11.7.13

A deliberada indiferença


 


Acabei de ler o derradeiro Le Carré, com uma tradução competente apesar do "acordês". David Cornwell aka John Le Carré é um verdadeiro escritor que é o melhor e mais singelo elogio que lhe posso fazer. Socialista (ou social-democrata conforme as preferências), Carré criticou severamente o "new labour" de Blair, uma mistura de chico-espertice com negociatas e populismo barato. Este livro tem isso como fundo e as personagens são eloquentes a esse propósito. Blair está hoje perfeitamente identificado como um dos maiores farsantes da política mundial ao lado de mais meia dúzia de palhaços-ricos, sem princípios, para quem a ideologia sempre foi um pretexto e não uma causa. Na realidade, a política serviu-lhes de trampolim para a rapacidade mais primitiva e evidente como este texto ficciona na perfeição. «Toby chegou a perguntar a si mesmo se, no fundo, o homem não seria pura e simplesmente estúpido. A não ser assim, como explicar a asneirada que a Operação Vida Selvagem tinha sido? E, a partir disso, vagueou para uma discussão sobre a pretensiosa afirmação de Friedrich Schiller segundo a qual contra a estupidez humana os próprios deuses lutavam em vão. Não era assim, na opinião de Toby, e tal não era desculpa para ninguém, fosse deus ou homem. Aquilo contra o que todos os seres humanos razoáveis lutavam em vão não era de modo nenhum a estupidez. Era a simples, deliberada e maldita indiferença pelos interesses de quem quer que fosse, a não ser os seus.»

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