1. As reacções esquerdófilas à morte de Hermano Saraiva, em geral provenientes das "elites" forjadas no comadrio ideológico-partidário que tomou conta da academia e da chamada "comunicação social e cultural" nos últimos anos, apenas amplificam o som grunho do burgesso adormecido dentro de cada uma delas. Deus terá seguramente piedade de tanto dislate. Eu não.
2. Vêm aí os jogos olímpicos embora não estejamos ainda inteiramente refeitos das "emoções" da bola. E sobre mais esse "evento" (e nós), Vasco Pulido Valente, no Público, resume bem a coisa: «As dívidas da Expo persistem em nos perseguir. Pela última contagem, a empresa de "urbanização" Parque Expo deve cem milhões, que pretende passar para as câmaras de Lisboa e Loures, como quem passa os restos de um almoço. Lisboa e Loures, naturalmente, e o contribuinte inerme acabará, como sempre, por pagar a conta. Os Jogos da Grécia deram uma especial contribuição para arruinar a Grécia. Os Jogos de Londres, pelo menos, provocaram a indignação e a fúria de uma parte substancial do país. Mas nós, na nossa obtusidade saloia, continuamos muito orgulhosos de "Guimarães, Capital da Cultura". Somos quem somos. Infelizmente.»
3. O bispo Januário passou um atestado de javardice pública ao funcionamento institucional da democracia. Todavia não lhe faltaram elogios por parte de gente com a qual o país contou para, famosamente, assegurar a partir de 1976 que "isto" manteria pelo menos a aparência de uma democracia, com eleições e toda a parafernália correspondente. Céline tinha um termo para estas confusões: «la vacherie du tronc des hommes.»
4. Ainda mal arrefeceram as operações de privatização da EDP e da REN e já as assessorias privadas delas estão a ser investigadas. Será que não seremos nunca capazes de fazer nada sem um cheirinho a cócó de cão nos sapatos?
5. Finalmente, o Rui Ramos, no Expresso - esse hebdomadário virtuoso onde nunca nada vacila, nem as alucinações - sumariza o "trampismo" que nunca nos fará sair do mesmo sítio, das mesmas pessoas, do mesmo estúpido egoísmo, da mesma vontade torpe de deixar tudo como está para ver como é que fica, aludida por Ruben. A. noutra encarnação mas acerca da mesma pequenina burguesia de espírito: «Para limitar o poder, em vez dos "freios e contrapesos" da fórmula americana, inventámos um sistema de chalaças e dichotes. É um sistema próprio de lacaios e vadios, não de cidadãos. Vivemos na democracia da anedota.»
10 comentários:
Muitos equívocos novamente: José Hermano Saraiva era um contador de histórias. Às vezes gostava de ouvir o que dizia e achava piada. Não mais. Já o seu irmão era, sem dúvida, um homem e estudioso (politicamente irrequieto, como se deve ser, e eu via o João Gonçalves ser e deixou de o ser - problema seu!), um estudioso, pensador e ensaísta incontornável. Lá está, como eu gosto de dizer: era um grande intelectual, e até podia ser de direita pura e dura (não era). A esquerda tem o direito de dizer o que quiser de José Hermano Saraiva.
Sobre o bispo Torgal, novamente. Ele não passou m atestado de javardice à democracia, passou-o a este governo. Seja claro. É preciso dizer a quem neste governo tal atestado assenta que nem uma luva?? Caramba!! Um leitor de Céline tem obrigação de ir mais longe. CVidal
Meu caro João Gonçalves,
Fui dos que, a propósito da morte de José Hermano Saraiva, lembrei uma faceta que muitos desconheciam ou fingiam não conhecer. Fi-lo porque, apesar de ainda um miúdo, recordo a destreza com que o dr. Saraiva rapava da caneta e expulsava, repito, expulsava professores do ensino público com base em informações da PIDE - já para não falar dos famosos "gorilas" nas faculdades ou da indiferença (já para não classificar de outra maneira) com que pactuou com as cargas policiais sobre os estudantes.
Se ao longo dos anos, JHS tivesse sido coerente e assumido as suas acções enquanto ministro e partidário do antigo regime, mereceria o meu respeito. Mas não, dr. Saraiva foi daqueles que tentou "ajeitar-se" aos novos ventos, acomodar-se, chegando mesmo ao ponto de tentar justificar publicamente a participação no governo de Salazar por representar uma pretensa "ala democrática" do anterior regime... E só não chegou ao cúmulo e ao absurdo de aderir de corpo e alma aos chamados "ideais de Abril", como fez Veiga Simão (que chegou a ser ministro de governos socialistas!) porque os ecrãs e as suas (historicamente duvidosas, diga-se de passagem...) charlas televisivas pouparam-no a isso, livraram-no de "virar a casaca" de forma tão vergonhosa e humilhante quanto o seu sucessor na pasta da Educação Nacional.
É essa para mim a grande diferença entre um dr. Saraiva e, por exemplo, um general Kaulza de Arriaga, que tive o prazer de conhecer e falar longas horas. É essa a diferença que eu encontro entre alguém que para mim foi objectivamente um oportunista e alguém que - mesmo defendendo ideias bem distintas das minhas - sempre foi coerente e merecedor de respeito.
Desculpe lá este desabafo...
Abraço amigo,
ZP
A questão, Carlos, é que não vale a pena ir muito mais longe. O próprio Céliine (ouvi a história contada pela Maria José Mauperrin na lembrança de um Café Concerto com Jorge Listopad) percebeu isso praticamente do princípio ao fim. O Listopad moraria na mesma rua do dr. Destouches e, com as filhas doentes, algum vizinho lhe terá dito que morava ali um médico. Listopad foi até lá, bateu à porta e o dito Destouches veio abrir a porta de cão. Sem saber com quem estava a falar, Listopad perguntou ao homem se era médico (ele disse que sim) e se podia ir ver as filhas. Céline olhou para o pobre e para o cão, e respondeu que não podia. "Não posso deixar o cão sozinho". É mais ou menos isto - tudo menos deixar os cães, os que até possuem a lealdade, soinhos, Seu, JG
Zé Paulo, quando ia a meio julguei que se estava a referir ao anacoreta Moreira, o maior e mais "consensual" adoptado do regime. O Saraiva nunca escondeu que não era um democrata e que sentia uma real admiração por Salazar. Isso não impediu o anti-salazarista Lyon de Castro de ir ter com ele à Nazaré e pedir-lhe para escrever a sua História Concisa para a Europa América. Já levávamos para aí uns 3 ou 4 anos disto; a 1ª edição é de 1978. A RTP voltou a procurá-lo, não foi o contrário. Mesmo assim, Saraiva nunca renegou as suas "origens" nem aceitou nada de político ou de partido nestes anos pós Abril. Fez mais pela famosa "imagem" do Portugal democrático do que muitos democratas de papel passado nos locais habituais do notariado anti-fascista. Abraço. JG
O problema é que fidelidade sem irrequietude é algo impensável. Não é de facto necessário ir mais longe. Basta quedarmo-nos en Céline. E a academia? Bom, a academia, desde que eu fui estudante (e ainda sou) tem as costas largas. Não houve ninguém que não lhe atirasse as pedras do costume.
João,
Muito sinceramente, não vejo o que o dr. Saraiva tenha feito pela imagem do "Portugal democrático". Pela divulgação da nossa História (ainda que eu tenha algumas ressalvas...), admito que sim, agora pela democracia vou ali e já venho.
Não quero ser repetitivo nem chato, mas lembro-me bem (muito bem mesmo...) do dr. Saraiva proibir professores de ensinar, baseando a sua decisão em informações da PIDE. E isso, para mim, não há nem "tempo" nem "alma" que esconde ou apague...
Abraço forte e amigo,
ZP
Não me vou meter nesta discussão, tenho noção dos meus limites.
Mas a frase "nunca escondeu que não era um democrata" ficvou-me a martelar.
Hoje em dia ser-se adepto da Lei e da Ordem e já agora da disciplina, da honra, da educação, das maneirs à mesa e em sociedade é muitas vezes confundido com exactamente ser-se do "antigo" do "reviralho".
Isto não se aplica obviamente a nenhum dos senhores é apenas o que ouço a gente mais velha que acha que a o sociedade actual está doente.
" Eu lembro-me do dr Saraiva..."
Eu lembro-me do outro "saraiva" ter pertencido à M.Portuguesa, ter matado pretos "nos matos", ter morto (ou mandado) inocentes,assaltar bancos, ameçar prisões e prender pessoas... Hoje esse saraiva" é um heroi nacional!
Quanto a dom januário ," heroi "de coragem da denuncia... melhor lhe ficaria dizer e reconhecer:
" Os pedófilos da Casa Pia, comparados com certos meus confrades da Igreja, são os "anjos"!
Caro Sr. João Paulo Fafe
Permita que lhe diga, como visitante assíduo do seu FE , e porque sei a luta que vc tem travado há já longo tempo contra esta partidocracia , a minha estupefacção pela opinião pessoal que tem do Prof. JHS . Como sabe, toda a gente que participou e colaborou com o anterior regime, está ou esteve encostada ao advento da democracia saída do 25/4. A minoria desapareceu anonimamente, sem grande alarido. Como bem diz o Sr. JG , a esquerdalha nunca teve nem nunca terá uma palavra de reconhecimento e aprovação por quem tem ideias diferentes. José Hermano Saraiva, bem ou mal nunca se escondeu, deu sempre a cara pelas suas convicções, ao contrário de muitos "democratas" que hoje enxameiam os corredores do poder. JHS pode até ter sido um mau Ministro da Educação durante o seu mandato, mas pergunto-lhe: acha que
os posteriores Ministros da Educação têm sido isentos, no comportamento que assumem para com a classe docente ?
Devo esclarecer que não sou nem nunca fui professor, mas reconheço que actualmente a sua missão de ensinar é quase épica.
Cordiais saudações
S. Guimarães
Peço desculpa ao Sr. José Paulo o facto de lhe ter trocado o nome, assim como o nome da sua página.
S. Guimarães
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