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1.1.12

MATOS EM SÃO CARLOS



Auspiciosa a abertura do São Carlos em 2012. O "concerto de ano novo" demonstrou, uma vez mais, a qualidade dos corpos artístico-musicais do Teatro, a saber, a Orquestra Sinfónica Portuguesa (com uma saudação muito especial para a Irene Lima) e o Coro. E confirmou a Matos como uma grande intérprete mundial. Estão de parabéns o João Villa-Lobos e o César Viana enquanto responsáveis pela gestão da casa em tempos difíceis.

11.12.11

O DR. SERRA




Morreu o dr. José Manuel Serra Formigal, ilustre advogado da nossa praça, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos na década de 80. Também o foi no Trindade e fundou a Companhia Portuguesa de Ópera estupidamente extinta a troco de nada. Eu costumo dizer que o dr. Serra foi o derradeiro director a sério do São Carlos (Paolo Pinamonti foi sobretudo um director artístico). Antes dele, só o célebre dr. José de Figueiredo que reportava directamente a Salazar. Nesses saudosos anos oitenta, Formigal trouxe a Portugal alguns dos melhores intérpretes mundiais do canto lírico (como Paes, Freitas Branco e o dito Figueiredo antes dele) que cantavam no São Carlos e no Coliseu. Depois o São Carlos "modernizou-se", chegou a "fundação" (o maior desastre da sua história contemporânea) e começou a comprar produções por atacado. O tempo das grandes vedetas tinha passado definitivamente e, agora, é raro encontrarmos por cá grandes nomes da ópera dos nossos dias. As produções são qualitativamente desiguais e o público a mesma coisa, a tender para o musicalmente indiferente e sem pingo de gosto . Era a altura em que se aguentava de pé récitas inteiras, em que havia pateadas e onde, numa greve, o próprio Formigal "dirigia" o coro ou abria e fechava o pano de cena. Tinha vinte e poucos anos e via tudo, desde os ensaios gerais às récitas todas. A última vez que o encontrei, muito abatido mas ainda com aquele olhar vivo, irónico e penetrante que o caracterizava, foi na Gulbenkian onde foi assistir a uma das transmissões directas de ópera a partir de Nova Iorque. Espero que o São Carlos saiba homenagear oportunamente um dos seus maiores amigos de sempre e alguém a quem muito deve. O dr. Serra fazia parte da minha paisagem. Era um senhor num mundo em que os da sua espécie rareiam enquanto os chicos-espertos avançam. Até sempre, dr. Serra.

Clip: Alfredo Kraus - e Mirella Freni - em Faust, de Gounod. Em Fevereiro de 1982, Serra Formigal trouxe Kraus ao São Carlos para protagonizar esta ópera. As outras récitas ficaram a cargo do nosso Carlos Jorge. Já desapareceram os três. Uma tristeza.

8.10.11

A ISABEL DA ELISABETE




Don Carlos, de Verdi, a sua obra porventura mais "negra" e mais "política", regressa ao São Carlos. A última vez que lá passou foi em 1977 e no papel de Isabel de Valois estava Mara Zampieri. Agora está a Matos, a Elisabete Matos, que por circunstâncias várias vive lá fora e ombreia com qualquer das melhores intérpretes líricas do momento. Dos restantes intérpretes, da encenação ou da direcção musical pouco sei mas a Matos consola-me. Vamos ver.

3.4.11

CADA UM TEM O QUE MERECE




Nós já tínhamos o túmulo do Rossio, o D. Maria. Com a remoção de Paolo Pinamonti do São Carlos, criámos (criaram as extraordinárias Isabel Pires de Lima e Gabriela Canavilhas e o inócuo Pinto Ribeiro no seu funesto interlúdio entre as duas) outro no Largo de São Carlos. Agora que tanto se fala de auditorias, devia pensar-se numa espécie de auditora moral e intelectual ao consulado "cultural" de Sócrates e da "esquerda moderna". A ópera inexiste enquanto tal e o São Carlos passou a vulgar sala de espectáculos onde se perpetram espectáculos vulgares. Parece que o derradeiro, concebido por João Botelho, ainda é do menos mau (mérito de João Botelho) dos últimos tempos. Mas aqui ao lado, a coisa é a sério. Esta notícia não causa admiração. A Espanha deu ao mundo lírico do melhor que se pôde ver e ouvir no século XX. E continua, felizmente, a dar. Cada um tem o que merece.

Clip: Teresa Berganza, Placido Domingo, Montserrat Caballe, Alfredo Kraus, Pilar Lorengar, Jose Carreras, Jaime Aragall and Juan Pons

14.10.10

MARIA CRISTINA DE CASTRO




Houve uma época assaz curiosa na minha vida em que imaginei que podia cantar. Não cantar num coro, estilo do liceu ou da universidade, mas cantar mesmo. E fui a casa de Maria Cristina de Castro, ali para os lados da Estrela/Campo de Ourique, para ponderar lições. Perpetrei umas notas ridículas na parte dos "vocalizes" da qual prudentemente não passei. Mas Maria Cristina era generosa e achava que, de lição em lição, a coisa ia a qualquer lado. Não foi, evidentemente, porque um assomo de bom senso e de vergonha impediu-me de lá voltar. Era uma presença habitual no São Carlos e na Companhia Portuguesa de Ópera. Cantou ao lado da Callas, em 1958, na Traviata. Ajudou muita gente a dar os primeiros passos no mundo da ópera. Era uma pessoa boa precisamente o oposto da "boa pessoa". Acho que chega.

16.9.10

DECLÍNIO E QUEDA DE UM TEATRO DE ÓPERA




Há trinta e três anos, em Paris, morria Maria Callas. Escuso-me sublinhar quem foi. Em 1958, cantou La Traviata em São Carlos, altura em que o São Carlos tinha um director que é coisa que, desde a remoção de Paolo Pinamonti pelo governo da maioria absoluta socialista, nunca mais teve. Ignoro - e não me apetece saber quem é - o nome do que actualmente passa por tal. Este programa é um sinal do ponto de quase não retorno a que chegou o teatro lírico nacional. O único. Trata-se de uma falácia onde passam por "óperas" coisas que não temos a certeza que o sejam. Pelo menos não o são no sentido em que estamos habituados que sejam. De repertório, o São Carlos apenas assume uma Carmen em Junho ou, com benevolência "não repertoriana", um Janácek e um Humperdinck. Há Keil a abrir - seguramente por conta do nefando centenário - e umas parvoíces apelidadas de "contar uma ópera". Gabriela Canavilhas apadrinhou isto tudo com o seu sorriso levezinho e indiferente. O São Carlos, quando era vivo, recebeu os melhores intérpretes líricos do mundo. Aliás, faziam questão em vir cá. Agora o São Carlos prefere "contar" óperas em vez de as cantar. A saída do alemão Dammann augurava melhores dias. Puro equívoco. Callas desapareceu duplamente.

18.7.10

IN QUESTA REGGIA



«O nosso país não oferece condições para estabelecer» uma carreira lírica, disse Elisabete Matos numa entrevista na televisão. Elisabete nasceu em Braga, vive em Espanha e é hoje uma extraordinária intérprete de ópera, do repertório "verista" a Wagner. Conheci-a no São Carlos e "segui-a" até ao Liceu de Barcelona. A Matos não cantar cá tanto como devia também releva da merda do estado da nação in questa reggia.

(clip: Puccini, Turandot. Festival de Toledo. 2008)

28.4.10

UNA VOCE POCO FA


A ministra Canavilhas decidiu - e bem - varrer o director artístico do São Carlos e a direcção da OPART. Mas não chega. Jorge Salavisa, que vai presidir a esta última, não pode manter os restantes membros sob pena de a coisa se ficar pelo make up. Conheço Salavisa há muitos anos e, por isso mesmo, só lhe posso desejar venturas e lonjuras de certa parasitagem permanente que pulula na cultura como piolhos. As tutelas passam e eles, quais lêndeas (bicho pior que o piolho), ficam. Quanto ao director artístico convidado, um maestro britânico, não sei quem é. Preferia o regresso de Pinamonti. Ver-se-á.

10.4.10

GABRIELA ENTRE O SER E O ESTAR


Li, sobre uma toalha de praia, uma entrevista de Gabriela Canavilhas, a ministra da cultura, ao Expresso. Retive umas coisas. Gabriela já não toca piano desde que foi para a Ajuda. Gabriela prefere música de câmara e o maçador Schubert. Gabriela viu um filme português em Moçambique que achou, sic, "uma delícia". Gabriela faz questão em sublinhar que "está ministra". O último que disse isto foi o funesto Fernando Gomes, ex.ministro de Guterres, e durou pouco. De resto, Canavilhas não explicou como é que tenciona responsabilizar Mário Vieira de Carvalho, o ainda mais funesto ex - secretário de Estado da cultura de Pires de Lima e Sócrates, que escolheu o sr. Dammann para o São Carlos e que nos vai custar, para além da mediocridade da "programação", qualquer coisa entre 150 a 250 mil euros de "indemnização". Dra. Gabriela: não seria mais adequado ser Dammann a indemnizar-nos?

26.3.10

SERVIÇO PÚBLICO


Retirada a referência a Serra Formigal com a qual discordo, o Augusto M. Seabra coloca o nome na coisa,a relação custo/ benefício para o serviço público representado pelo Teatro Nacional de São Carlos de cada dia a mais que passa com Dammann (e "opartzinhos" de opereta) à frente daquilo. «Dado o carácter “blindado” do contrato de Dammann, válido até Agosto de 2012, e prevendo uma avultada indemnização em caso de rescisão, serão ainda necessárias conversações com vista a um acordo dos termos da saída. Mas, mesmo sendo esse um factor a ponderar, muito, muitíssimo mais gravosa para o serviço público que o São Carlos é, e para os níveis artísticos que estatutariamente lhe estão fixados, seria a permanência do senhor. A decisão de Canavilhas não pode pois ser senão vivamente saudada.» Acrescento o meu voto, insuspeito, no sentido do regresso de Paolo Pinamonti à direcção artística do nosso único teatro de ópera.

25.3.10

DAMMANN OUT



Em entrevista à antena 2 - ouvi de madrugada - Gabriela Canavilhas finalmente percebeu que tinha de correr com o director artístico do São Carlos, Christoph Dammann. Percebeu que o público, a crítica, porventura o próprio Teatro não aguentavam tanta mediocridade junta. Devia completar a acção de limpeza com a remoção dos directores portugueses da OPART, esse imenso equívoco gestionário inventado pela prof. ª Pires de Lima e pelo ex-RDA Vieira de Carvalho. É tudo uma e a mesma coisa. E mais vale tarde que nunca.

17.3.10

DA CORRUPÇÃO MORAL

Mário Vieira de Carvalho - o ente que colocou o São Carlos literalmente a pão e água com um rol incomensurável de cúmplices "culturais" -, ex-adepto da RDA e ex-secretário de estado da cultura da "esquerda moderna" na encarnação absolutista, escreve no Público que «a corrupção económica e a corrupção moral transformaram-se no reverso da corrupção político-partidária.» Até pode ter razão mas algum pudor devia obrigá-lo a não aparecer em público a perpetrar auto-retratos. O que se passa no São Carlos, toda aquela porcaria em forma de "espectáculos", de anacoretas passivos e activos que ele permitiu que lá se instalassem, é o mais parecido com corrupção moral que existe. Ou destruir um teatro de ópera, o único que temos, de forma deliberada, consistente e metódica é o quê?

8.3.10

FREITAS BRANCO


No momento em que o São Carlos se transformou numa co-incineradora da sensibilidade e da inteligência, apraz-me igualmente saudar a memória de João de Freitas Branco independentemente da "política". Freitas Branco ainda viria a ser "recuperado", nos anos oitenta, por Serra Formigal e regressou ao Teatro de onde saiu praticamente para morrer. Lembro-me de o ver a almoçar no restaurante Trindade, nessa altura, quando eu brincava aos jornais. Não se fabrica mais daquilo.

6.3.10

DA NECESSIDADE DE DESFERIR O RAIO QUE PARTA


Ainda a propósito deste lixo, Jorge Calado, no Expresso, pergunta e bem: «onde está a justiceira capaz de desferir o raio que parta a Opart e arrase a arrogância ignorante que grassa num teatro nacional?»

28.2.10

CHACUN À SON GOÛT?



Se não visse e ouvisse, não acreditava. O Morcego, a opereta de Strauss em cena no São Carlos, resume, na perfeição, a desgraça - ou a maldição - que se abateu sobre o nosso único teatro lírico. Com o devido respeito pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, pelo coro e pela generalidade dos cantores, este Morcego é um escarro. A encenação, em torno de vampiros e matrafonas, é um remake ordinário do "tema" do momento nas livrarias e em telenovelas. Uma valsa passou a declinação rasca do "thriller" de Jackson. Os diálogos em português, particularmente as falas protagonizadas por Maria Rueff, são dignos da pior e mais reles "comédia" de televisão onde o engraçadismo roça o puro atrasadismo mental e a graçola porcalhona. As alusões à vida pública são trocadas por insultos às características físicas dos políticos. Nem Gabriela Canavilhas, a ministra da cultura presente, escapou à vulgaridade baixa de Rueff (estilo pianos a dar à cauda perante a suposta beleza da ministra) e permaneceu no camarote, impávida e serena (como se não tutelasse politicamente aquele lixo todo) a contemplar a canalhice que decorria no palco. Pelo meio apareceu Carlos Guilherme paramentado de "benfiquista" a trautear o hino do clube de futebol. O público - o mais bronco, quase todo agora, que olha para aquilo como se estivesse no circo ou num estádio - ria-se e aplaudia as alarvidades. Outros patearam (como eu) e saíram. O Prof. Jorge Miranda, no intervalo, sugeria que o São Carlos devia fechar. Concordo. Um teatro lírico que anda a fazer de teatro lírico quando não passa de uma co-incineradora da inteligência e da sensibilidade, devia encerrar. Os três ornamentos da direcção portuguesa e o alemão director artístico envergonham a história e os pergaminhos do São Carlos. Fiquei com a ideia, pela sua passividade perante tamanho disparate, que a actual ministra não entende o que se está a passar. O seu aval a este descrédito pago com dinheiro público é inadmissível. Melhor sorte teve o assessor cultural do Chefe do Estado que saiu logo no fim do 1º acto e não teve de ouvir as enormidades que Rueff disse de Cavaco como se estivesse no Maria Vitória ou na retrete. Chacun à son goût?

Clip: Johann Strauss Jr., Die Fledermaus. Royal Opera House Covent Garden, 1984. Doris Soffel, Herman Prey. Direcção de Placido Domingo.

27.1.10

A DANAÇÃO DE DAMMANN



No corredor do Coliseu encontro alguém que me diz que cancelaram uma coisa qualquer da medíocre temporada lírica em curso no São Carlos. E porquê? Porque prosaicamente faltou o tenor. Ora sou do tempo em que, com Paolo Pinamonti (e, antes dele, com os directores que conheci, de Paes a Serra Formigal, de Ribeiro da Fonte a Ferreira de Castro), se fazia o trivial, uma substituição. Num ano, 1982, Cossotto estava anunciada para uma Carmen e foi substituída por uma jovem e genialmente inesperada Victoria Vergara que deu ao São Carlos uma das melhores heroínas de Bizet de sempre. A escolha do encriptado Mário Vieira de Carvalho para o TNSC, o alemão Christoph Dammann, foi das coisas mais catastróficas que atingiram o coração do nosso único teatro de ópera, um teatro nacional. Gabriela Canavilhas, a actual titular da Cultura, tem a estrita obrigação de perceber isto sobretudo por causa da sua formação. E se não perceber, a evidência fala por si. Remova Dammann - e outras figuras menores - e reponha Pinamonti. Sou dos poucos à vontade para defender isto. No mesmo corredor e na mesma conversa participou o Prof. Jorge Miranda, um espectador com assinatura antiga no São Carlos. Tenciona acabar com ela. Moral da história: "acabem" com Dammann antes que ele acabe com o São Carlos.

Clip: Abertura Egmont, Beethoven. Georg Solti. 1996. Em resposta a um leitor, o concerto foi fraquinho. Gardiner esteve bem melhor no dia de ano novo em Veneza, no La Fenice, que acompanhei no canal Mezzo. Notava-se que a orquestra anda em "digressão artística". Maria João Pires foi Maria João Pires, nem mais nem menos.

23.7.09

IDIOTEX


Parece que alguns dos pseudo-cómicos oficiais do regime "parodiaram" Ricardo Pais (o encenador e antigo director do Teatro S. João do Porto) no Largo do São Carlos, comparando-o a Júlio Dantas. Teriam usado o famoso "manifesto" de Almada Negreiros para "gozar" Pais. Apesar de não entender o cabimento de uma macacada deste género em frente (e organizada) pela OPART que, em má hora, gere o único teatro lírico nacional, penso que atingimos um ponto de abastardamento nacional (basta atentar num 1º ministro que afirma, sem se rir, que ainda está para nascer um 1º ministro capaz de fazer melhor do que ele...) em que qualquer palhaçada dita "cultural" será sempre um mal menor. Sobretudo julgo que, a bem da "avaliação" do "respeitável público", nada deve ser proibido ou excluído. O "público", aliás, gosta de se ver (bem) representado. Mas regressemos a Dantas porque Pais deixou de me interessar há uns anos. O melhor do artigo da Helena Matos no Público nem sequer é a malfadada cronologia do improvável "socratismo" de que os referidos cómicos "idiotex" narram exemplarmente o esplendor. O melhor - por ilustrar o contrário destes tempos de gente que possui todas as qualidades dos cães menos a lealdade - é o que a Helena debita sobre Dantas. Até porque o "pim" de Almada liquidou-o aos olhos da parola intelectualidade indígena. E não merecia.


«Não me interessam muito as razões que levaram estes actores a estabelecer esse paralelo entre Júlio Dantas e Ricardo Pais. O que eu queria mesmo era um pretexto para falar do Dantas e sobretudo desmanchar aquele sorrisinho consensual, género "tão moderninho que eu sou!", que nasce quando o nome do dito Dantas é pronunciado. Durante anos o que conheci de Júlio Dantas foi o que dele escreveu Almada Negreiros. Um trabalho sobre o primeiro filme sonoro português, A Severa, fez-me interessar pela figura do tão ridicularizado Dantas. Não foram as excelentes letras dos fados que me levaram a considerar que talvez o Dantas não fosse apenas o boneco que dele fizera Almada. Foram sim umas cartas. Mais propriamente as cartas que escreveu a um preso de seu nome José Carlos Amador Rebelo. Até ao dia 6 de Fevereiro de 1931, Amador Rebelo era uma figura conhecida nesse meio cultural que anunciava ir revolucionar e organizar o cinema português em moldes modernos. O que o levara a esse mundo foi o seu talento não para o cinema mas sim para arranjar dinheiro. Quando Leitão de Barros avança para a realização do primeiro filme sonoro português, a Sociedade Universal de Super Filmes, produtora da fita, procura Amador Rebelo, que garante boa parte do capital de A Severa. Acontece que desgraçadamente o dinheiro não era de Amador Rebelo mas sim do BNU, onde Amador Rebelo tinha o invejado cargo de inspector-geral e de onde desviara o dinheiro para financiar A Severa. Às onze da noite do dia 6 de Fevereiro de 1931, João Ulrich, então director do BNU, entrou no Torel para apresentar queixa por desfalque contra Amador Rebelo. Desde esse momento a grande preocupação da gente moderna da cultura e do cinema foi desvincular-se desse homem a quem até há uns dias enviavam telegramas pedindo dinheiro para fazerem a sua obra: "A escola Alves Reis, em cuja árvore genealógica entronca José Amador Rebelo, seu jovem e aproveitado discípulo deve ser expropriada e arrasada" - lê-se na revista Cinéfilo escassos dias depois da denúncia do BNU. Amador Rebelo seria preso e julgado. E é aí, na cadeia, que entra o nome de Júlio Dantas, pois, ao contrário de outros, fossem eles cineastas, escritores ou artistas muito mais modernos, revolucionários e tidos como menos oficiosos, Júlio Dantas não se esquece de Amador Rebelo e escreve-lhe para a cadeia procurando encorajá-lo. Certamente efeminado e postiço como lhe chamou Almada, vaidoso e egocêntrico como o descreveu pitorescamente Marcelo Caetano, a verdade é que Júlio Dantas é também o intelectual que desempenhou com qualidade os cargos que teve e o homem que não fez de conta que não conhecia um amigo e que, nos anos 20, se opôs ao grupo moderníssimo de radicais que pretendia retirar duma livraria do Chiado exemplares das Canções de António Botto. Júlio Dantas tem representado convenientemente o papel do intelectual em que literal e historicamente falando é moderno malhar mas a vida (e no caso de Júlio Dantas a própria morte) e a sua teia de compromissos, fraquezas, glórias e princípios é sempre bem mais complexa do que as certezas inscritas nas frases dramaticamente sonoras e frequentemente belas dos manifestos.»

19.7.09

AO LARGO


Como é que um tipo destes - que remete para a "filosofia do festival", para "um espectáculo que não era para aquele espaço nem para aquele público” - pode "presidir" ao único teatro de ópera nacional? É com atitudes tolas e analfabetas como esta que querem "novos públicos" seja lá o que for isso dos "novos públicos"? Não há meio de os porem ao largo.
Adenda: (da leitora Vera Porto)
«É grave que este Festival, que até apresentou um coro infantil absolutamente desafinado, se permita insultar publicamente no espectáculo de 6ª-feira, dia 17, (programado por Diogo Infante), Ricardo Pais, ex-director do Teatro S. João, pela voz de Produções Fictícias (amigos do actual Min. da Cultura) e do actor Miguel Guilherme. Foi lido um Manifesto anti-Pais a partir do Manifesto anti-Dantas, de Almada Negreiros, substituindo o nome de Júlio Dantas, pelo de Ricardo Pais. Primeiro é um atentado ao texto de Almada. Segundo, como podem as instituições de Estado que promovem o Festival (S. Carlos e D. Maria II), apontarem o dedo e insultarem aquele que foi até recentemente director dum outro Teatro Nacional? »

18.7.09

UM PEDIDO (SATISFEITO) SOBRE O SÃO CARLOS



Ao Diogo Vasconcelos, de Londres e de sempre, a Manuel Matos, de Coimbra, e a Carlos Pereira da Cruz os meus agradecimentos pelo artigo sobre o São Carlos, a temporada e o sr. Christoph Dammann, o seu funesto director-artístico. Desta vez Jorge Calado acerta até pelas comparações oportunas que faz. Dammann é das piores coisas que caíram em cima do nosso único teatro lírico onde o verdadeiro director continua a ser Mário Vieira de Carvalho. Pinto Ribeiro afirmou não concordar com a gestão em curso - a OPART - mas não mexeu uma palha. Estão todos bem uns para outros. Todavia, o público e os contribuintes é que não devem suportar tanta esperteza saloia sob a capa de um cosmopolitismo de paróquia. Como escreve Calado no Expresso, «registe-se que a Vlaamse Opera (a segunda casa de ópera belga) tem nove [produções contra seis por ano no S. Carlos], a Netherlands Opera tem 15 e a Ópera Nacional Finlandesa tem 14. Todas nações pequenas, sem grandes tradições operáticas [contrariamente ao Teatro de Lisboa] (...) que já foi de Gigli, Mödl, Kraus, Gorr, Schöffler, Resnik, Zampieri e Theodossiou.» Mais. «O que Christoph Dammann, director artístico do teatro, tem feito desde a sua conturbada nomeação é, a vários títulos, desastroso. Com as excepções que só confirmam a regra, as escolhas de repertório, de produções, elencos e maestros revelam uma gritante incompetência, reconhecida à esquerda e à direita (...). Dammann esconde-se atrás de uma pseudolealdade para com os artistas que convida, mesmo maus. A lealdade primeira deveria ser para com o público português que lhe paga (...). O problema, meus senhores, não é a falta de estrelas e de cantores caros. O problema são os maus cantores, os maestros desadequados, os encenadores patetas, o pouco respeito pelo público (...). O Estúdio de Ópera é menos um laboratório de pesquisa e formação e mais um truque para fazer mais e baratinho (três títulos entre Novembro/Dezembro) (...). O Opart e a actual direcção do São Carlos desfazem-se em estatísticas para provar a bondade das mudanças. Para eles, a ópera são números, não são pessoas.»

Clip: Verdi, Macbeth.Mara Zampieri, Ópera de Berlim, Giuseppe Sinopoli. 1987