as dos candidatos autárquicos "mediáticos" não são melhores. Nas principais capitais de distrito, não se vislumbra uma luz. Nos concelhos limítrofes, salvo raras excepções, é a mesma coisa. Em Lisboa, onde voto, Costa será amplamente reeleito e, espero, Seara adequadamente vexado. O presidente da Câmara, em vez de ter reunido a sua comissão de honra no quentinho chique do Pátio da Galé, devia tê-la conduzido através do lixo e do pó das obrinhas de circunstância dos passeios de Lisboa. E Seara devia fazer um voto patriótico de silêncio durante estes quinze dias para dar descanso à sua proverbial nulidade. Entre estes dois "colossos", com as cabeças noutras coisas, apetece ficar em casa, votar em branco ou votar num candidato que sobretudo não dispute nem a nossa paciência nem a nossa inteligência.

Quem é que precisa de uma "requalificação"?






«O ministro Poiares Maduro, no estilo bastante arrogante com que faz declarações, diz que quer "uma nova cultura política para Portugal", coisa que ele sabe o que é, escolheu no lote de "culturas políticas", e que nos acena como "melhor". Repare-se que ele não se fica por pedir uma outra política, ou outras práticas políticas, quer nem mais nem menos do que uma "nova cultura política", ou seja, que pensemos de forma diferente (...). Sei muito bem qual é o contributo que o ministro Poiares Maduro pode dar para essa "nova cultura política": demitir-se de imediato e denunciar o discurso, a prática, a linguagem do actual poder, a mais velha e perniciosa cultura política que existe em Portugal, uma mistura de muita ignorância, apego ao poder, desprezo pelos portugueses, partidocracia e dolo. Em que casa é que ele pensa que está? (...) Ele não podia deixar de saber ao que vinha e para que vinha. E sabia-o tão bem que de imediato se colocou na função de repetidor da propaganda governamental naquilo em que ela é mais dolosa, função que tem desempenhado até ao dia de hoje, como circulador de falsos argumentos e de afirmações manipulatórias. O intelecto e a arrogância ajudam, a subserviência acrítica de muita comunicação social faz o resto (...) Na mesma semana em que nos exortou a uma "nova cultura política", em que "as ideias sejam discutidas em vez de ser substituídas por slogans", ele assinou um comunicado do Conselho de Ministros. Nesse comunicado diz-se, quanto ao "processo de requalificação" (que ele já tinha jurado na entrevista à TVI não ter como objectivo despedir ninguém), que os primeiros doze meses se destinam "a reforçar as capacidades profissionais do trabalhador", e que, por isso mesmo, dão logo origem a uma brutal diminuição de salário, seguida de um ersatz do despedimento, apenas porque o Tribunal Constitucional não permitiu a fórmula anterior. Quer dizer "reforçam-se as capacidades profissionais do trabalhador", gastando dinheiro e recursos, e depois deita-se fora. É isto que é uma comunicação "menos baseada na táctica política e mais nas opções políticas de fundo, e fornecer às pessoas o máximo de informação viável"? Um intelectual que aceita chamar "requalificação" àquilo que o Governo pretende há muito fazer, despedir funcionários públicos, não merece qualquer respeito, nem que tenha mil doutoramentos.»


 


José Pacheco Pereira, Público


 


 


«No cérebro do sr. Seguro, não existe o vestígio de uma ideia. E o PS não achou conveniente fabricar um programa, um horrífico trabalho que guarda para o Verão de 2014. Por isso, quando vai animar a festa (mais conhecida, no vocabulário da seita, por "campanha"), está reduzido a duas soluções: ou se indigna com a miséria da austeridade, ou promete desfazer tudo o que o Governo fez, coisa em que ninguém acredita e que, de resto, é patentemente absurda. A dívida continua com ou sem Passos Coelho e os credores não amolecem ao ver a carinha de Seguro, mesmo que ele ponha, como devia, um bibe. Seja como for, os sofrimentos de agora ninguém os "paga", sobretudo com promessas de um regresso mítico à prosperidade e ao dinheiro fácil do Portugal que morreu em 1910. Passos Coelho também fica em perigo cada vez que abre a boca. Anunciar cortes, despedimentos e o aumento do horário de trabalho para o funcionalismo público não é, como se calculará, a melhor maneira de convencer o eleitorado a votar na gente que lhe trouxe tantas benesses. Pior ainda, o crânio do primeiro-ministro anda, coitado, tão vazio como o de Seguro. Perdido na crise, é constantemente empurrado de um lado para o outro, nega e afirma, não manda de facto no Governo e trata com um inexplicável zelo as querelas do partido e da coligação. Nestas patéticas circunstâncias, o silêncio era a melhor política. Mas não para Passos, constantemente obrigado a falar. E ele fala, coitado, com o amadorismo e a irresponsabilidade a que se habituou na JSD. As vociferações contra Seguro acabam por ser o melhor refúgio, tanto mais porque Seguro amavelmente retribui. Este par é que precisava com urgência de "requalificação".»


 


Vasco Pulido Valente, idem

13.9.13

O sorriso de Gaspar

Afinal bastou uma deslocação da ministra das finanças ao Eurogrupo para se esclarecerem as "dúvidas" das décimas e do défice. As metas, disse o Eurogrupo, continuam a ser as do dr. Gaspar. A fala mais recente do senhor vice PM foi assim, em apenas dois dias, ultrapassada pelo fantasma do referido dr. Gaspar. Também o dr. Lima, da economia, foi colocado no devido lugar pela ministra quanto ao IVA da restauração: nada, referiu, está previsto. Em suma, no "novo ciclo" o que é certo para uns é incerto para outros e assim sucessivamente. Gaspar sorri.

Uma conversa


 


Estive a ler com atenção esta entrevista do Nuno Santos. Quando foi alvo de um "inquérito" interno, escrevi que o considerava «um profissional a quem quero, aqui, protestar livremente a minha consideração e estima pessoais. Não se atira impunemente a honra de quem quer que seja aos cães com processos sumários ou tentativas de linchamentos públicos.» Nessa altura não podia sequer imaginar que o Nuno iria ser, depois de ter estado suspenso, despedido. E que, em consequência disso, teria de procurar trabalho fora de portas e mudar por completo a sua vida pessoal e profissional. Acompanhei isto tudo desgraçadamente por perto. Incomoda-me um país e, volto ao termo de propósito, uma democracia dita liberal em que, involuntariamente, as pessoas têm de sair em razão da prepotência caprichista de outras pessoas. Se me envolvi mais neste "caso", aceitando ser testemunha no processo judicial que o Nuno moveu contra o seu despedimento, é porque não aceito a derrota da verdade e do direito às mãos desse caprichismo ainda por cima mal amanhado. Mesmo sabendo que outras pessoas que estimo estão do lado oposto. Todavia, a minha liberdade de acção, nesta matéria, não é menor do que a que sempre achei que devia ser assegurada a quem tem de tomar decisões políticas. E que, para o bem e para o mal, deve prevalecer. A entrevista termina com uma pergunta: «Esta entrevista é publicada no dia 13, o dia para o qual está marcada a primeira audiência preliminar. Acredita ainda num acordo?», ao que o Nuno Santos responde:«Isso depende de algum espírito de abertura das partes. Eu tenho espírito de abertura, sobretudo em nome dos superiores interesses da RTP e da paz na empresa, mas não cederei no essencial.» É um bom começo para uma conversa, no sentido pragmatista do termo, que quanto mais depressa terminar para todos, melhor.

Entretanto no mundo






«A situação agora é esta. Se as negociações entre a América e a Rússia falharem, a Rússia acusará, como de costume, a América de imperialismo e má-fé; e Obama ficará praticamente impedido de avançar com a sua "intervenção cirúrgica". Se as negociações não falharem, a América entregará sem um gesto a Síria ao sr. Putin. Mas, pior do que isso, a incapacidade da esquerda (americana ou não) para perceber as realidades do poder será arrasadoramente provada e a América voltará tarde ou cedo a uma forma atenuada de isolacionismo. O que de certeza não fará bem nenhum ao mundo.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

Como é que se faz?






O prof. Maduro mandou divulgar as suas "ideias" sobre a RTP no jornal Público. De acordo com o texto, a "entidade genuinamente independente" que vai gerir a empresa a breve trecho será nomeada pelo Governo. Depois, a "entidade" escolherá os gestores por concurso ao qual deverão candidatar-se "pessoas com um perfil de reconhecido valor social e intelectual em áreas como a comunicação, gestão, economia, e preferencialmente sem ligações partidárias". Acrescenta-se que "a escolha dos administradores será sempre feita a partir de um processo de candidatura, individual ou em equipa, num concurso público sujeito a regras de escrutínio" semelhante ao que já existe para os cargos dirigentes do Estado e equiparados. A "entidade" trabalhará pro bono ("elementos não serão remunerados e poderão ser substituídos por um novo governo") e a RTP, como um todo, ficará aparentemente como estava e sempre esteve, desde os canais "tradicionais" de rádio e televisão até ao que no texto é denominado de "janelas regionais". Nenhuma palavra, porém, sobre serviço público de rádio e de televisão ou contéudos a não ser o que já se sabia ligando a televisão ou ouvindo a rádio. Uma vez mais a empresa sobreleva tudo porque é o que politicamente interessa. E como assim é, a jornalista deixa uma dúvida pertinente (imagino que já não faça parte do "roteiro para o futuro da RTP", um plágio filológico, pelo menos, dos "roteiros" presidenciais como que a sugerir ao Doutor Cavaco que perpetre um sobre serviço público e conteúdos o que talvez não fosse uma má ideia): "Com o fim da indemnização compensatória já este ano, o financiamento para 2014 continua a ser curto. Alberto da Ponte, que tem até ao fim do próximo ano para implementar o Plano de Desenvolvimento e Redimensionamento que implica grandes cortes na despesa, já disse que precisa de pelo menos 200 milhões de euros para 2014, e a Contribuição para o Audiovisual e as receitas próprias em que se inclui a publicidade chegam apenas aos 180 milhões. O ministro já se mostrou disposto a estudar uma solução com a administração, pelo menos para os canais internacionais. A chave poderá estar precisamente nos ministérios que venham a ficar envolvidos nesta parceria.» Por que é que não perguntam ao dr. Portas, o ministro de Tudo do "novo ciclo" e feroz adepto da RTP "deixa-estar-como-está-para-ver-como-é-que fica", como é que se faz?

12.9.13

Estado mínimo exige Justiça máxima


 


Estive na posse do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Juiz Conselheiro Henriques Gaspar. Produziu um exelente discurso que não é de circunstância e que merece ser lido com atenção. Porque revela que nem todas as instituições da nossa frágil democracia pseudo-liberal deixaram de pensar e  se entregam a empirismos perigosos, a retóricas néscias ou ao esvaziamento prático de funções e de responsabilidades. E as suas palavras ganham mais força quando o sentimento jurídico colectivo se encontra profundamente abalado pela leviandade com que se trata coisas sérias. A qualidade da vida das pessoas também passa pela qualidade do Estado de direito, ou não, em que vivem e na confiança que podem, ou não, ter nele. Bem vindo, pois, Dr. Henriques Gaspar.

"Ficou de apresentar"

Ontem, numa visita a escolas e por entre o descerrar de bandeirinhas, o senhor PM informou o país que o senhor vice PM "ficou de apresentar uma orientação" para a reforma do Estado e que ele conta ter essa "orientação" talvez em Outubro. Se bem me lembro, porque ainda por lá andava, a dada altura o PM estabeleceu com clareza, depois de um amuo circunstancial do dr. Portas, então MNE, que o tandem Portas-Gaspar, ministros de Estado, coordenaria politicamente a chamada "reforma do Estado". Mas a "reforma" foi ficando nas mãos do dr. Rosalino e sendo progressiva e perigosamente reduzida ao que se sabe. Com a demissão do dr. Gaspar e o bluff do dr. Portas perpetrados em Julho, a este, entre outras, foi de novo cometida a ingente tarefa, agora solitária, como recordou o primeiro-ministro em português suave: "ficou de apresentar". E nós ficamos à espera que ele apresente. Da mesma forma que esperamos, de uma maneira geral, que ele não falhe.

11.9.13

A "coordenação"

Depois da demissão do dr. Gaspar, e não obstante a dra. Maria Luís Albuquerque, parece que teve início um "talk show" dentro do Governo para ver quem é que "faz" de ministro das finanças. Desde o chefe do Governo, ao seu vice, passando pelo ministro da economia e pelo prof. Maduro, não há ninguém que não se coloque virtualmente no lugar da incumbente para emitir sentença em sede de finanças públicas. A correria é tanta que até tropeçam nas décimas uns dos outros. Onde é que está a "mais consistente", de acordo com o dr. Lomba, "coordenação política"?

10.9.13

Você (não passa) na tv


 


As televisões generalistas recusam a cobertura da campanha para as autárquicas. O pretexto é o "enquadramento jurídico" feito pela Comissão Nacional de Eleições sobre a coisa. Ora o que não passa na televisão é como se não se tivesse passado o que é adequadamente explicado no livro da foto. Isto quer dizer que o "financês", o "economês" e a pura estupidez vão continuar a dominar a política. Porque um momento político por excelência como uma eleição, mesmo com a natureza da que tem lugar dia 29, é tornado mediaticamente irrelevante a não ser na parte que dirá respeito aos jogos florais - e quanto mais triviais e boçais, melhor - entre os principais dirigentes político-partidários. Talvez o país não mereça, em abstracto, melhor.

Da "linha vermelha" só escapam os mortos


 


«O diploma mantém a diferenciação dos cortes em função da idade, mas também aqui mudam os limiares. Assim, ficam de fora os beneficiários de pensões de sobrevivência com menos de 75 anos e com pensões até 450 euros, os que tenham pelo menos 80 anos e recebam 500 euros, os que tenham pelo menos 85 anos e recebam 550 euros de pensão e os que contem 90 anos e tenham uma prestação de sobrevivência até 600 euros. No caso das pensões por aposentação, a nova proposta do Governo não faz alterações e continua a excepcionar do corte de 10% as pensões até 600 euros que estão em pagamento. Também aqui, o governo associa o valor da pensão à idade e excepciona os aposentados mais velhos com pensões até aos 1200 euros desde que tenham pelo menos 90 anos.»


 


Naturalmente que o "legislador" não faz a menor ideia do que seja viver com pensões de três dígitos amputadas e sob a ameaça de permanente amputação. Talvez o "legislador" tenha alguém na família, entre os 80 e os 127 anos (parece que é, até agora o limite mundial) que lhe possa explicar. Talvez mesmo antes de obter tal explicação, o "legislador" possa rever a prédica da "linha vermelha" não há muito tempo traçada por um alto membro do Executivo e que, nessa altura, não podia ser ultrapassada. Talvez.

9.9.13

A falta que ela faz


 


Estava a ver o sr. Kerry na televisão - o sr. Kerry é o MNE de Obama - e pensei instantaneamente na diferença entre ele a a sra. Clinton. O homem é fraquíssimo. Obama meteu-se numa alhada e este secretário de Estado não o ajuda um milímetro a sair dela. Não basta fazer de mau. É preciso saber como é que se faz de mau e em que circunstâncias. Obama não sabe nem uma coisa nem a outra. Mas isto é um mal geral. Por cá o dr. Seguro decidiu fazer de mau quando percebeu que as "autárquicas", afinal, não serão um "mar de rosas". E vai daí anunciou que vota contra um orçamento que nem sequer o Governo conhece. Se daqui até ao dia 29 o "registo" do dr. Seguro for este, o dr. Passos, que preside a um partido com fortes raízes "localistas", pode não sair-se tão mal quanto o que porventura se pensava que pudesse sair. Por exemplo, uma previsível vitória de Menezes no Porto, contra o PS e contra o CDS, será explorada até ao tutano. Seguro, como Obama, precisa urgentemente de uma "sra. Clinton".

"Independências"






O que é "uma entidade genuinamente independente"? Quer dizer que podem existir três tipos de entidades em torno do termo "independência", a saber, as independentes, as não genuinamente independentes e as independentes? Vou reler o Davidson.

8.9.13

A "esperteza saloia"

Sócrates, com a generosidade e a delicadeza que o tornaram famoso, declarou Pedro Lomba "inepto para a função". Presumo que se estava a referir às especiais competências do secretário de Estado adjunto em matéria de comunicação política do Governo. Lomba deu a cara pelos aclamados briefings - porque era preciso delimitar um "a. R" e um "d. R." sendo o "R" de Relvas - que tanta glória trouxeram ao Executivo. Pois Lomba entendeu que lhe convinha "explicar-se" e foi entrevistado pelo Público. Li na diagonal. Dantes não havia "consistência" e a emergência de Lomba, e não só, na galáxia governativa destinou-se, no essencial, em fornecer essa "consistência". Para além disso, o secretário de Estado declara a sua ignorância bíblica em matéria de administração pública portuguesa. O verbo que usou foi "surpreendido". Pelo contrário, eu não fiquei surpreendido com as palavras de Lomba. Para ele, como para outros membros do Governo e da oposição, a realidade é uma coisa remota em relação à qual deve ser mantida prudente distância. O "mundo" vive-se, estuda-se e muda-se pelo poder mágico das palavras mesmo quando entre estas e o dito mundo não existe a mais leve relação. Esta deficiência "ideológica" é comum a formas de vida inteligente das esquerdas e das direitas. O primeiro-ministro, aliás, encontrou uma boa fórmula para a resumir em versão doméstica: a "esperteza saloia". O regime está atravessado por ela. Que faça a todos muito bom proveito.

7.9.13

Grandeza


 


Verdi, Otello. Vickers, Freni. Herbert von Karajan

Obviamente


 


O dr. Lima iniciou a vertente "diplomática" do seu múnus ministerial por Angola e Moçambique. Nunca tive a menor dúvida, pelo menos em relação à primeira, que assim seria depois de uma anterior presença em Luanda, mais discreta e "civil", ao lado do seu amigo, e então MNE, dr. Portas. E congratulo-me por alguém seguramente bem mais apetrechado na matéria do que eu ter reparado na coisa. Escreve Manuel Ennes Ferreira, professor no ISEG, no suplemento de economia do  Expresso, a propósito de uma entrevista que o dr. Lima concedeu ao Jornal de Angola: «Pires de Lima afirma que "nós temos várias empresas portuguesas com projectos de investimentos importantes aqui em Angola e que querem desenvolver os sectores agroalimentar e das bebidas (nota minha:uau!). O facto de muitas delas já terem constituído parcerias com empresas angolanas, de acordo com as regras do Estado angolano, já é um mecanismo determinante para a concretização dos negócios". Contudo, nem todos os empresários e empresas têm a mesma sorte. Veja-se o próprio ministro que até à altura em que foi nomeado era o presidente da Unicer, empresa esta que desesperadamente há anos tenta concretizar o sonho de abrir uma unidade industrial cervejeira e que já desespera por isso. Aliás, é ver as declarações do próprio e ao longo dos últimos anos sobre o arrastar deste dossier. Ora bem. Com a criação do tal observatório dos ministérios da Economia dos dois países mais a perspectiva da realização da primeira cimeira a nível dos executivos para fins de Outubro, só resta aguardar por um desenlace positivo do caso da Unicer. Neste caso seria obviamente coincidência o ex-presidente da empresa portuguesa ter passado a ser ministro da Economia.» Obviamente.