23.7.12

Uma entrevista com José Hermano Saraiva - 4


 


Semanário - Ressalta da sua exposição uma grande preocupação em se fazer entender bem e depressa, sem artifícios. A sua mensagem chega com facilidade. Lembramos uns programas remotos, O Tempo e a Alma, justamente o título da última obra.


José Hermano Saraiva - Talvez que o que houvesse de específico nesses programas de que fala, fosse a preocupação do concreto. Recorda-se que eu, em regra, levava uma peça, levava algo que servia de símbolo. Sabe que o próprio Cristo falava por parábolas. A parábola é um exemplo que conta muito mais do que parece contar. Tem um conteúdo e uma significação que extravasa para fora do seu perímetro e que faz compreender. Este livro que agora saiu tem realmente esse objectivo. Sob a aparência de um passeio, é uma meditação que eu gostava que tivesse sido mais optimista. Eu procurei dar-lhe um tom optimista e reconheço que, por vezes, o optimismo degenerou em elegia.


Semanário - Como assim?


José Hermano Saraiva - Disse elegia, não disse elogio. Vamos encontrar, particularmente na zona sul e na zona interior - os montes raianos como eu digo no 2º volume -, um sentido desanimado. E não é só nas zonas dos sentimentos e do estado de espírito. Vamos encontrar estruturas profundamente arcaicas, de vida económica e social. E não vamos encontrar a mesma disposição das elites locais para, ombro com ombro, arrancar desse estado doentio em que estão caídas as nossas instituições.


Semanário - Haverá algum pormenor que desejasse destacar nesta abulia?


José Hermano Saraiva - Num dos últimos capítulos do livro, eu relato o que se passou comigo no norte do País. Eu ia justamente no alto de um monte, numa estrada de gelo e neve em que havia uma grande beleza. Ia a pensar num livro onde eu tinha lido o elogio dos montes, uma coisa em que se começa por dizer que "nenhum autor nem nenhuma mitologia fez nascer os deuses nos montes, os vales são para os infernos porque os Olimpos e os Parnasos são sempre nos altos das montanhas". Isto vem da Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão. Mas estava a pensar nisto qaundo uma pardalada de garotos se me atravessa à frente do carro. Eu travei, era uma escola primária que funcionava ali e os miúdos, em vez de estarem lá dentro, estavam cá fora. Parei o carro, falei com os miúdos a pretexto de lhes perguntar onde era isto ou aquilo, e depois disse-lhes: "então, com um frio destes por que é que vocês não estão lá dentro?"; e um miúdo deu-me esta resposta: "cá fora está frio, mas lá dentro está gelo". Bem, a escola primária gelada! Eu pergunto: como é que aqueles garotos vão amanhã ler a Descrição do Reyno de Portugal de Duarte Nunes de Leão? Não a lerão com certeza e não vão perder muito com isso. Mas não lerão outros livros, talvez não leiam mesmo livro nenhum.


Semanário - A questão endémica e incurável, a educação.


José Hermano Saraiva - Sabe que noventa por cento dos portugueses não leram livro nenhum? Mas como é que nós podemos esperar de quem associa a experiência dos anos juvenis a uma imobilidade de salas que lá dentro são gelo, o gosto e o culto da leitura? Só que não encontrei em parte nenhuma a consciência da urgência e da gravidade destes problemas. Continuamos a ouvir falar nas coisas escolares como problemas mais ou menos platónicos. Ninguém percebe que tem de haver uma reconversão profunda da formação do homem português visto que as condições históricas mudaram totalmente neste País. Nós éramos uma Nação exportadora de quadros para as colónias, quadros encarregados de tarefas e de missões que fomos cumprindo ao longo da história.Mas agora todo esse capítulo está definitivamente encerrado. A nossa missão é outra. Só que o esquema de estudos continua basicamente a ser o mesmo do tempo do Marquês de Pombal.


Semanário - À vista uma conclusão devastadora.


José Hermano Saraiva - Não vejo que por este caminho se chegue a algum resultado. A mensagem com que o livro termina não é, por isso, optimista. Em todo o caso, assisti também a espectáculos encorajantes. Depois de tudo percorrer, posso chegar a esta conclusão: o verdadeiro ouro, aqui, é o povo. O que coloca imediatamente um outro problema: na ordem das prioridades da política global portuguesa, a mais urgente de todas é a maximização dos nossos recursos humanos. Há que preparar esta Nação para sobreviver, para viver do suor do seu rosto. Por isso este livro vem contra, por exemplo, a historicite, vem contra a museologite, vem contra o passadismo, vem contra certa calculite, vem contra este culto ingénuo e primário de pretensas artes artesanais que já não existem senão na imaginação e nas fotografias de 1900, vem contra este tentar fazer renascer o que já lá vai irremediavelmente. E ninguém tem nada a ganhar com o regresso.


 


(continua)

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