23.7.12

Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 1







Como aqui mencionei, estive uma tarde na Academia de Ciências de Lisboa com o Prof. Hermano Saraiva onde o entrevistei para o Semanário. Não foi em 1985 mas, sim, um ano depois, em Maio/Junho de 1986 como pude verificar nos meus arquivos. O que então me disse permanece actual , razão por que decidi reproduzir o produto desse trabalho com uma ou outra resposta inédita que o espaço não permitiu incluir. Sou do tempo em que o jornal era paginado à mesa, literalmente à unha, antes de ir para a impressora. Recordo ter ido posteriormente à sua casa do Restelo talvez buscar as fotografias e talvez rever aspectos do texto com ele. Ainda bem que fui.


 


Semanário - O Professor José Hermano Saraiva é um homem que, sendo das leis e da história, mais das primeiras se ocupou, numa primeira fase das suas investigações, para depois se entregar - de corpo, tempo e alma - à segunda. Como transitou?


José Hermano Saraiva* - Tem um aspecto quase romanesco a forma como isso me aconteceu. Eu estive sempre estreitamente ligado à história, sou autor de algumas investigações originais sobre temas delicados, mas não era essa a minha carreira. Digamos que isso era um interesse acessório. Quando voltei a Portugal, na altura do 25 de Abril - eu ocupava a embaixada de Portugal em Brasília - entendi que era meu dever colocar o cargo à disposição do governo que deveria querer ter lá uma pessoa da sua confiança. Seguiu-se depois um período turbulento da vida política portuguesa, um período em que havia um certo ambiente de alarme que nunca me assustou (não sou homem de grandes sustos), mas que em todo o caso incomodava pessoas da minha família. Pedi a uma pessoa então muito ligada às esferas mais altas do poder o favor de me mandar pôr o telefone sob escuta para se poder fazer a triagem das informações (para acabar com certas brincadeiras). Essa pessoa disse-me: "V. é um grande optimista, mas devo dizer-lhe que não são tão brincadeiras como V. supõe; infelizmente há um grupo de pessoas insensatas que perderam literalmente a cabeça e não é uma coisa muito simples garantirmos que não possa acontecer algo de desagradável que nenhum de nós desejaria. Sugiro-lhe, pois, que saia de Lisboa por uns tempos."


Fui passar, então, dois meses para uma locaalidade distante de Lisboa onde um amigo meu me proporcionou uma casa. E não tinha literalmente nada que fazer. Peguei num grande bloco de papel, numa caneta e num frasco de tinta e pus-me a escrever um livro, de certo modo um livro que se pudesse escrever de cor, um livro que não obrigasse a uma consulta analítica e persistente das fontes, um livro que fosse uma grande perspectiva da história nacional tal como eu a conhecia. Nasceu assim um livro que estava destinado a um êxito perfeitamente surpreendente - a História Concisa de Portugal - e creio que isso vem exactamente em resultado da forma como foi escrito. Escrito sem o pormenor minucioso do autor que tem à sua disposição grandes ficheiros, uma bibliografia extensa que servisse para enriquecer os seus textos, o livro entrou na linha de preferência do leitor que pretende apenas estabelecer contacto com as coordenadas fundamentais da evolução histórica nacional. A partir desse momento, as solicitações, quer das editoras, quer de entidades privadas para a realização de trabalhos históricos, não cessaram mais.


 


* resposta não editada:


 


José Hermano Saraiva - Eu, a essa questão, daria uma resposta fluvial. Fluvial por isto: se você observar numa carta geográfica o curso descrito por um rio, vê que ele tem inflexões que subitamente mudam. O seu percurso foi obstaculado por acidentes naturais que o obrigam a procurar outras direcções. No caso concreto, o direito e, em particular, a filosofia do direito eram a minha vocação e foram, durante alguns anos, o tema de todas as minhas investigações. Uma parte considerável dos livros que publiquei têm esse objecto e, para ser inteiramente sincero consigo, dir-lhe-ei que se pudesse apenas obedecer aos impulsos das minhas apetências naturais, seria sobre isso que eu hoje estaria ainda a trabalhar. Simplesmente esse tipo de investigação não tem um público e só se pode fazer dentro do quadro natural do ensino superior pelo qual eu passei durante alguns anos - precisamente a esses anos se referem esses livros - mas, depois, essa experiência foi interrompida e, precisamente nessa altura, interrompeu-se a minha obra de teórico do direito.


 


(continua)

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