O suplemento de domingo do jornal Público dá capa - mais uma extraordinária capa - a Beatriz da Conceição. Lá dentro vem a entrevista conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Beatriz é uma iconoclasta do fado. Sempre recusou iimitações, sobretudo a mais trivial de todas, a de Amália. Conhecia-a nos anos 90 quando me deu para andar por algumas casas de fado. Era amiga de um grande amigo meu, já desaparecido, e com ele íamos de vez quando "atrás" da Bia que cantava intermitentemente num ou noutro estabelecimento do Bairro Alto. Nunca teve, graças a Deus, tento na língua. Sobre um problemazeco qualquer, conversado à mesa, Beatriz, com as unhas impecavelmente pintadas e a segurar um cigarro, sugeria: «caga nisso e põe ao peito.» Beatriz - Dona Beatriz para as catraias na moda: «A Mariza é das que dizem que a Beatriz é uma referência. - Espera aí que já me pisaste um calo.; Diz ela, diz a Ana Moura, diz a Carminho, diz a Cristina Branco. Dizem todas. - A Ana Moura e a Carminho dizem de coração. Essa Cristina Branco nem a conheço.; Cantou com ela no outro dia, no Casino Estoril. - Ou ela cantou comigo. Foi aí que ela disse: "Boa noite, Beatriz." "Boa noite, dona Cristina." Fodi-a logo, não é? E não lhe disse: "Ouça lá, minha senhora: conhece-me de algum lado?"» - representa uma "noite" irrepetível e que desapareceu às mãos da noite andrógina, bêbeda por bêbeda, infantil e indiferente em que praticamente toda a chamada noite se tornou. «O que é que hoje em dia lhe dá prazer? - Nada. Nada me dá prazer, já nem suporto ir aos fados. A não ser que me digam: "Vamos ouvir o Camané." Isso vou logo. Até vou descalça. Ouvir a Ana Moura? Descalça, vou para a fonte, Leonor pela verdura.; Cantar, dá-lhe prazer? - Agora não. Agora é por obrigação, para ganhar dinheiro.; Acabamos a entrevista? - Está feito?; Quer dizer mais alguma coisa? - Não.»
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