Semanário - Depois, foi a vez de Camões entrar na sua história. O Professor foi ao encontro de um outro tempo e de uma alma que é, afinal, dos nosso dias.
José Hermano Saraiva - Surgiu, entretanto, um outro facto curioso. Em 75 ou 76 (não sei ao certo), ao aproximar-se o 10 de Junho, a Comissão encarregada das comemorações decidiu publicar um jornal dedicado aos emigrantes. Surgiram logo estes problemas "à portuguesa", respeitantes à publicação desse número (enfim, todos os jornais entendiam que deviam ser eles a garantir a publicação), e o governo resolveu a coisa de uma forma muito eclética, com uma solução de compromisso: esse jornal seria editado por dez jornais e, para representar a imprensa da província, é escolhido um jornal ao qual estou profundamente ligado, o Jornal do Fundão. Ao director desse jornal pareceu-lhe, da lista dos seus colaboradores, que eu estaria ligado ao tema e pediu-me um artigo sobre Camões.
Devo dizer que eu nunca tinha estudado em especial Camões, a alternativa Camões-emigrante. A alternativa estabelece imediatamente uma associação pois a Camões chamamos nós muitas coisas: é o príncipe dos nossos poetas, é o símbolo da nossa grei. Agora, aquilo que ele foi realmente - um pobre emigrante - isso não costumamos chamar-lhe. Camões é essencialmente isso: um homem que não tem, no próprio País onde nasceu, oportunidade para ganhar o pão de que precisa para comer. Emigra. Emigra - e devo dizer-lhe isto porque nem sempre se tem chamado a atenção para o facto - e todo o canto de Camões é um canto de emigrante. Ele chega a dizer a certa altura que, quando canta, é para enganar a profunda saudade da ausência. A situação é precisamente esta: as saudades angustiam-no e diz ele, "e as águas que então bebo e o pão que como, lágrimas tristes são que nunca saberão senão como fabricar uma fantasia, fantásticas pinturas de alegria."
Lancei-me ao estudo da vida de Camões levado por esta perplexidade: como é possível que Camões, que é um homem de uma cultura perfeitamente excepcional para o seu tempo - devo dizer que a época de Camões é já a segunda metade do século XVI, não tem aquela riqueza de valores intelectuais que caracteriza a primeira metade -, quando começa a faltar gente, sobretudo porque nós havíamos estabelecido uma administração efectiva sobre uma larga parte do mundo e faltavam homens capazes de se ocupar da administração, da facturação, enfim, de todo esse vasto Império que tínhamos estabelecido desde a Índia ao Brasil. como é possível, dizia eu, que apesar desta falta de pessoal capaz para as tarefas administrativas, Camões não tenha conseguido arranjar emprego?
Semanário - Dúvidas que o levam à busca da "vida ignorada" do autor de Os Lusíadas?
José Hermano Saraiva - É ele próprio que alude à fome que passou, em versos dos próprios Lusíadas, em que fala em "tanta necessidade avorrecida". "Necessidade avorrecida" significa exactamente isso: Ora como é possível isto? Paira sobre este homem alguma maldição? Eis a pergunta que eu fiz a mim mesmo. Qual era a razão que levava Camões a ser marginalizado em relação aos quadros sociais da sua época? É que, por outro lado, há documentação que permite estabelecer que o nome literário de Camões já estava rodeado de prestígio. Pode literalmente dizer-se isto: ele era reconhecido como um homem de uma altíssima estatura intelectual. Estas questões lançam-me numa investigação acerca de Camões na qual tive a fortuna do meu lado.
Semanário - Chegamos, assim, a outro livro.
José Hermano Saraiva - Sem dúvida nenhuma que o conjunto de coincidências levou-me rigorosamente às fontes históricas e foi-me possível escrever uma biografia chamada Vida Ignorada de Camões. Não tenho hoje dúvida alguma de que Camões é um jovem nascido no campo, rigorosamente da região de Chaves (região de fronteira), que é trazido para a Corte por esses dez anos para servir na casa de um homem - Fernando Álvares de Andrade -, um cristão-novo que era tesoureiro-mor do Rei D. João III. É levado para a casa da filha, Violante de Andrade, quando ela casa com um filho do Duque de Linhares, D. Francisco de Noronha. A partir daí começa toda aquela dramática situação de que a obra de Camões é uma dolorosa autobiografia. Eu hoje não duvido que, mesmo os próprios Lusíadas, uma obra de génio em que o colectivo, o relativo a toda a comunidade portuguesa é legível num outro plano, o da intimidade sigilosa e que é uma autobiografia.
(continua)
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