
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal
Mário Cesariny
Adenda: Fui buscar este poema de Cesariny para celebrar o Joaquim Manuel Magalhães, meu amigo há mais de duas décadas, também ele enorme poeta e professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa onde acabou de se aposentar. Pouca gente falou tão bem da poesia em Portugal como ele. Não sei se ela se ensina mas as suas aulas ajudavam a perceber esse bocado de carne, atirado ao cão enquanto os larápios assaltam a casa, de que falava Eliot. Não gosto dos meus "tempos". Estão todos trocados. Tudo acontece ou aconteceu cedo ou tarde de mais. Tudo acontece ou aconteceu em geral mal ou retorcidamente. Há, todavia, o que perdura. O pedaço de carne. A poesia. O Joaquim.
Adenda2: É curioso verificar como certos tartufos que, nos idos de 70 dos exames ad hoc para entrar na mencionada Faculdade de Letras, não conseguiram sequer obter aproveitamento em português, têm lata para "comentar" licenciaturas alheias et al. Mas passam por "escritores" e há uns quantos lerdinhos que os tomam por tal porque lhes ornamentam a mesa.
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