«O que tem acontecido é que nos sujeitamos cegamente à lógica da aceleração temporal, que partindo do domínio da técnica tomou conta de todas as áreas da vida, sejam elas a laboral, a social ou a pessoal. Em todas elas o nosso quotidiano é permanentemente atravessado por uma urgência que impõe os fluxos mais diversos, multiplicando as situações de dessincronização patológica entre várias actividades. Com as consequências que se vão vendo, nomeadamente a nível subjectivo, seja no stress ou na depressão, na incapacidade de atenção ou de concentração. E generalizando o curto prazo como o único horizonte de sentido - ou melhor, da falta dele - da humanidade contemporânea. E o "curto-termismo" traz com ele não só o impasse, mas também a irresponsabilidade. O impasse porque, sem tempo de médio ou longo prazo, não há projeto de vida individual ou colectiva que consiga vingar. E a irresponsabilidade, porque ele coloca todos os processos de deliberação sob a ditadura da celeridade e do instante, incapazes de dar atenção à complexidade dos problemas das sociedades contemporâneas. E assim se vive, como escreveu J.-L. Servan-Schreiber, como se nos deslocássemos de noite, num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui. É bom lembrar que a modernidade assentou num projecto de autonomia, entendida como a emancipação da humanidade de diversos constrangimentos: materiais, sociais e culturais. Ora o que hoje constatamos é, inversamente, a perda dessa autonomia. Como diz Hartmut Rosa, um dos mais perspicazes estudiosos do fenómeno da aceleração, o indivíduo submetido à lógica da aceleração é cada vez "menos senhor da sua própria vida. Esta não parece ter direcção, não se vê que conduza a algum lado, tudo o que se faz é patinar a um ritmo desenfreado". Como se, acrescenta ele numa metáfora que descreve inspiradamente bem a crise atual, "a roda motriz que fazia avançar e dava um sentimento de liberdade se tivesse tornado uma roda de hamster na qual giramos freneticamente sem sair do mesmo sítio". É mesmo isso: faz exactamente hoje um ano que começou uma quinzena negra que marcou o verão de 2011, com as bolsas em queda e as dívidas espanhola e italiana sob enorme pressão, o que obrigaria o BCE a comprar mais de 180 mil milhões de dívidas soberanas. Um ano depois continuamos, como se vê, na mesma, a viver dias politicamente escaldantes numa Europa cada vez mais próxima do colapso, mas sempre a girar freneticamente no mesmo sítio, como um hamster na sua roda! Gastando, como ele, toda a sua energia nas rotinas cegas de um carrossel de ilusões.»
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