
Semanário - O que pensa o Professor Hermano Saraiva da relação do livro de história com a opinião pública? Há um público para o livro histórico?
José Hermano Saraiva - Isso põe um outro problema que é o das relações entre o escritor e o público. Por vezes o escritor português abstém-se da sua posição relacional. Não há escritor sem público, como não há emissor sem emissário. Nós falamos com uma colectividade com certas características sociológicas e culturais que temos de ter presentes. Ignorá-las completamente e escrever ao arrepio dessa capacidade de absorção dos destinatários da obra feita, penso que é não servir plenamente os interesses da comunidade. Isto nada tem que ver com vulgarização, não se trata de nada disso. Trata-se de que a problemática mais complexa é sempre redutível a termos que a tornem inteligível qualquer que seja o grau de público. Os grandes pensadores, os grandes filósofos, aqueles que influenciaram efectivamente o pensamento do seu tempo, foram pessoas que encontraram uma maneira de se fazer entender. Agora aquelas prosas por vezes propositadamente estrábicas e esdrúxulas em que se parecem comprazer certos dos nossos intelectuais, gera-me a suspeita de que quem precisa de uma bruma tão grande para envolver os seus movimentos, é porque, porventura, não pretende que seja visto claramente. Isto a propósito da acessibilidade das nossas obras e do efeito que elas podem ter sobre o público. Porém, e mesmo com todas as suas limitações, penso que a literatura histórica é aquela que está neste momento a encontrar uma maior aceitação.
*Pergunta e resposta não editadas na entrevista:
Semanário - O Professor é um homem atento ao homem, às figuras na circunstância. Os factos só adquirem verdadeiro significado como coisas nossas, dos homens.
José Hermano Saraiva - Não há factos no mundo. Fala-se muito nos factos. A verdade é que o mesmo facto descrito por si é um e descrito por mim é outro. Vou-lhe dar um caso concreto. A propósito das lutas liberais, eu verifiquei que em determinada cidade, os liberais, selvaticamente, caíram na cadeia distrital e lincharam dezenas de pobres miguelistas que lá estavam. Passados dias, recorrendo a outra fonte, li que nessa mesma cidade, por essa mesma altura, os miguelistas, facínoras e perversos, haviam caído na cadeia distrital e tinham chacinado todos os liberais que lá estavam. É o anti-facto, o reverso da medalha. Pensei, "bom, aqui algum dos dois autores trocou o nome ao santo, ou os liberais mataram os miguelistas, ou os miguelistas mataram os liberais". Fui à terra e verifiquei qua ambos os factos eram verdadeiros e, portanto, se há um facto, tem as duas faces. O que aconteceu foi que na véspera da rendição miguelista, há uma chacina dos prisioneiros liberais que lá estavam; os liberais entraram no dia seguinte, prenderam os miguelistas que tinham feito a chacina e chacinaram-os a eles. É este o facto - a violência e a sua repercussão violenta é que interessa, mas a este facto ninguém se tinha referido. A história não se explica, compreende-se e cada um tem a sua compreensão da história.
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário