31.10.12

500 anos da Capela Sistina




«Lucerna, lume, illuminare: tre parole del Vasari che non saranno state lontane dal cuore di chi era presente alla Celebrazione dei Vespri di quel 31 ottobre 1512. Ma non si tratta solo di luce che viene dal sapiente uso del colore ricco di contrasti, o dal movimento che anima il capolavoro michelangiolesco, ma dall’idea che percorre la grande volta: è la luce di Dio quella che illumina questi affreschi e l’intera Cappella Papale. Quella luce che con la sua potenza vince il caos e l’oscurità per donare vita: nella creazione e nella redenzione. E la Cappella Sistina narra questa storia di luce, di liberazione, di salvezza, parla del rapporto di Dio con l’umanità. Con la geniale volta di Michelangelo, lo sguardo viene spinto a ripercorrere il messaggio dei Profeti, a cui si aggiungono le Sibille pagane in attesa di Cristo, fino al principio di tutto: «In principio Dio creò il cielo e la terra» (Gen 1,1). Con un’intensità espressiva unica, il grande artista disegna il Dio Creatore, la sua azione, la sua potenza, per dire con evidenza che il mondo non è prodotto dell’oscurità, del caso, dell’assurdo, ma deriva da un’Intelligenza, da una Libertà, da un supremo atto di Amore. In quell’incontro tra il dito di Dio e quello dell’uomo, noi percepiamo il contatto tra il cielo e la terra; in Adamo Dio entra in una relazione nuova con la sua creazione, l’uomo è in diretto rapporto con Lui, è chiamato da Lui, è a immagine e somiglianza di Dio. Vent’anni dopo, nel Giudizio Universale, Michelangelo concluderà la grande parabola del cammino dell’umanità, spingendo lo sguardo al compimento di questa realtà del mondo e dell’uomo, all’incontro definitivo con il Cristo Giudice dei vivi e dei morti.»


 


Bento XVI

O embuste


 


O sr. Sá Fernandes, mais um profeta que entrou na CML para nossa eterna infelicidade (veja-se a irredemível estupidez dos circuitos das ciclovias), quer agora acabar com os graffiti em 2013. Entretanto, inventaram - a câmara - mais uma taxa, desta vez de conservação de esgotos, que acabei de pagar. Com a cidade permanentemente esventrada, suja, a cheiral mal, com um trânsito esquizofrénico, a "prioridade" deste alucinado é acabar com os graffiti e ajudar a inventar taxas (como se não bastasse o fatal IMI). Não haverá nenhum criativo que exiba este monumental embuste num graffiti inapagável?


 


Foto: streetfilles.org.

30.10.12

Uma boa notícia*



«Uma cidade é um mundo se amarmos um dos seus habitantes.»



*num único volume

O banqueiro político

O dr. Ulrich, ex-colunista e presidente de um banco, não cessa de emitir opinião política pública. Talvez lhe assista esse direito porque, por princípio, sou totalmente favorável à liberdade de expressão. Mas a profusão das intervenções do dr. Ulrich é tanta que conviria saber se ele prefere a política à banca ou vice-versa. Muitos indignaram-se (porventura com um módico de razão, embora o TC, no essencial, seja uma distinta emanação de escolhas político-partidárias, motivo pelo qual defendo uma secção específica no Supremo Tribunal de Justiça no lugar dela) porque o Tribunal Constitucional "interferiu" na esfera executiva  Mas não vejo ninguém "indignado" por um banqueiro privado perorar como se estivesse na vida política activa. Sei perfeitamente que ele vem da economia. Todavia sou dos que pensam que a economia é política ou não é. Sobretudo aquela "esfera" na qual Ulrich se move. Ele que se decida.

O "ponto cego"


 


Peço desculpa por não "comungar" do assunto do dia, o orçamento - graças à oracular figura do "legislador", temos um mês para o remoer antes de ser aprovado -. mas prefiro, nesta altura do campeonato, dar atenção aos meus amigos. Por isso chamo a atenção dos putativos leitores para a entrevista a Manuel Maria Carrilho (ainda é dos poucos que diz coisas interessantes e estimulantes em vez de passar o tempo a ruminar), mais logo na RTP Informação, pelas 21 horas, em directo. Numa entrevista recente ao Jornal de Letras, a propósito da obra Pensar o Mundo, Carrilho é certeiro quando enfatiza o "ponto cego" a que chegámos: «o que se verifica hoje, é que a “potência” deixou de acompanhar a liberdade, nós somos individualmente mais livres, mas também, colectivamente, mais impotentes. É de resto esta impotência que está no cerne da crise que hoje vivemos.» Está tudo dito.

29.10.12

Muitos idiotas


 


Cada vez é mais só disto por todo o lado. «As pessoas mudaram; tornaram-se hostis ou, no limite, perigosamente impessoais. Dou-me conta que talvez tenha mudado de tal forma que as vejo tal qual elas são, tal qual elas sempre foram. No entanto, é possível que aquilo em que reparei mais cedo fosse a realidade, e que o que observo agora seja uma distorção inteiramente privada dessa realidade embora, e de qualquer maneira, veja o que vejo: hostilidade e perigo. Tenho consciência que a minha posição é exagerada e que há gente inócua no mundo e, bem mais importante do que isso, muitos idiotas.» (Gore Vidal)

28.10.12

Um livro



«Tinha 15 anos quando o assassinato de um estudante, Ribeiro Santos, catalisou os sentimentos difusos de revolta que eu já sentia e me levou a tornar-me primeiro num activista das associações de estudantes, logo a seguir num militante radical. Durante os anos que se seguiram dei o melhor de mim, e praticamente todo o meu tempo, à causa da revolução social e política. Até que, ao entrar na maioridade, comecei a ter dúvidas. Depois das dúvidas, veio a refutação das falsas certezas, e à passagem dos 23 anos já compreendera a fatal ilusão em que me deixara envolver. Libertei-me então da ratoeira ideológica do marxismo e dessa sua declinação extrema, o maoismo. Este livro conta a história desses oito anos. » (José Manuel Fernandes, Era uma vez... a Revolução)

O enorme (Des)Acordo






Pensei o mesmo que o Eduardo quando li o artigo que ele digitalizou. «O Acordo Ortográfico, ao criar esta falsa noção de uniformidade, extremamente nefasta para o Português padrão, tem um resultado terrível para a tradução, porque enche o mercado português de instruções [a autora do artigo traduz manuais de instruções, de Inglês para Português, e interfaces do utilizador de equipamento médico] que quanto mais técnicas, mais incompreensíveis são.» Conviria ao novo secretário de Estado da Cultura reservar umas boas horas para pensar, ou repensar, isto.

Ainda não foi desta

Parece inverosímil mas acompanhei as jornadas parlamentares do PSD e do CDS pelos jornais e pelas televisões. Pouco, mas acompanhei o suficiente para sublinhar duas ou três coisas. A começar, as jornadas deviam ter constituído uma oportunidade para a maioria "crescer" para o país. Para além do Governo, a maioria podia ter convidado pessoas afins da maioria e outras tantas críticas dela e do Governo, em especial da proposta de orçamento para 2013. Para falar aos deputados e aos membros do Governo em ambiente de reflexão, sem a superficialidade do comentário de jornal ou de televisão. Os partidos da maioria optaram todavia por um registo mais "intimista" em que os seus deputados escutaram, um a um, os ministros e, por fim, o primeiro-ministro. Soube depois que o chefe do Governo introduziu na "agenda" o termo "refundação" (do memorando de entendimento). Não é este o lugar para tecer quaisquer considerações sobre isto. Apenas - e regresso imediatamente às jornadas - repito o que já escrevi aqui quando defendi a realização de uma espécie de "estados gerais da maioria", algo que estas jornadas estiveram muito longe de ser: A realidade é sempre mais rica e complexa do que qualquer "modelo" mais ou menos académico. E a política serve precisamente para debater isso - para prosseguir a conversa, e não para a fechar, que é uma bela ideia dos filósofos pragmatistas norte-americanos. Se alguma coisa boa resultou dos ruídos, falados ou silenciosos, dos últimos dias é que esta maioria democrática não é apologista do pensamento único. Encontrar-se consigo mesma, encontrar-se com o país e encontrar-se com alguns daqueles que, das esquerdas e das direitas ou independentes sem partido, possuem pensamento próprio, só pode fazer bem à coligação e ao governo. A maioria, parafraseando Harold Bloom, precisa libertar-se do jargão.Ainda não foi desta.

27.10.12

"Credo in un Dio Crudel"

A doença infantil dos ex-Presidentes


 


Nos últimos dias, dois antigos presidentes da República, Soares e Sampaio, distinguiram-se publicamente por se terem esquecido dessa qualidade. Nas televisões, em especial na RTP, ou em artigos dignos de redacções da velha 3ª classe (no caso de Soares), ambos saíram dos respectivos jazigos de família para pedir a Cavaco a demissão do Governo já - Soares - ou, o  mais tardar, no primeiro trimestre de 2013 como sugeriu Sampaio indirectamente em entrevista ao subdirector de informação da televisão pública. Na SICN, há umas semanas, o mesmo Sampaio (aquele do inesquecível e clarificador "vocês sabem porquê" aquando da dissolução do parlamento em 2004 para remover Santana) usou repetidamente o verbo "rebentar" para descrever genericamente a actividade do executivo. Esta irresponsabilidade comunicacional é inadmissível em figuras que ocuparam a mais alta magistratura política pelo voto popular, o mesmo que legitima a governação actual. Que comentadores, jornalistas e afins andem neste frenesim tagarela é compreensível: é para isso que lhes pagam e lhes telefonam. Que ex-presidentes da República se comportem como revolucionários de opereta embotados por estados de alma inconsequentes, não.

26.10.12

A saga da cultura

Francisco José Viegas deixa hoje a secretaria de Estado da Cultura pelas piores razões como são sempre as de saúde. É substituído por alguém que está familiarizado com as coisas, quer por formação, quer por experiência política própria: foi vereador, com o pelouro da cultura e da juventude, de Isaltino Morais em Oeiras e, mais recentemente, o extraordinário Pinto Ribeiro nomeou-o para a Direcção-Geral das Artes de onde saiu incompatibilizado com a não menos extraordinária sucessora de Pinto Ribeiro, Gabriela Canavilhas. Já aqui escrevi que, sensivelmente desde Julho de 2000, o então ministério da Cultura era, para usar uma expressão de Marcel Proust, um cadáver que ainda não tinha entrado em funções. Apenas Amaral Lopes, secretário de Estado entre 2002 e 2005 (e digo-o com a tranquilidade de quem foi nomeado por ele para um cargo dirigente num organismo do ministério e que de lá se demitiu ligeiramente aborrecido com ele), "salvou" mitigadamente a honra do convento. Os três ministros de Sócrates inexistiram e o actual Governo, ao declinar o ministério em secretaria de Estado, limitou-se a deixar a realidade seguir o seu curso normal. As pessoas interessam pouco nesta "história" nada edificante. Quanto à cultura propriamente dita, importa salientar que, na Europa, de acordo com a chamada Agenda Europeia para a Cultura num Mundo Globalizado, da Comissão, o sector cultural é encarado como «um importante propulsor de actividades económicas e de emprego que ajuda a promover uma sociedade inclusiva e que contribui para a prevenção da pobreza e da exclusão social.» Ora este aspecto é particularmente relevante no actual momento de crise que não é apenas económica, financeira e social, mas também de valores e de opções individuais e colectivas. Vários estudos internacionais têm destacado o contributo que a cultura e a inovação evidenciam no PIB, no reforço das políticas de emprego e de qualificação e na coesão nacional. Oxalá, um dia, possamos absorver estas evidências com a mesma facilidade com que outras nos entram tão massiva quanto ligeiramente pelos olhos dentro.


 

25.10.12

Pensar a Europa






«Vamos mesmo ter de mudar de hábitos. E o mais urgente é mudar de hábitos mentais e de ideias, que são o que hoje mais nos condiciona e bloqueia. E estes hábitos, como todos os hábitos, só mudam pela pressão incontornável das circunstâncias, quando elas impõem verdadeiras rupturas. É nestas situações que a lucidez política e a audácia intelectual, se bem combinadas, ajudam muito. Com sorte, elas conseguem mesmo conduzir rupturas evitando colapsos, encontrando às vezes saídas inesperadas. É por aqui que é preciso seguir. Infelizmente, foi justamente o contrário disto que aconteceu no Conselho Europeu da semana passada, que retomou o carrossel de cimeiras de conversa fiada em que temos vivido, fixando um retrato dos dirigentes europeus que é cada vez mais deprimente. Todos muito contentes com o Nobel da Paz, enquanto o Erasmus, o programa criado que se tornou o maior símbolo do espírito europeu, corre o risco de acabar por falta de financiamento. E a união bancária lá voltou para as calendas... Isto deve-se - não tanto como se tem dito - ao domínio alemão, mas sobretudo à incapacidade geral para lidar com ele: incapacidade sobretudo estratégica e sobretudo francesa. Apesar das promessas e dos esforços de François Hollande, o balanço da mudança é, convenhamos, decepcionante: a França acabou por adoptar o tratado orçamental sem as alterações tão reclamadas, o imperativo de crescimento caiu numa adenda subalternizada, as demais sugestões do Presidente francês foram mais ou menos delicadamente ignoradas. Se o seu programa era o que ele enunciou na entrevista conjunta que deu a vários órgãos de informação na véspera deste Conselho Europeu - nomeadamente o de se resolverem prioritariamente as situações mais explosivas da Zona Euro, e o de se assumir uma Europa a duas velocidades -, é difícil tirar outra conclusão que não seja a do seu malogro. O que este Conselho Europeu claramente mostrou foi que Angela Merkel domina a economia, a estratégia e o calendário. E tudo, agora, com um único objectivo: o da sua reeleição no outono do próximo ano. Até lá, só são de esperar manobras de diversão, matéria em que a chanceler alemã se tem revelado de um surpreendente talento, multiplicando ideias, propostas e sugestões tão vagas como contraditórias, que desorientam toda a gente e lhe garantem o controlo final dos acontecimentos. Nesta fase da crise, o interesse europeu impõe, contudo, uma outra agenda pública e política, que - tendo já em vista as eleições europeias de 2014 - deve passar por três pontos que é preciso abordar e discutir sem tabus: o federalismo, o crescimento e o proteccionismo. Trata-se de três pontos que se transformaram em dogmas do não-pensamento contemporâneo, apesar de estas palavras serem das mais tagareladas pelo ruminante comentarismo dos nossos dias. São palavras que se enunciam mais ou menos supersticiosamente, como se a sua mera invocação tivesse um efeito mágico (positivo ou negativo) na realidade, ou melhor, na nossa percepção da realidade. E o problema é que têm mesmo: esse efeito é o de manter tudo tal e qual, o que, paradoxalmente, parece ser exactamente o que ninguém quer que aconteça. Quanto ao federalismo, é preciso dizer o que é e o que se quer. O que, na verdade, ninguém faz hoje em dia. Porque é muito diferente pensar o federalismo à alemã, ou à francesa: no primeiro caso, o que se visa é adoptar um controlo orçamental centralizado, normas de despesa pública e de défice e um sistema de sanções para os incumpridores. No segundo caso, o que se pretende é estabelecer normas de solidariedade a todos os níveis, mutualizando as dívidas e organizando um sistema de transferências de rendimentos entre os países da mesma união monetária, no caso, da Zona Euro. Quanto ao crescimento, é preciso explicar por que razões - e elas são de facto muitas e bem diversificadas - é que ele tem diminuído quase até ao desaparecimento (agora, até na Alemanha...), resistindo tenazmente por todo o lado às mais diversas estratégias que têm sido seguidas para o estimular. Com sinais que já vêm, hoje, dos próprios países emergentes. Quanto ao proteccionismo, é preciso olhar a realidade, não só do " comércio injusto" que é imposto pela China, pela Índia, pelo Brasil, mas também olhar para o que Obama tem feito com a sua campanha made in USA, e para o que François Hollande começa a fazer com o seu ministro Arnaud Montebourg, ao lançar uma fortíssima campanha de "compre francês", reivindicando zonas específicas dos supermercados para o efeito, tudo isto a evidenciar os paradoxos e as perversidades do fanatismo livre-cambista. É, pois, altura de abanar estes dogmas se queremos realmente mudar de vida, defendendo as formas e o potencial da civilização que, em toda a história, mais valor deu à autonomia individual e ao bem-estar colectivo, num quadro inédito de exercício da liberdade.»




M.M.Carrilho, Diário de Notícias

24.10.12

Os prisioneiros da caverna

O livro de Susan Sontag, que ilustra o post anterior, começa assim na competente tradução de José Afonso Furtado: «a humanidade permanece irremediavelmente presa na Caverna de Platão, continuando a deleitar-se, como é seu velho hábito, com meras imagens da verdade.» Isto é bom para a fotografia, em geral, e para o resto, em especial.

23.10.12

Tirar a barriga de misérias




O membro da embaixada

Uma embaixada regimental, do género daquelas descritas pelo Visconde de Santarém, deslocou-se ontem ao Palácio de Belém para alegadamente defender o chamado serviço público de televisão (a RTP) das garras de meia dúzia de perversos que, também alegadamente, o querem destruir. Nada tenho contra estas meritórias iniciativas da "sociedade civil" portuguesa que, infelizmente, está longe da sonhada por gente com Adam Smith ou outros prosélitos. Qualquer livrinho de bolso de história de Portugal explica perfeitamente o que tem sido a "sociedade civil" e o "empreendedorismo" domésticos. O que não pode confundir-se com "sociedade civil", seja lá o que isto for, é um vice-presidente de uma entidade reguladora, na circunstância, a da comunicação social. Mas esse vice-presidente lá estava sossegadinho, na embaixada, como se não fosse nada com ele - juridica e institucionalmente falando - o que quer que se venha a decidir sobre a RTP. Ele não conhece a lei ou não tem quem lha explique?

22.10.12

"N'a rien donné"


 


O meu amigo Medeiros Ferreira leu no Le Monde esta frase fidedigna: «Le conseil européen des 17 et 18 octobre n´a rien donné. Au fond c´est rassurant.» Até a senhora Merkel ir a votos - em Setembro de 2013, segundo Marcelo - o "n'a rien donné" há-de repetir-se vezes sem conta. Pode ser que nessa altura ainda haja uma "Europa" que se aviste de avião.

21.10.12

Da superficialidade para a sociedade


 


«Temos um telejornalismo tendencialmente de comunidade, cheio de emoção, sempre com ar de que os factos nos ofendem, em torno dos mesmos temas e repetindo-os, como na aldeia o rumor sobre a vizinha que se deitou com o canalizador. Falta um telejornalismo que, por norma, sem esquecer a comunidade, nos eleve a sociedade, promova reflexão, noticiando com objectividade e parcimónia. Peço demais? O telejornalismo deveria ir à frente do país. Um telejornalismo de comunidade assinala um país com enorme resistência a modernizar-se. (...) As plataformas por cabo vão-se revelando o meio mais seguro de avançar com projectos. Entretanto, haver empresas interessadas em lançar novos canais é um dado para o debate sobre o serviço público de TV: deve haver tantos e mais canais da RTP no cabo pagos por contribuintes e assinantes, ou pelo contrário, o nosso dinheiro deve ser aplicado em menos, mas melhores conteúdos? Defendo a segunda hipótese.» Eu também.

Tomar nota

Sempre critiquei nesste blogue o excesso de verbas do orçamento de Estado para "estudos e pareceres". O Estado tem ao seu serviço pessoas com habilitações e proficiência adequadas para elaborar esses estudos e esses pareceres. Aliás, em muitos casos, faz parte das competências e atribuições dessas pessoas isso mesmo. São, por assm dizer, "treinadas" para isso e, sempre que necessário, para aconselhar com independência o decisor político no sentido da melhor aplicação alternativa dos dinheiros públicos. Para 2013, parece que estão alocados 86 milhões de euros para pagar eventuais "estudos e pareceres" ao exterior, isto é, a empresas de consultadoria especializada ou a escritórios de advogados. Num orçamento como o projectado, em que o "bolo" da receita é o bolo-rei e o do "ajustamento" da despesa uma miniatura de pastelaria, esta verba não se justifica. Como o parlamento tem agora a palavra, faça o favor de tomar nota.

20.10.12

O efeito "multiplicador"

Fiquei satisfeito por saber que pelo menos um dos ministros de Estado valoriza politicamente as posições mais recentes da directora-geral do FMI quanto a programas de austeridade. É, por assim dizer, um bom efeito multiplicador. No sentido do "múltiplo" por contraposição ao "único".

19.10.12

Manuel António Pina


 


Manuel António Pina, que nunca conheci pessoalmente, faleceu esta tarde no Porto. Todavia ele "conhecia-me" e foi porventura das últimas pessoas a não dizer mal de mim publicamente. «É (um blogue de um assessor do actual Governo). Chama-se João Gonçalves. Por acaso tenho tendência a concordar com muitas das coisas que ele escreve. São afinidades. E isto para quê? À procura de uma coisa que me dê uma espécie de clique.» Fico a dever-lhe esta amabilidade que jamais lhe poderei agradecer. Eu também tinha tendência a concordar com muito do que Pina escrevia. Apreciava-lhe a poesia. E coisas como esta: «voltando à vaca fria, isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível.» Outra forma de dizer que isto é tudo uma grande merda.

O abastardamento da língua


 


«O teatro para que se vem já não é o teatro que se fazia. Os modelos de teatro brasileiro do meu tempo, com as grandes companhias, da Cacilda Becker, Tonia Carrera e Paulo Autran, eram exemplares. Faziam-no com uma verve fantástica e com um sentido de escola muito europeu. Não só na interpretação dos textos como no seu débito. Ainda é o caso da Fernanda Montenegro, da Eva Wilma, que fez comigo a “Madame” com a Eunice Muñoz. Não temos a noção do quanto o português do Brasil se abastardou com as novelas, dominadas pelo chamado carioquês. Numa novela portuguesa ouve-se uma frase e é impressionante a quantidade de palavras mal ditas, mal entendidas no seu sentido, sem sentido de plasticidade da língua. Isto é fatal.»


 


Ricardo Pais


 


Foto: Rodrigo Cabrita

Pior era impossível

Leio no Diário Económico que o dr. Constâncio - com aquele sorriso inexpressivo com que aparece invariavelmente mudo ao lado do sr. Draghi -, pelo "lado" do BCE, integra um grupo em que, e passo a citar, "ninguém tem dúvidas sobre a dose de austeridade a adoptar em Portugal - o plano é para continuar":"Vítor Constâncio do Banco Central Europeu, Olli Rehn da Comissão Europeia, Abebe Selassie do FMI e Thomas Wieser do Eurogrupo coincidem em que o caminho definido é este e já tem a dose adequada de flexibilidade.» Custa-me ver o meu país a ter de receber inerme estas evacuações de Constâncio cuja "história" como governador do Banco de Portugal não o recomenda sequer para o lugar de António Sala naquela publicidade patética à venda do ouro. Prefiro a sensatez de Miguel Cadilhe que é manifestamente de outras alturas. Pior era impossível.

18.10.12

Um retorno


 


Bruxelas prepara-se para receber mais um daqueles conselhos europeus "decisivos" que tanto sucesso têm prodigalizado, nos últimos anos, no mundo e, sobretudo, na própria Europa. Portugal deve ser mais ousado nestes encontros e exprimir, para lá do acerto da tabuada, um desígnio político. Aliás, é à míngua de um que a Europa do Nobel - tão eloquentemente representada em Oslo por três equívocos chamados Barroso, Rompuy e Schultz - chegou ao ponto a que chegou. E que importa que tenha rapidamente um retorno.

17.10.12

O "banco"



Depois de assistir a um excelente documentário no canal Arte sobre o "banco" Goldman Sachs, fiquei com vontade de ler este livro que serviu de guião.


Não é só fazer as contas

Para além do défice propriamente dito, há outro que desponta como um cogumelo venenoso: um défice de autoridade democrática. Sem prevenir este, não se resolve o outro.

Um país sem emenda

O ministro da economia, Álvaro Santos Pereira, apresentou um conjunto de medidas no âmbito da proposta de orçamento para 2013 que correspondem ao contraponto do pesado "pacote" fiscal que também lá está. Mas Santos Pereira não mereceu tanta atenção mediática como devia ter merecido porque não alimenta conversas de porteiras nem inspira temores reverenciais. Um país sem emenda.

De acordo






Com o Presidente francês.  Não há, para nós, alternativa à austeridade mas há alternativas dentro da austeridade. Já tinha escrito isto mas parece que é preciso escrever uma e outra vez. "Não há alternativa à austeridade como insinuam os sonsos e os prosélitos. O que existe é alternativas "na" austeridade que não esmaguem a economia e que, simultaneamente, favoreçam os "negócios", domésticos ou estrangeiros, de meia dúzia de peralvilhos com ou sem rosto definido. E a despesa pública tem já pouca ou nenhuma  margem social para continuar a ser "cortada" quase fundamentalmente à base das pessoas. A coligação no Governo tem de "crescer" para a nação (para a não perder) e não enredar-se em solipsismos mesquinhos e em tacticismos caprichistas de carácter paroquial que só interessam aos parasitas das crises."

16.10.12

A União do Nobel


 


Apesar de pertencer àquilo que Mário Soares apelida, com a sua proverbial delicadeza, de "falange de assessores" - suponho que Soares conceda a possibilidade de os assessores possuírem cabeça própria e não serem ressentidos -, não deixo de o citar a propósito do Nobel da Paz atribuído à União Europeia. «Porquê agora, quando a União Europeia atravessa a sua maior crise de sempre? Quando quase tudo tem funcionado mal, a começar pelos actuais dirigentes burocrato-institucionais? São questões que ocorrem e nos confundem. Mas pensando melhor, talvez possamos admitir que a iniciativa tem sentido. Durante décadas a Comissão Económica Europeia trouxe ao Velho Continente uma época de paz, de democracia e excepcional bem-estar, para os europeus, no seu conjunto. É certo que não impediu, após a morte de Tito, que a Jugoslávia caísse numa inaceitável guerra civil. Mas sobreviveu bem ao colapso do universo comunista, à queda do Muro de Berlim e, depois, à integração dos Estados de Leste na União Europeia e à unidade das duas Alemanhas. Quanto à Península Ibérica - Portugal e Espanha -, permitiu que duas velhas ditaduras, uma vez reconquistada a democracia, entrassem, no mesmo dia, na CEE e aderissem também ao euro um tempo depois. O euro foi uma excelente ideia que deu um grande impulso à União, embora nunca tivesse criado instituições financeiras (indispensáveis) para tornar o Banco Central Europeu capaz de fabricar a moeda única, independentemente da vontade dos Estados mais poderosos, como a Alemanha. A União criada para dar um impulso federal nunca foi capaz de avançar nesse domínio, única forma de vencer a crise de que hoje somos vítimas. As deficiências da União hoje estão à vista de todos. Se não formos capazes de as superar, caímos num abismo e incorremos numa tragédia de âmbito mundial.»

15.10.12

A proposta e a lei

Foi entregue no parlamento a proposta de lei do orçamento de Estado para 2013. Cabe à Assembleia da República transformar essa proposta em lei. Até lá, a proposta vai ser discutida em plenário e votada na generalidade, baixando à comissão parlamentar competente para alterações que eventualmente sejam apresentadas pelos partidos. Em ambas as fases - é, aliás, isso que está na base da criação das instituições parlamentares por esse mundo fora, a saber, a votação de orçamentos e impostos - a proposta de lei pode e deve ser sujeita ao mais amplo debate político parlamentar. E o Governo tem de participar nesse debate com a maior abertura política. Porque daqui para diante é de opções políticas, internas e externas, que se trata. Quem se recusar a perceber isto, meta com urgência explicador. E será amplamente recompensado, ainda nesta encarnação terrena, pela grandeza do gesto.

A todo o custo?






«Durante a reunião anual do FMI, em Tokyo, a Srª Lagarde, Directora-Geral da instituição, e o seu economista chefe, Sr. Blanchard, a propósito dos processos de consolidação orçamental na zona Euro enunciaram uma orientação que ontem fez notícia na imprensa internacional e que, vindo de quem vem, esperemos que chegue aos ouvidos dos políticos europeus dos chamados países credores e de outras organizações internacionais. Trata-se de um ensinamento elementar da política de estabilização, que eu próprio várias vezes tenho referido, e que, em linguagem simples, se pode traduzir do seguinte modo: nas presentes circunstâncias, não é correcto exigir a um país sujeito a um processo de ajustamento orçamental que cumpra a todo o custo um objectivo de défice público fixado em termos nominais. Devem ser definidas políticas que garantam a sustentabilidade das finanças públicas a médio prazo e deixar funcionar os estabilizadores automáticos. Se o crescimento da economia se revelar menor do que o esperado, o défice nominal será maior do que o objectivo inicialmente fixado, porque a receita dos impostos é inferior ao previsto e as despesas de apoio ao desemprego superiores. Assim, Blanchard conclui que "nem por isso se deve impor a adopção de medidas orçamentais adicionais, o que tornaria a situação ainda pior".» O escrito que antecede é do Presidente da República, Prof. Aníbal Cavaco Silva, dois dias atrás numa rede social. Só modifiquei os termos que decorrem do português do acordo.

Agustina



Agustina Bessa-Luís completa hoje noventa anos. A dedicatória na sua Florbela fala da «lembrança duma conversa de longos caminhos minuciosos e inacabados.» Foi no Porto, no Campo Alegre, na casa com vista para o Douro. É, porventura, o mais ironista dos nossos romancistas contemporâneos da mesma forma que Manoel de Oliveira é o criador mais ironista do cinema português.

O bom cocó


 


Vou comprar um bulldog francês e, depois, deduzi-lo no IRS. É uma despesa destinada à manutenção da minha sanidade mental. Cocó por cocó, antes o de cão.

14.10.12

Fatal omissão

O PSD averbou uma enorme derrota nas eleições regionais dos Açores, injusta sobretudo para Berta Cabral, apesar dos oito mil votos a mais e mais dois mandatos na assembleia regional. César, sem ter ido a votos, ganhou em toda à linha à República que enfrentou em diversas sedes sempre que pôde. Amanhã, quando finalmente se acabar de fazer as contas do orçamento, conviria deixar entrar a política, de vez, na maioria (uso o termo maioria deliberadamente). Se isso não acontecer, a política - como se viu com esta sondagem real nos Açores que pune signficativamente os partidos coligados no governo nacional, com o CDS a perder 2 deputados regionais - acabará por tirar as devidas consequências da fatal omissão.

O verdadeiro artista


 


A caminho do Elixir, na Gulbenkian em directo de Nova Iorque, passei pela "manifestação da cultura" na Praça de Espanha. Parece que a coisa "misturou" vários "géneros" mas só ouvi, a abrir, a 5ª do Beethoven, um compositor alemão que tinha bem à frente da sua música um cartaz indirectamente pouco amável para com a sua pátria. O major Tomé (não sabia que se tratava de um "vulto" cultural) não faltou à "manifestação" que contou com ampla cobertura - terra e ar - das televisões, pública e privadas como conta Pacheco Pereira. Tenho alguma dificuldade em definir "artista". O "Doutor Dulcamara", do Elixir, talvez consiga melhor do que eu.


 


Clip: Ruggero Raimondi

A "situação"


 


A sicn providenciou, aos espectadores com paciência para o efeito, uma entrevista com Jorge Sampaio. Sampaio veio integrar a vasta brigada de responsáveis pelo regime nas últimas décadas que anda a sais de frutos por causa da "situação". Independentemente da pertinência de algum do argumentário, a "situação" não nasceu de geração espontânea ou ontem à noite. Houve um "processo" - que começou no famoso "processo revolucionário em curso" de 74 e 75 - no qual praticamente toda a brigada esteve envolvida em momentos diversos. Mota Amaral, por exemplo, está sentado no parlamento desde 1969 e foi o único "sobrevivente" da ala liberal a aceitar lugar na lista da ANP, em 1973, quando Sá Carneiro, Balsemão e outros já tinham percebido que não valia a pena. Do PC ao PSD, do CDS aos "independentes", dos bloquistas ex-tudo aos lugares mais altos ou baixos do Estado, salvo os que entretanto morreram, chegámos aqui com todos. O regime resume-os a todos e todos resumem o regime. Nesse sentido, revelam-se mais "profissionais" do que a generalidade dos incumbentes que recusa a preeminência da política sobre outras ciências sociais com os resultados pouco auspiciosos que se anunciam. Não estou a manifestar nada que não proteste, incansavelmente, de segunda a sexta-feira junto de quem de direito. Por isso me custa um bocado ver Sampaio - que deu corpo político à execução liminar de uma maioria parlamentar em dois tempos, empossando um 1º ministro que não foi a votos e, depois, correndo com ele em momento mais adequado à sua "família" partidária - como mais um extraordinário "pensador" da "situação". Vasco Pulido Valente, após ter lido 1,6 kg da biografia de Jorge Sampaio, define-o. E, com ele, define a verdadeira situação.  «José Pedro Castanheira, com uma paciência sobre-humana, descreve os milhares de vezes que se reuniram, em casa deste ou daquele, para discutir a intriga do dia ou futilidades sem nome e sem propósito. Eram uma igreja. Ambiciosa, ainda por cima. Mas como Sampaio, num excepcional momento de franqueza explicou, 30 amigos certos valem bem três mil militantes na rua. E, nesse ponto, acertou: não mais que 30 amigos conseguiram que ele finalmente chegasse a Belém, onde a vacuidade final do grupo se manifestou em todo o seu esplendor.»

13.10.12

No império dos signos


 


Do Japão, ao qual Roland Barthes dedicou um livro belíssimo e pouco lido, L'empire des signes, Vìtor Gaspar aparece a dessacralizar os famosos "mercados" e a alegada "urgência" em lá regressar. Cá, precisará de tirar as devidas ilações desta conclusão antes que a opinião pública comece a tirar sérias ilações dele.

Defender a humanidade ferida


 


As imagens de Fátima são sempre reconciliadoras. Não com os homens relativamente aos quais pouco há a esperar, mas face a tudo aquilo que é maior que nós e que nos ajuda a prosseguir. Bento XVI explicou isso, há dois anos, no Santuário e agora deve reiterar-se quando se inicia a celebração do 50 anos do Concílio Vaticano II e o Papa abriu "o Ano da Fé". «A prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Queridos irmãos e irmãs, adorai Cristo Senhor em vossos corações (cf. 1 Ped 3, 15)! Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé, fazendo resplandecer aos olhos dos vossos contemporâneos a luz de Cristo, tal como a Igreja canta na noite da Vigília Pascal que gera a humanidade como família de Deus. Irmãos e irmãs, neste lugar é impressionante observar como três crianças se renderam à força interior que as invadiu nas aparições do Anjo e da Mãe do Céu. Aqui, onde tantas vezes se nos pediu que rezemos o Terço, deixemo-nos atrair pelos mistérios de Cristo, os mistérios do Rosário de Maria. A oração do Terço permite-nos fixar o nosso olhar e o nosso coração em Jesus, como sua Mãe, modelo insuperável da contemplação do Filho. Ao meditar os mistérios luminosos, dolorosos e gloriosos ao longo das «Ave Marias», contemplamos todo o mistério de Jesus, desde a Encarnação até à Cruz e à glória da Ressurreição; contemplamos a participação íntima de Maria neste mistério e a nossa vida em Cristo hoje, também ela tecida de momentos de alegria e de dor, de sombras e de luz, de trepidação e de esperança. A graça invade o nosso coração no desejo de uma incisiva e evangélica mudança de vida de modo a poder proclamar com São Paulo: «Para mim viver é Cristo» (Fil 1, 21), numa comunhão de vida e de destino com Cristo. Sinto que me acompanham a devoção e o afecto dos fiéis aqui reunidos e do mundo inteiro. Trago comigo as preocupações e as esperanças deste nosso tempo e as dores da humanidade ferida, os problemas do mundo e venho colocá-los aos pés de Nossa Senhora de Fátima.»

12.10.12

Sem palavras

No Moses und Aron de Schönberg há um momento decisivo resumido no fragmento "O Wort, du Wort, das mir fehlt". O que é que isto quer dizer? Duas coisas aparentemente contraditórias. Por um lado a prevalência da Palavra (no caso, a divina) e, por outro, a insuficiência da palavra para nos exprimirmos perante certas circunstâncias da vida: "faltas-me, palavra". É o que me acontece perante as linhas gerais do orçamento de Estado para 2013. E perante o taticismo ululante de certa gente que não sabe viver de outra coisa.

Prémio fim de carreira


 


A academia sueca* do Nobel decidiu atribuir o da Paz à União Europeia. A coisa acontece no preciso momento em que a referida União passa por um - talvez mesmo "o" - dos seus piores momentos políticos, financeiros e económicos, justamente por esta ordem, e com líderes institucionais (na comissão e na presidência da União) que não se recomendam aos nossos maiores inimigos. Talvez o gesto sueco possa antes ser interpretado de outra forma. O Nobel da Paz de 2012 é sobretudo um "prémio fim de carreira". Daqueles que se entregam a pessoas e entidades que, muito meritoriamente, já deram o que tinham a dar.


 


*não é sueca, emenda-me um leitor e eu agradeço, é norueguesa. Até podia ser mongol, a "ideia" é a mesma. Alguém pode rever-se naquele insuportável contentismo hipócrita do dr. Barroso?

11.10.12

Pensamento contrafactual


 


«O mundo dos seres humanos é muito mais rico e amplo do que o chamado mundo real, de que tanto gostam os medíocres economistas, políticos e jornalistas dos nossos dias, feito do que ocorreu há minutos, do que se está a passar no momento ou do que se pensa que vai acontecer nas horas seguintes. Ora os seres humanos, como todos bem sabemos por experiência, vivem simultaneamente em múltiplos mundos, que são os seus universos possíveis. E eles comportam não só o que, em determinadas circunstâncias, gostávamos que pudesse vir a acontecer no futuro, mas também aquilo que por vezes pensamos que poderia ter acontecido no passado, em vez daquilo que aconteceu. É nesses mundos que se combinam, no nosso quotidiano, os nossos sonhos e projectos, as nossas hipóteses e ficções, as nossas expectativas e ilusões, de um modo que ora parece mais estruturado, ora mais caótico. E isto não é de agora, o nosso mundo foi sempre virtual e plural, ele compõe-se de todos estes microuniversos, entre os quais deambulamos. A investigação, nomeadamente psicológica, tem mostrado a imensa importância do pensamento contrafactual, uma vez que é ele que nos permite imaginar não só o que podia ter acontecido, como o que, em certas condições, poderia vir a ocorrer, tanto em termos individuais como colectivos. É exactamente esta a via que hoje é preciso explorar em termos políticos, se queremos sair dos impasses em que nos encontramos»


 


M.M.Carrilho, DN

10.10.12

O outro FMI






«Dominique Strauss-Kahn a rompu sa trêve médiatique, en marge d'une conférence sur la gouvernance économique mondiale, à Séoul, mercredi pour dénoncer l'insuffisance des remèdes appliqués par les leaders de l'eurozone. «Depuis la crise grecque, on ne fait que gagner du temps. Chaque fois que la crise survient, on donne un coup de volant pour éviter le mur, mais on ne résout pas le problème», a déclaré l'ancien directeur général du FMI au Figaro. Devant une salle comble, DSK a présenté ses solutions pour la zone euro, en particulier une alternative aux «eurobonds» qu'il avait dévoilée, le mois dernier, au Yalta European Strategy Forum. En jetant une pierre dans le jardin de l'Élysée en appelant Paris et Berlin à partager leur taux d'intérêt si bas avec le Sud. «Le président français se félicite d'emprunter à des taux historiquement bas. Ce n'est pas un bon signe. C'est justement une conséquence du problème», a expliqué l'ancien favori à la présidentielle. Alors que François Hollande a fait du maintien des taux bas l'un des piliers de sa stratégie d'allégement de la dette, DSK souligne au contraire la nécessité pour la France et l'Allemagne de prendre en charge une partie du coût de l'emprunt de l'Italie ou l'Espagne pour alléger le fardeau de ces derniers. Et de plaider pour «la mise en place de mécanismes» pour faire converger les taux d'intérêt, en faisant jouer la solidarité entre le Nord et le Sud. «C'est le prix de la survie de la zone euro. Sinon, nous aurons pendant de longues années une très faible croissance avec tout ce que cela veut dire en matière de chômage, d'équilibre des comptes sociaux», prévient l'ancien directeur général du FMI.»


 

9.10.12

Saudades de Séneca

No Luxemburgo, o ministro das finanças falou, e bem, em "mitigar" os seus anúncios em matéria fiscal. Logo à cabeça, por exemplo, importa manter a chamada cláusula de salvaguarda no IMI e olhar para as respectivas taxas. Ainda há pouco o FMI da Senhora Lagarde - que é uma coisa diferente do FMI de Strauss Kahn - confessou-se pessimista e errático em cálculos relativos aos impactos de medidas de austeridade na economia. Ao contrário da crítica de arte, a tentativa e o erro, nestas matérias, são perigosos. E nunca há bom vento para quem não conhece o seu porto.

Pobres cães


 


Um tipo, com a melhor das intenções, vagueia estupidamente por Monsanto até encontrar o canil municipal de Lisboa. Só para isto, é preciso um curso de estradística. Uma vez lá chegado, e sempre com a melhor das intenções, avista-se uma portaria onde um amável funcionário municipal recolhe os dados do BI. Digo, com a melhor das intenções, que apenas quero ver os cães para adopção. Manda-me esperar, como num centro de saúde ao ar livre, pela "colega" que me há-de conduzir aos ditos cujos. Com a melhor das intenções, fui esperando e aproveitar para contemplar o que me rodeava. Um prédio térreo em construção (parada), ao fundo o ladrar dos cães, um portão que se abre para entrar uma carrinha da CML, em suma, uma desolação. A senhora aparentemente só chegou meia hora depois quando já me tinha metido no carro. E parece que nem sequer era a "minha" senhora - era a senhora das vacinas que arrastava uma cadelinha renitente para o efeito. Pobres cães.

8.10.12

Cinemateca não tem dinheiro para legendagens



- «Diz boa noite aos senhores telespectadores, António.»

- «Bô nôte.»

Mau jornalismo

No seu programa semanal da Sic Notícias, Ponto Contraponto, José Pacheco Pereira costuma dar exemplos do que ele chama de mau jornalismo. Abrange normalmente jornais, revistas e televisões. Só hoje, há dois exemplos desse mau jornalismo em dois jornais diferentes. Num caso, um texto. No outro, uma fotografia e a respectiva legenda. Estamos sempre a regressar à velha pergunta: afinal, o que é que comunica a comunicação social, dita "de referência" ou sem ser "de referência", que se arroga «o direito - marcado por um tropismo ora policial, ora moralóide - de passar do registo dos confrontos de opinião para o das avaliações completamente subjectivas, tão expressivas como espúrias?*»


 


*M.M.Carrilho, Pensar o Mundo, 2012

Um cidadão exemplar


 


Faleceu Aquilino Ribeiro Machado. Trata-se daquele que foi o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de Lisboa. Era um homem bom e generoso. E um cidadão exemplar. É uma honra homenageá-lo aqui.

7.10.12

Método na loucura


 


Maria João Avillez escreve hoje, domingo, um artigo genericamente de elementar bom senso, no Público, sobre o "estado da arte" doméstico. Sobretudo porque faz a ponte para a Europa, um "pormenor" que tem andado esquecido por cá - do poder à rua, dos "congressos alternativos" ao dinheiro que o dr. Soares imagina que se pode "fazer" como batatas fritas. Em compensação, o sr. Cameron, o primeiro-ministro que a Rainha transporta agora na sua misteriosa malinha de mão, sugere que a dita Europa deve ter dois orçamentos, um para os países da zona euro, outro para os restantes e ameaça vetar o próximo orçamento da União. O sr. Cameron, no lastro do que tem sido a relação da Inglaterra com o Continente, quer o Continente cada vez mais afastado da ilha e vice-versa. De facto, o Continente, da periferia ao seu centro, não se recomenda. Até a "solução" federalista pode já não chegar. Tudo porque a política desapareceu para que o "financês" viesse corrigir o que o "financês" destruiu. Deve haver algum método nesta loucura como em Hamlet que acabou, aliás, muito bem. Não estou porém a ver qual.

6.10.12

Bom dia e boa sorte

Depois do fantástico "congresso democrático das alternativas" julguei que hoje ia acordar num admirável país novo, fora do euro, da Europa e em recuperação no Parque de Saúde instalado na Avenida Brasil, não muito longe do local onde decorreu o referido "congresso". Afinal, não. Os portugueses aparentemente ainda conservam a cabeça sobre os ombros, brilha algum sol e não há riscos de um novo "5 de Outubro" na versão Pátio da Galé. Bom dia e boa sorte.

5.10.12

Noção das prioridades

Ainda houve tempo, depois de Bach, para assistir ao final da entrevista de Sandra Felgueiras (uma jornalista particularmente competente) ao General Ramalho Eanes. Ouvi Eanes defender um pacto de Estado (uma boa ideia num momento em que parece faltar o seu sentido ou existir um excesso de parodiantes desse sentido como os "alternativos" do dr. Alfredo Barroso) e explicar aos espectadores outra coisa que também anda omissa: a noção que a ética deve dominar o direito, o direito a política e a política a economia. Aparentemente está tudo ao contrário.

Hubris






A cada "5 de Outubro", de há nove anos para cá, que escrevo que não vale a pena comemorá-lo. Em 1910 foi implantada a ditadura do PRP, depois eloquentemente transformado em "Partido Democrático", um regime com sede em Lisboa e pouco mais. Como republicano, não me revejo na 1ª República - nunca passou de um equívoco "ideológico" minoritário - que acabaria às mãos de outra ditadura. Mais tarde ou mais cedo, a coisa (a comemoração) acabaria numa caricatura de si mesma. Sucedeu hoje. Começou no hastear da bandeira, passou para o evento "caseirinho" no Pátio da Galé - em que nem sequer faltou o "momento Almodovar" com uma senhora a cantar, sozinha, Lopes Graça sem se perceber se fazia ou não parte do evento - e terminou com uma cidadã a entrar no dito Pátio para protestar a sua vida. Os convidados mais ilustres saíram pelas portas laterais, manifestamente aliviados por se terem visto livres daquilo. "Povo", nem vê-lo. Tratou-se, em suma, de um espectáculo deplorável e decadente. Isto não vai acabar bem.

4.10.12

Este é o mau caminho

Acabar com a cláusula de salvaguarda no IMI.

Este é o bom caminho

«A Estradas de Portugal (EP) fechou mais um acordo de renegociação de concessões rodoviárias adjudicadas entre 2008 e 2010, assegurando até agora uma poupança de 1348 milhões de euros.»

Não aprendemos nada


 


Quem conheça um bocadinho de história de Portugal - o que inclui a económica - sabe perfeitamente o que é que custou a edificar um módico de classe média no país. Falo da "burguesia", a pequena e a média "empreendedora" ou de "serviços" que, por exemplo, num dado momento a inquisição ajudou a não se formar (e a destruir com método) com as perseguições que moveu e que não eram apenas "culturais". Vitorino Magalhães Godinho também explicou a persistência de elementos de "antigo regime" num século, o XIX, por natureza destinado ao triunfo da referida burguesia na sociedade portuguesa. Persistência essa que transitou para o século seguinte, com défices preocupantes em matéria de industrialização com um sector terciário hipertrofiado e uma macrocefalia demográfica e social preocupantes. Salazar preferia um país manso e habitual, ligado à terra, e com "condicionamento industrial" para não criar lumpen destinado a alimentar as bolsas ideológicas da oposição. O Estado Novo, tal como o actual regime, favoreceu o funcionalismo e os serviços, e a classe média acabou por florescer por aí e por entre o pequeno e médio comércio de bairro e de avenidas novas. A "Europa", com os seus fundos, melhorou o estado da arte das infraestruturas e quase nada as mentalidades chico-espertistas que dominam. A reforma fiscal de Cadilhe "adaptou" (e adoptou), bem como a alteração do sistema retributivo da função pública, esta realidade. O "cavaquismo", tal como o "guterrismo", é o filho pródigo de uma classe média reconhecida que se "aguentou" até aos primeiros anos deste século. Ironicamente o sistema fiscal elaborado a pensar nela, virou-se contra ela. O Estado, social e "associal", cresceu sobretudo fora dele por causa da agiotagem e da plutocracia partidárias. Vítima da voragem própria (modos de vida, nenhuns hábitos de poupança, iliteracias várias) e alheia, a classe média - no fundo, um corpo social remediado e fundamentalmente urbano com nichos de qualidade de vida no "interior" e em algum litoral - desmoronou-se. Ao preferir "atacar" pelo lado de uma receita fiscal exaurida porque a classe média que ela atinge, no essencial, se desmoronou, Vítor Gaspar emerge menos reformista do que supõe. Porque a persistência dos elementos de "antigo regime" a que aludia Magalhães Godinho, aquando da transição do século XVIII para o século XIX, traduzem-se hoje na incompreensível subsistência de blocos aparentemente inatingíveis de despesa pública "modernaça" (como naquela altura, de certos privilégios nobiliárquicos) que impedem qualquer desígnio reformador integral. Há, pois, algo de manco nisto tudo que a História explica. Não aprendemos nada.

Ler os outros

O António Maria.


 


«Na realidade, quem lê a imprensa económica internacional com alguma regularidade notará que Portugal saiu dos radares da desgraça — seja porque melhorou rapidamente a sua balança de pagamentos, ou porque conseguiu fazer crescer as suas exportações em plena recessão europeia e crise financeira mundial, ou porque o Banco de Portugal tem sabido gerir com discrição e resultados a difícil situação dos bancos nacionais, ou ainda porque conseguiu hoje mesmo trocar uma pesada dívida que vencia em 2013 por novas obrigações a custos razoáveis com maturidades mais estendidas. A mobilidade profissional dos portugueses, buscando rapidamente trabalho fora do país, nomeadamente através das ligações familiares que têm em todo o mundo, a par da paz social que durou até aqui, têm sido ainda argumentos fortes a favor da confiança que lentamente regressa ao país. Mas também a determinação com que este governo e o anterior (é verdade, já vem do tempo de Sócrates) têm procurado estabelecer pontes diplomáticas e comerciais com a China, Angola e Brasil, e as respostas que não se têm feito esperar, é algo que deve ser pesado a nosso favor. Nada disto quer dizer que estejamos bem — muito pelo contrário! Na verdade, vamos continuar a ganir até 2015, pelo menos. No entanto, quanto mais depressa encolhermos a burocracia, a partidocracia, a cleptocracia e o Estado, menos violento e duradouro será o terrorismo fiscal em curso. As pessoas vão ficar, em breve, muito mais sensíveis ao gasto público, às mordomias, às tríades e às máfias que destruíram o país e querem continuar a sugá-lo. Mas também serão cada vez mais sensíveis às greves burocráticas das empresas públicas que prejudicam milhões de portugueses, apenas para garantir privilégios salariais, sociais, sindicais e partidários, de que a esmagadora maioria de quem trabalha não usufrui, e que são financiados desde sempre e quase exclusivamente pelos impostos pagos por todos nós. (...) As lideranças miseráveis do PS, PCP e Bloco não oferecem quaisquer alternativas concretas aos planos do governo. Limitam-se a gritar frases inconsequentes, oportunistas e populistas, com o único fito de prosseguirem os seus pequenos jogos partidários e eleitoralistas. Já só pensam nas autárquicas. Querem lá saber do país e das pessoas! Jerónimo de Sousa é um fóssil estalinista da era frente populista. Louçã é um fóssil trotskista oriundo de uma seita dos anos sessenta do século passado. Só Arménio Carlos parece ter aprendido a falar num português político mais inovador à sua base sindical e partidária de apoio. Pena é que continue fechado no armário das relíquias comunistas, e não tenha ainda percebido que o seu querido proletariado morreu, que a sua base de apoio é essencialmente formada por trabalhadores e burocratas do Estado, e que o mundo que hoje conta e pode forçar a mudança é essencialmente composto por classes médias profissionais e por um imenso precariado! A esquerda populista quer tudo: quer pleno emprego, quer mais regalias sociais, quer mais dinheiro, quer mais escolas e universidades, quer mais hospitais e centros de saúde, quer mais tribunais, quer mais câmaras e mais freguesias, em suma, quer mais Estado. E acima de tudo não quer saber de contas. Os ricos, como dizem, que paguem! (...) Nesta altura do campeonato as greves da CP e em geral no setor público são intoleráveis. O pessoal da CP, da Carris, Metro, etc, ganha em geral mais do que os usuários dos serviços que deveriam prestar com qualidade, eficiência e rentabilidade, e não prestam. Os sindicatos portugueses do setor público começam a parecer-se cada vez mais com máfias extrativas. Defendo que as greves no setor público devem ser objeto de medidas restritivas temporárias e em todo o caso de requisição civil sistemática em todos os casos em que o oportunismo sindical e partidário prejudique visivelmente os portugueses que pagam, quase sempre através de passes mensais, os insubstituíveis meios de transporte que utilizam para trabalhar. Os senhores deputados se começassem a usar regularmente os transportes públicos, e pagassem o estacionamento dos seus automóveis na AR, como os lisboetas pagam para estacionar no espaço público que é a sua cidade, talvez passassem a ter uma maior sensibilidade relativamente aos milhões de portugueses que são prejudicados por este tipo de greves corporativas e partidárias. O PCP tem que aprender a ganhar eleições, e não a prejudicar o povo em nome das suas tropas de choque sindicais! Não há nada que impeça o governo de ter mão dura com os sindicatos corporativos do setor público. Deixar apodrecer a situação só pode conduzir ao desastre. Os democratas não podem ficar prisioneiros de silogismos oportunistas sobre o direito à greve. Pois o preço de semelhante cobardia é normalmente o aparecimento e alastramento rápido de forças de extrema direita.»

3.10.12

Grandeza


 


Cioran, tão lúcido quanto pessimista, dizia que sem Bach Deus seria uma entidade de terceira categoria. A Fundação Gulbenkian, volta não volta, faz entrar ambas as entidades - Deus e Bach - no seu Grande Auditório. Será assim amanhã e depois, com a Missa em si menor, BWV 232. Boa noite e boa sorte.




Karl Richter, Münchener Bach Orchester & Chor, Gundula Janowitz

O "racionamento ético"

«A economia da saúde está cada vez mais dependente da saúde da economia. Daí a necessidade de uma séria ponderação do custo-benefício e da equidade da despesa. Nada de incomum, mas com a enorme diferença de aqui estar em jogo o mais absoluto valor: o da vida. Vem isto a propósito do parecer do Conselho de Ética para as Ciências da Vida sobre a utilização de medicamentos oncológicos, contra a sida e artrite reumatóide, responsáveis por parte significativa do gasto com fármacos. A ideia do parecer - e das declarações do seu presidente - é a de que deve haver "racionamento ético" (foi o termo) no seu uso quando se trata de prolongar a vida dos doentes. Propõe-se que em "diálogo e com toda a transparência" (sic!) com os doentes se "negoceie" a medida terminal da vida: "viver mais 1 mês custa x, 3 meses custa y. O que acha, meu caro doente?". O espartilho orçamental não justifica tudo. E muito menos visões redutoras do valor da vida. Imersa na primazia da quantidade, a pessoa é reduzida à condição indigna de instrumento ou meio. Deixa de ser vista como princípio, sujeito e fim de toda e qualquer acção. A ética de cuidar não se esgota na ética de curar. Se esta forma de "eutanásia financeira" faz doutrina, que futuro para os cuidados paliativos e continuados? Este é o país onde, na lei, se desvaloriza a vida antes do nascimento. Agora quer-se desvalorizá-la antes da morte. Com uma desumana equação de euros versus um pedaço de vida. Este é o país onde há dinheiro para o aborto voluntário e respectiva licença da S. Social. Mas, ao mesmo tempo, se quer "tabelar", por razões financeiras, o tempo final da vida. Qualquer "troika" não faria melhor… P.S.: Em contrário e bom sentido, foi a medida da vacina da gripe gratuita a partir dos 65 anos.»


 


António Bagão Félix, Jornal de Negócios

2.10.12

Uma martelada

Não faço a menor ideia - palavra de honra - sobre o conteúdo da peroração anunciada do ministro das finanças. Todavia, importa precisar que não se trata seguramente de "anunciar alternativas à tsu" como alguns magos comunicacionais "explicaram". Uma coisa sei. Sem desferir uma forte martelada não retórica nos blocos de gesso da despesa pública - como se farta de repetir Henrique Medina Carreira, um Estado "insolvente" tem tanta legitimidade para alterar unilateralmente os contratos das pessoas com o dito Estado como para o fazer em relação a PPP's, rendas e outros elefantes cinzentos - as coisas ficam mais difíceis. E difíceis já elas estão.

Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és






Este top de livros revela mais um país do que todas os lençóis sociológicos que nos impingem desde que a disciplina foi recuperada pelo regime. «O ponto é este: somos um país de analfabetos. Do Marquês de Pombal a Vitorino Magalhães Godinho passando por António Sérgio e tantos outros, o diagnóstico encontra-se há muito feito, e bem feito. E é desde há muito que o poder político se arrasta, de promessa em promessa, de fiasco em fiasco, sem conseguir resolver o problema que, incontestavelmente, está na raiz do nó de bloqueios e de atavismos que constituem o mal português.» (M.M.Carrilho, Pensar o Mundo, Volume II)

1.10.12

Vai longe

As moções de censura ao governo do Bloco e do PC, para além do ruído, apenas revelam o desgraçado irrealismo em que vivem aquelas almas. No momento em que começa uma nova sessão legislativa, esta gente resolve armar um espectáculo com cerca de três horas de duração e com desfecho anunciado. Este voluntarismo inconsequente mostra uma esquerda sem mundo, paroquial e ensimesmada, que teima em ignorar o "estado da arte" doméstico. Vai longe.

O impasse

«Hoje produz-se mais ignorância.»


 


Manuel Maria Carrilho, Público