22.7.12

"Reputações"


 


Durante o dia de ontem, sábado, um canal do cabo anunciou consecutivamente uma entrevista. A entrevista passava à noite e o entrevistado, presumivelmente, está em estágio para passar à categoria epistemológico-política de "senador". O "senador" é uma invenção de alguns meios de comunicação social destinada a produzir um upgrade quer no medium propriamente dito, quer no dito "senador" ou "senadora", normalmente seu ou sua avençados. O órgão de comunicação social decreta que a, b ou c são "senadores", eles adquirem essa"reputação" e não se fala mais nisso. Por exemplo, o hoje ominoso Dias Loureiro já foi reputado "senador" pátrio à conta desta subtileza antes de cair em desgraça justamente às mãos daqueles que o tinham nomeado "senador". Mas mais do que a entrevista que referi e que não vi, interessou-me particularmente a publicitação dela. Por diversas vezes o entrevistado surgia a falar em "reputação". Percebi que a "reputação", na boca do candidato a "senador", tinha um subtexto que se prendia com o grau académico de um membro do governo. E que, consequentemente, era esse, e praticamente só esse bocado-isco, que interessava passar interminavelmente. É claro que o candidato a "senador" e entrevistado, por ser reputado empresário e, embora em menor escala, reputado político, tinha opinião fiscal que certamente veiculou. Todavia, o que ficou foi a ideia da "reputação", ou seja, aquele candidato a "senador" tem uma opinião acerca da "reputação" alheia que a pátria, manifestamente, não pode desconhecer. Ora à dele (e à de mais cem como ele), prefiro a de Jorge de Sena. Quando juntou as suas "andanças do demónio", as "antigas" e as "novas", Sena escreveu-lhes uma "nota introdutória a uma dupla reedição", de Março de 1977, já andávamos nós há três anos a preparar estes "senadores" sem o saber. Aí conta as vicissitudes de publicar livros em Portugal (os dele, o universitário, o poeta, o contista, o romancista e o ensaísta exilado na altura nos EUA e, antes, no Brasil), porque tudo «convém lembrar à tradicional leviandade portuguesa, e àquele gosto de sempre nos roubar alguma coisa (ou de nos acusar de alguma falta), a que nem os melhores amigos e os mais dedicados admiradores sempre escapam (tão português também, enquanto persistir a pressão social para as pessoas serem inferiores a si mesmas).» Sena usava estas "notas introdutórias" e os seus famosos "prefácios" como «uma das formas de o autor afirmar aquela presença que os outros mostram ao apresentar os seus cumprimentos ou assinar o respeitoso ponto, nas mesas de café [hoje em dia a net e as televisões], e outros lugares de reunião pública e privada aonde as reputações se fazem ou desfazem (cuidado com a segunda e a terceira sílabas daquela palavra tão honrada como as outras, nestes tempos em que tais luxos de honra se vão perdendo no universo).» E, assim, Sena soltava "o diabo às canelas dos bem-pensantes de todas as cores e feitios", categoria onde se incluem os "senadores" e candidatos a "senadores" criados, muito adequadamente, para fazer e desfazer "reputações" nos novos cafés da cidade instalados em vulgares salinhas de estar.

2 comentários:

a disse...

João Gonçalves você enlouqueceu este post não se percebe nada

V. disse...

O próprio JdS me parece alguém demasiado amargurado para fazer sentido e com muitas leituras erradas da realidade, das quais aliás faz parte, "tipicamente": Os fenómenos que ele aponta nessa introdução como tipicamente portugueses, ocorrem em quase todo o lado - suponho que tipicamente também. Será que JdS tinha a percepção de que não era assim tão grande? Às vezes estamos fora do tempo porque não sabemos lê-lo, porque temos os filtros avariados.