17.7.13

Caminhar na floresta






Globalmente não apreciei a entrevista de Ramalho Eanes a Fátima Campos Ferreira (era para ser com Vitor Gonçalves mas deve ter havido uma qualquer intersecção do "espírito santo") o que não muda um átomo na minha absoluta convicção de mais de trinta anos de estarmos perante um dos homens mais decentes que apareceram na vida pública portuguesa. E não apreciei porque pareceu-me ver Eanes a parafrasear "conjunturalmente" o actual Presidente na sua comunicação a qual ainda não nos conseguiu tornar menos "selvagens" do que éramos há uma semana atrás. De nada servirá a "ousadia" presidencial, como a classificou Eanes, se o "arco da governação" - essa rídicula invenção filológica de um regime timorato em matéria de conflito e, por consequência, de democracia  - não "acordar". É evidente que alguma coisa "acordará" estilo rendimento mínimo de compromisso: no défice, numa ou outra rubrica orçamental, na sucessão dos dias e das estações, etc., etc. No resto - que implica ou o mais longo governo de gestão da história recente "disto", ou a maior e mais absurda abdicação política também desta história recente - as respectivas moedas de troca são demasiado exigentes para se revelarem verosímeis. Todavia, encontro um momento em Eanes que deve ser reflectido. «Esperançado em que a reforma do Estado possa ser negociada, o ex-presidente considerou-a "indispensável", porque, justificou, "não é possível, com a economia como está e vai estar nos próximos tempos, ter um Estado social, pagar juros altíssimos, ter ainda empresas público-privadas e o Estado paralelo que foi agora denunciado". Mas também avisou que a reforma tem de ser feita a um ritmo que a sociedade portuguesa permita: "Temos de fazer a reforma segundo o nosso ritmo, que a nossa sociedade permite".» O analfabetismo funcional das nossas elites, bem como o seu irreprimível oportunismo, não as deixa ver a famosa floresta atrás das árvores (em geral eucaliptos) que elas próprias plantaram. Eanes fez bem em trazê-las, pelo menos nesta parte, ao redil. Não que sirva para alguma coisa. Quem não sabe manifestamente caminhar na floresta não chega lá.

2 comentários:

monge silésio disse...

Pura e simplesmente certeiro.
Um homem decente, como poucos na nossa história última.
Uma entrevista medíocre.
E assinalei o que sublinha.

Carlos Vargas disse...

SUPER-HOMENZINHOS - Foi bastante penoso ver Ramalho Eanes a tentar defender uma solução que não tem manifestamente cabimento. Cavaco Silva assumiu responsabilidades para as quais não possui cobertura constitucional ou político-partidária. Num processo opaco, o presidente irá ficar a meio caminho da meta e, inevitavelmente, a fotografia não será bonita. Quem conhece bem Ramalho Eanes sabe como o antigo presidente tem da solidariedade institucional um entendimento muito peculiar. Que apesar de tudo, creio, tem de ser respeitado. Embora seja muito difícil dele não discordar frontalmente. Cavaco Silva, e com ele, Ramalho Eanes, deixaram-se enredar num complexo esquema de táctica sem estratégia, que necessariamente irá desaguar em eleições antecipadas. A natureza dos super-homenzinhos que nos governam não permite, aliás, outra coisa.