
Ao som de Mozart - concerto para clarinete e orquestra, aquele com que Robert Redford enternecia e acalmava os macacos selvagens no filme Out of Africa -, folheio jornais e revistas, em versão material e imaterial. Leio a doxa que vai da "carta ao leitor", do professor catedrático ao cómico do regime, do avençado previsível ao idiota inútil, etc., etc. E lembro Gore Vidal, o derradeiro romano. As suas "injustiças" confortam-me. Coisas como «sou tão insociável quanto é possível ser-se" ou "não existe um único problema humano que não pudesse ser resolvido se as pessoas seguissem os meus conselhos» são pressupostos básicos, de par com a água do Guincho, para um módico de equilíbrio pessoal. Assevera nunca ter tido «uma opinião excessivamente elevada do mundo» até porque «o mundo não fez nada para mudar.» Como ele, «decidi cedo que aquilo que penso dos outros é mais importante do que aquilo que eles pensam sobre mim. Qualquer jogo tem de ter um árbitro e, então, decidi que eu seria o árbitro.» A doxa por natureza não se arbitra. Despreza-se, à semelhança daqueles lugares-comuns que Nabokov descrevia como cruzamentos de elefantes com cavalos. Sublimes macacos, os do Redford.
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