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10.7.13

Incapazes






«Como os Alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade — acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os Alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou. Diferimos dos Alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência! Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem?»


 


Fernando Pessoa

17.6.13

Cadáveres adiados que procriam


Nada fica de nada. Nada somos.


Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos


Da irrespirável treva que nos pesa


        Da húmida terra imposta.


Leis feitas, estátuas altas, odes findas -


Tudo tem cova sua. Se nós, carnes


A que um íntimo sol dá sangue, temos


        Poente, porque não elas?


O que fazemos é o que somos. Nada


Nos cria, nos governa e nos acaba.


Somos contos contando contos, cadáveres


        Adiados que procriam.


 


Ricardo Reis


13.6.13

"O sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis"


 


Com alguns anos de diferença, nasceram no dia 13 de Junho os poetas Fernando Pessoa e Joaquim Manuel Magalhães. Deste posso dizer que sou amigo e do outro também, de outra maneira. Termos como "moderno" e "contemporâneo" - talvez seja útil ler o que Eliot escreveu sobre estas coisas - podem porventura ligar-se aqui e, com eles, os termos, andar para trás e para diante a "explicar" poesia que, até hoje, ninguém tem qualquer certeza que possa explicar-se (pode ler-se Austin, Bloom ou Sena). Deixo o Joaquim para a ocasião de um novo livro de versos, se o houver. A arca do outro continua a ser amplamente explorada. Em vida, curta, fora a colaboração dispersa por revistas, versos e prosas, só Mensagem conheceu a forma em livro e um segundo prémio literário a seguir a uma chachada, de nome Romaria, escrita por um padre. Honra a Gaspar Simões que "chamou" logo a "atenção", não para Mensagem, mas para o que aí vinha. Régio falou de Pessoa como podendo ser uma espécie de "índice dos nossos tempos" quando ainda estavam a experimentar as chaves na arca. Jacinto do Prado Coelho, Casais Monteiro, o dito G. Simões, Sena, Mário Sacramento, não necessariamente por esta ordem, leram muito cedo um Pessoa "deles". Lourenço veio depois catar naquilo que chamou de "revisitação" e que é do melhor que a sua incandescente prolixidade produziu. Todas as "explicações" do mundo famosamente não chegam porque, como referiu um dos membros da "equipa Jerónimo Pizarro" - a que actualmente toma conta do establishment Pessoa -, a coisa não tem propriamente pontos de chegada e ou de partida e vice-versa. Pizarro assevera, aliás, que apenas conhecemos cerca de 20% - vinte por cento - da obra do dito cujo, e que outras gerações e novas "equipas" se sucederão à sua na gerência intelectual e física do espólio do mais famoso cliente do Martinho. Na realidade, nas belíssimas Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, Pessoa/Campos antecipa esta perplexidade, a característica maior do acervo édito e, pelos vistos, inédito.E nossa. «Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida — das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias — que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim. Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse. O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro. Nada me consola de não ter estado em Lisboa nesse dia, a não ser aquela consolação que pensar no meu mestre Caeiro espontaneamente me dá. Ninguém é inconsolável ao pé da memória de Caeiro, ou dos seus versos; e a própria ideia do nada — a mais pavorosa de todas se se pensa com a sensibilidade — tem, na obra e na recordação do meu mestre querido, qualquer coisa de luminoso e de alto, como o sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis

27.5.13

"Uma subordinação inconsciente e feliz"






«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz (...). Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro.»


 


Fernando Pessoa

21.2.13

"Gosto de palavrear"


 


A propósito do "dia internacional da língua materna" - que gloriosa parvoíce -, convém citar na íntegra aquele pedaço de Pessoa/Bernardo Soares que tanta gente derrama, sem perceber o contexto, a título de exaltação patrioteira sem nexo, sobretudo em perorações políticas.


 


«Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso. Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica. Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»




Fonte: Arquivo Pessoa

30.11.11

PESSOA APEDROSADO


Inês Pedrosa não pára de nos surpreender com a sua inconfundível propensão para a mediocridade inteligente. Pobre Fernandinho, o que fizeram de ti!....

PESSOA APEDROSADO


Inês Pedrosa não pára de nos surpreender com a sua inconfundível propensão para a mediocridade inteligente. Pobre Fernandinho, o que fizeram de ti!....

14.7.11

CARTA A PESSOA


«V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades - a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui. (...) Não creio, portanto, que a morte o tenha prejudicado, meu Amigo: V. não diria mais do que disse; V. tinha dito sempre a mesma coisa - maravilhosamente, de quantas maneiras possíveis. Veja, no entanto, as «Malhas que o Império tece». Porque V., à parte o seu caso único na história das literaturas, para ser algo do Super-Camões que anunciara, não precisava de ter publicado uma espécie de Lusíadas, e de deixar as Líricas dispersas por revistas, ou amontoadas num baú, entregues às mãos do acaso e da amizade... As suas obras estão sendo publicadas. O grande público decorará o seu nome; muitas pessoas o lerão; algumas o hão-de entender e amar. Outras desconfiarão de V. Outras, ainda, lamentarão secretamente aquela complexidade, de que já falamos, e que não pode servir de garantia a profecias ou realidades, para uso do «gado vestido dos currais dos Deuses». Será tido como mistificador. Será tido como contraditório. Mas V., meu Amigo, já o sabia... E aquele sorriso vago, que flutua aquém dos seus retratos, para quem será, não é verdade?
Creia na imensa admiração e no imenso respeito do
Jorge de Sena (1944)»

CARTA A PESSOA


«V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades - a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui. (...) Não creio, portanto, que a morte o tenha prejudicado, meu Amigo: V. não diria mais do que disse; V. tinha dito sempre a mesma coisa - maravilhosamente, de quantas maneiras possíveis. Veja, no entanto, as «Malhas que o Império tece». Porque V., à parte o seu caso único na história das literaturas, para ser algo do Super-Camões que anunciara, não precisava de ter publicado uma espécie de Lusíadas, e de deixar as Líricas dispersas por revistas, ou amontoadas num baú, entregues às mãos do acaso e da amizade... As suas obras estão sendo publicadas. O grande público decorará o seu nome; muitas pessoas o lerão; algumas o hão-de entender e amar. Outras desconfiarão de V. Outras, ainda, lamentarão secretamente aquela complexidade, de que já falamos, e que não pode servir de garantia a profecias ou realidades, para uso do «gado vestido dos currais dos Deuses». Será tido como mistificador. Será tido como contraditório. Mas V., meu Amigo, já o sabia... E aquele sorriso vago, que flutua aquém dos seus retratos, para quem será, não é verdade?
Creia na imensa admiração e no imenso respeito do
Jorge de Sena (1944)»

28.11.10

LOUCO?


É mesmo não entender nada de nada acerca de Pessoa chamar-lhe louco. Génio, sem dúvida, porque há deliberação. O resto aprende-se lendo. Não é citando. E o livro que Adolfo Casais Monteiro lhe dedicou ainda hoje é um grande livro sobre o dito cujo porque ambos - Pessoa e Casais - tinham essa rara intuição, cúmplice, que ferrava marteladas oportunas na douta ignorância. Não é que o autor do post seja pouco inteligente. Está é convencido que é muito.

LOUCO?


É mesmo não entender nada de nada acerca de Pessoa chamar-lhe louco. Génio, sem dúvida, porque há deliberação. O resto aprende-se lendo. Não é citando. E o livro que Adolfo Casais Monteiro lhe dedicou ainda hoje é um grande livro sobre o dito cujo porque ambos - Pessoa e Casais - tinham essa rara intuição, cúmplice, que ferrava marteladas oportunas na douta ignorância. Não é que o autor do post seja pouco inteligente. Está é convencido que é muito.

3.10.10

O LIVRO E O FILME


Fui ver o filme de João Botelho que tem uma fotografia soberba. Todavia, a conclusão é que não há "filmes do desassossego" porque aquilo pura e simplesmente não é filmável. Só há o "livro do desassossego".

O LIVRO E O FILME


Fui ver o filme de João Botelho que tem uma fotografia soberba. Todavia, a conclusão é que não há "filmes do desassossego" porque aquilo pura e simplesmente não é filmável. Só há o "livro do desassossego".

21.8.10

UMA ODE

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.


Ricardo Reis

UMA ODE

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.


Ricardo Reis

13.7.10

IDIOTISMO ARREMELGADO


Almoçar na arcada do Martinho do mesmo nome é uma experiência quase mística. Não por causa do seu mais célebre frequentador, mas por poder ver passar aquele «arremelgado idiotismo» que Botto imortalizou em versos tão duros quanto certeiros ao contemplar o féretro de Pessoa. Assessores governamentais, solenes bestas, novas e velhas, pessoal político de circunstância, avestruzes reluzentes nos seus fatos catitas ou em cima de saltos altos não menos reluzentes e não menos catitas comprados nas caves do metro, eis a fauna, por entre turistas, que cruza o lugar do qual o nosso maior ironista do século XX avistou todos os cais do mundo como «uma saudade de pedra». Só mudaram os idiotas arremelgados.

IDIOTISMO ARREMELGADO


Almoçar na arcada do Martinho do mesmo nome é uma experiência quase mística. Não por causa do seu mais célebre frequentador, mas por poder ver passar aquele «arremelgado idiotismo» que Botto imortalizou em versos tão duros quanto certeiros ao contemplar o féretro de Pessoa. Assessores governamentais, solenes bestas, novas e velhas, pessoal político de circunstância, avestruzes reluzentes nos seus fatos catitas ou em cima de saltos altos não menos reluzentes e não menos catitas comprados nas caves do metro, eis a fauna, por entre turistas, que cruza o lugar do qual o nosso maior ironista do século XX avistou todos os cais do mundo como «uma saudade de pedra». Só mudaram os idiotas arremelgados.

13.6.10

WOTAN/PESSOA


"Viveu" sempre e só nesse abismo que era a prosa dos seus versos e os versos da sua prosa. Como um Wotan privado de amor (porque a ele renuncia) e da capacidade de amar até ao fim, simultaneamente o mais humano dos deuses e o mais cruel dos homens. De uma carta sua a Francisco Cabral Metello, datada de 31 de Agosto de 1923. «Espero que a paisagem com que v. presentemente conversa lhe arranje um diálogo que o entretenha. Nem sempre acontece, não é verdade? Há árvores, pedras, flores, rios que são tão estúpidos que parecem gente.»

WOTAN/PESSOA


"Viveu" sempre e só nesse abismo que era a prosa dos seus versos e os versos da sua prosa. Como um Wotan privado de amor (porque a ele renuncia) e da capacidade de amar até ao fim, simultaneamente o mais humano dos deuses e o mais cruel dos homens. De uma carta sua a Francisco Cabral Metello, datada de 31 de Agosto de 1923. «Espero que a paisagem com que v. presentemente conversa lhe arranje um diálogo que o entretenha. Nem sempre acontece, não é verdade? Há árvores, pedras, flores, rios que são tão estúpidos que parecem gente.»

11.6.10

«REQUEIMAR QUEM PENSA»


Tinha, há mais de vinte anos, enfiado no meio de outros livros o livro A Poesia de Fernando Pessoa, de Adolfo Casais Monteiro. Há muito tempo que não lia uma coisa tão fulgurante, tão bem escrita, tão melhor pensada, tão cheia daquele amor silencioso, solitário, irónico e polémico que é aquele que Casais devotou a uma grandeza (Pessoa) devidamente anunciada. Foi ele quem, escassos meses antes da morte do autor de Mensagem, recebeu de Pessoa a afamada carta, entre outras coisas, acerca da "génese" dos heterónimos. Dele, Pessoa, afinal. Graças ao sr. André, obtive mais livros de Casais Monteiro. À semelhança de Sena, exilou-se e ensinou no Brasil. E lá encontrou a morte. Como Sena, nos Estados Unidos, seis anos depois. Esse desaparecimento - se aqui trago Casais Monteiro é porque o considero um compatriota maior e nosso muito mais contemporâneo do que tantos "eternos" contemporâneos que se passeiam por aí na academia, nos jornais, nas revistas, nas conferências e em livros aos molhos - suscitou um belíssimo poema de Sena, publicado em Poesia III (Conheço o sal... e outros poemas, de 1974), que reproduzo. Porque brilha em Casais, "estrangeiro definitivo" até na morte, (e em Sena) um «fogo ardente a requeimar quem pensa/que em Portugal de Portugal se é.»

À memória de Adolfo Casais Monteiro

Como se morre, Adolfo? Tu morreste
(toca o telefone às duas da manhã em Lourenço Marques
era a Joaninha em lágrimas a dizer que o padrinho tinha
morrido eu não queria crer e mesmo perguntei – tendo
tantos compadres – quem era o padrinho dela cuja
morte chegava em notícia de Lisboa a Mécia e eu ficámos
silenciosos com os olhos marejados das lágrimas que só
vieram no dia seguinte esperávamos mais dia menos dia
tão doente estavas aquela notícia agora mais incrível por
chegada inopinadamente do outro lado do mundo que
não era sequer aquele em que morrias)
- e diz-me o Pimentel numa carta tão triste:
enquanto dormias a tua solidão
e estavas morto e sereno pela manhã alta.

Morreste na mesma solidão altiva e tímida
com que foras discreção e delicado ser
escondido em máscaras de sorriso amargo
e de palavras ásperas e rudes. Igual aos versos
que escreveste como raros no molhar da alma
em sangue e sentimento já essência
e só profunda vida oculta em música
puríssima de câmara em cordas tensas
a que o ranger dos arcos se somava ambíguo.

Ninguém mais nobremente ergueu em si
o monumento da morte esse viver contínuo
num só de se indicarem por oblíquos
sinais os gestos limpos da amizade
e os limpos mais ainda de um amor constante
que o teu corpo buscou em tantas mulheres
amando só algumas fielmente na tortura
de não se amar tão bem quando o desejo.

Adolescente, amadureceste para uma velhice
a que te deste como monge laico
incréu de tudo menos desse amor perdido
que à tua volta, em livros como em música,
era um sussurro de memórias silentes
a rodear-te de vácuo a tua sala vazia.

Como se morre, Adolfo? Trinta e três
anos –uma idade perfeita – conheci-te,
soube de ti o dito e o não dito, o que escreveste
e o que não escreveste. Por instantes,
os teus olhos cruzavam-se num viés de vesgo
que era um saber terrível de estar só no mundo
e não haver que valha a pena que se diga
sem destruir-se quanto em nossa via é o pouco
indestrutível se guardado à força
num silêncio de exílio e de distância.

E todavia como estiveste no mundo, como
duramente bebeste toda a dor do mundo,
ou a fumaste em nuvens de cigarros que matavam
os teus pulmões possessos de asfixia.

Foste o estrangeiro e o exilado perfeito
e por todos nós que recusámos de um salto
por outras terras esta terra há séculos de outrem,
morreste em dignidade, sem queixas nem saudades
a queixa e a saudade mais pesadas
pesadas para o fundo, sem palavras
que as não há entendívéis aonde não se entende
a perfeição tranquila em desespero agudo
a que te deste num morrer sem voz.

Morreste só, como viveste. Sem conversa,
como escolheste viver. Longe de tudo,
como a vida te deu que tu viveras.

E tão presente, mesmo se esquecido,
és como o fogo ardente a requeimar quem pensa
que em Portugal de Portugal se é.

Como se morre? Neste instante extremo,
sentiste um respirar que te alargava
e te expandia o peito mais os olhos
até os confins deste universo inteiro?

Abriste os olhos? Só em sonhos viste?
Morreste – como se morre? – E no teu rosto
qual nos teus versos poderá ser lido
até que nem pensaste nem disseste.

Mas isso tu sabias, e creio que foi pouco
oh muito pouco o que a morte foi capaz de te ensinar.

Jorge de Sena