14.7.12

A história de um fracasso

A coisa começou com Veiga Simão ou, mesmo antes, talvez com Hermano Saraiva. No PREC, os militares chegaram a ministros da educação com o interlúdio Vitorino Magalhães Godinho que, muito sensatamente, quis fechar as escolas para pensar o que fazer com elas. Saiu, evidentemente, e o festim continuou: até Vasco Gonçalves acumulou a pasta interinamente. Com Soares veio Cardia, um modelo de coragem inteligente em tempos ainda quase revolucionários. Entre Cardia e Roberto Carneiro é praticamente tudo esquecível e irrelevante, com a excepção do "barthesiano" José Augusto Seabra. Depois de Carneiro é sensivelmente a mesma coisa. Até Manuela Ferreira Leite aceitou fazer um favor improvável ao amigo primeiro-ministro. Guterres trazia na bagagem a promessa da qualificação e aquele jargão colorido de as pessoas não serem negócios. Deslumbrado com os poderes da internet, Guterres (os ministros da educação dele não relevam, salvo Marçal Grilo) "era" o ministro da educação e só não foi da cultura porque Manuel Maria Carrilho é uma personalidade política pouco afoita ao pensamento débil. O interregno da "direita", com Barroso e Lopes, não pesa nesta história apesar da seriedade simpática de David Justino. Sócrates foi um caso mais sério. Maria de Lurdes Rodrigues começou bem mas as necessidades da propaganda do chefe - com as"oportunidades", os "magalhães" e o ódio cego aos professores, confundidos com os sovietes da "fenprof", como se a educação se fizesse por obra e graça dos meninos e dos paizinhos deles - deram cabo dela. Isabel Alçada não conta. Pelo lado do "superior", Mariano Gago - que tinha sido um relativamente prestigiado ministro da ciência e do dito com Guterres - entrou quase mudo e saiu calado, com as universidades exauridas e a investigação depauperada. Mas era na educação que estava. Acabo de ler que cerca de dois mil e quinhentos alunos que perpetraram exames nacionais de filosofia não passaram dos cinco (5) valores e que a "média nacional" na disciplina foi de 7,9. Isto quer dizer que os alunos não só mal sabem escrever como não sabem pensar, e nem sequer são "treinados" para o efeito. Isto sobretudo quer dizer, ao olhar para o "historial" que descrevi desde a década de 70 do século passado até aos nossos dias, que perdemos a batalha da qualificação. Na filosofia, como na vida, é mais importante perguntar que responder. Toda a sua história, aliás, não é muito mais que isso: colocar problemas. Os resultados dos exames nacionais revelam um problema de outra natureza, porventura oposta ao que absorve a filosofia. E igualmente sem resposta mas pelas piores razões. Um fracasso.

7 comentários:

Atónito disse...

Enquanto professor, não calcula a frustração pela indisciplina dos alunos (que em muitos casos já é Pura delinquência), pela absoluta ausência de estudo e trabalho e pela indiferença pela lecionação. Gastar aulas a explicar e a treinar a escrita de um dado texto, de forma coesa, coerente e estruturada e, depois, quando se passa do treino à execução para avaliação, constatar que as criancinhas ignoraram tudo aquilo que foi ensinado e «ensaiado«... é desesperante.
Dizer algo como «O vosso texto terá obrigatoriamente 4 parágrafos: o 1.º para isto, o 2.º para aquilo, o 3.º--- e o 4.º para extrair uma conclusão.» e, no final, receber trabalhos constituídos por 10, 11, 12, 13 parágrafos. Enfim, é só um exemplo, para não entrar pela ortografia, sintaxe (um conceito que eles desconhecem)... É um DESESPERO e uma FRUSTRAÇÃO.

E as medidas do ministro Crato só vêm agravar o problema. Ainda acabaremos imersos nos processos da filha de um padre do distrito da Guarda.

c. disse...

A ministra Alçada conta e muito: ligada à maçonaria, impôs, contra os pareceres oficiais exigentes no Ministério de Educação, o "acordo ortovráfico" a milhares de crianças, que ficam privadas de parte substancial da sua herança cultural, numa medida digna de Staline.
De todos que referiu foi a única que deixou um dano profundo. Ao pé dela, oa outros não contam.

fado alexandrino disse...

O quê?

A média foi de 7.9.
Acho excelente e aposto que os exames pouco mais eram do que "coloque uma cruzinha em quem disse".
-Só sei que nada sei.

O resto do post, salvo melhor opinião, como aqueles anúncios dos tribunais devia ser publicado nos jornais diários de maior tiragem.

Luis disse...

Caros Senhores,

As vossas lamentações deram-me uma tremenda vontade rir! Então Vossas Excelências pensam que o ensino em Portugal é mau? Devo dizer-vos sem qualquer ponta de exagero ou de malícia que, em comparação com o Canadá, país em que resido, e, pelo que tenho ouvido, com os EUA, o vosso ensino é excelente. Dêem graças a Deus e lavem essa vossa língua suja.

Para não julgarem que falo sem conhecimento de causa, informo-vos (de) que tenho um filho com 14 anos aqui na escola. Quando ele começou o oitavo ano, reparei logo que não havia ponta de um corno de TPC. Admirei-me do facto. Mas qual não foi a minha surpresa quando vi os testes e exames! Coisa para atrasados mentais. Tive de ter uma conversa com o rapaz e explicar-lhe que não se pode iludir com os 90% e 100%, pois eles estão ao nível dos 18 valores do Sr. Dr. Relvas.

Já que estou em maré de generosidade, digo-vos qual é a solução (não vale a pena falar com os professores ou com os responsáveis da escola): quando vou de "vacanças" a Portugal, compro um ou dois livros de matemática e de física do ano escolar seguinte e, todos os dias, obrigo o rapazinho a largar o computador durante algum tempo para resolver o TPC que lhe imponho. Depois fazemos a correcção juntos, usando eu aquelas regras antiquadas que resultam algumas vezes, para usar a linguagem do meu estimado professor Sorna, em sermão e missa cantada.

O sistema de ensino está projectado para a rapaziada passar o tempo na escola sem se chatear muito e chatear ainda menos os profs. Quem quiser melhor, paga as propinas no ensino privado ou priva-se de algum do seu tempo livre para instruir os filhos. A chatice é que nem todos o podem fazer.

Não se queixem.

Costag disse...

O resto do "post" e o certeiro comentário acima, sobre a imposição - para mais ilegal - do aborto ortográfico.

Costa

Manuel disse...

Veiga Simão pode, eventualmente, ser evocado num post desta natureza. Já José Hermano Saraiva, não vejo razão para ser aqui referido. Talvez o João Gonçalves queira explicar melhor a frase "A coisa começou com Veiga Simão ou, mesmo antes, talvez com Hermano Saraiva." Que mudanças facilitistas fez José Hermano Saraiva no sistema de educação?

Isabel de Deus disse...

Não saberia dizer se concordo integralmente com o historial que apresenta. Nós, professores, vamos sendo bombardeados com legislação de tal modo que, às vezes, já esquecemos quem foi responsável pelo quê! Tenho esperança na intenção, manifestada por Nuno Crato, de introduzir o ensino profissional logo no 2º ciclo. Julgo que fará história se o conseguir, uma vez que a extinção da escolas técnicas após o 25 de Abril terá sido, a meu ver, a "origem da tragédia".A doutrinação esquerdista fez o resto.
Quanto à Filosofia, é apenas mais um detalhe trágico da acefalia que se tem tentado construir em Portugal. Os resultados do 12ºano foram em média negativos em todas as disciplinas principais configurando o retrato trágico de um país.