
Por volta das cinco da tarde fui até à praia do Guincho. Esta costuma ser a melhor altura para lá ir, entre o fim do que era dantes o verão e o princípio do que era dantes o outono. Sem vento, com temperaturas de ar e de mar agradáveis, a coisa sempre prometia. Hoje também não havia vento, o mar estava agitado mas adequado a quem o conhece. O calor destoava da época e a época destoa de tudo. As pessoas também, sobretudo porque eram muitas. O que implica, por exemplo, que nas estradas contíguas fique quase só disponível uma faixa para circular. As ditas pessoas apreciam "largar" os carros em vez de os estacionar. Algumas apenas não os levam para a praia propriamente dita porque não podem. Na areia, as amenidades passam pelas inevitáveis bolas, grandes e pequenas com raquetes irritantes, e por famílias numerosas que se tratam por "você". As meninas salpicam-se à beira-mar em fatinhos de banho dos anos 20 do século XX e as mãezinhas falam entre si até que uma das meninas é ameaçada por uma onda mais alvoraçada que vem morrer aos pés da criancinha. Passados uns segundos, já as meninas correm atrás uma da outra e as mães retomam a prosa vaga. A rapaziada do surf e do bodyboard troca impressões sobre o estado do mar e cumprimenta as meninas mais velhas com um solitário beijo. Elas passeiam-se com os telemóveis, melancólicas e conspirativas, sendo salpicadas intermitentemente pelos rapazes que entram e saem da água consoante os intervalos da bola. São todas e todos iguais. Havia ainda um "estrangeiro" que ressumava a uma lula e que se enrolava na ondulação despreocupadamente. Em suma, reinava a tranquilidade, a mansidão e a indiferença. Parecia uma ilha grega.
4 comentários:
Já não há "Morte em Veneza"!
Ainda que de alguma forma relaxante - triste, deprimente, mas relaxante - a passagem pelo areal não faz desaparecer uma tese de mestrado do Sócrates (coitado, o homem é um licenciado da treta, vai passar a um mestre da corda...) um Crato feito marido enganado por uma excelsa esposa que se deixa nomear sem o triste (...) saber, um Mexia que debita ameaçador contra o defunto Estado de Direito (melhor fora o homem ter calma e não se exceder no champanhe, que diabo, a gamela é funda) a tentar amedrontar os juízes do Tribunal Constitucional (será que eu próprio teria coragem de ser réu perante tamanhos algozes???).
Não desaparece nada, infelizmente. O futuro morto permanece vivo e vai sendo cada vez mais difícil justificar e aceitar o oxigénio que uns tiram a outros.
já sem pensar no orçamento, claro.
Que belo retrato.
Konstantine Cavafy , de quem tive um livro infelizmente emprestado, gostaria de ter lido isto.
Como o mundo mudou.
Todos esse "jovens" estão-se borrifando para o futuro e mesmo para o presente.
As mãezinhas olham para trás e tentam descobrir algo que já passou e que aspiram que volte.
Não levou o cão?
É o único que aprecia o momento presente e que não se preocupa com o futuro.
Neste momento ouço grande gritaria aqui na rua.
Fui ver.
O Rio Ave empatou (é sobre futebol).
Assim vamos, cantando rindo e apitando.
Comp dizia o outro
"Boa noite e boa sorte"
Irresistível adenda: é que assim como quem atira o lixo para o caixote, esqueci-me de citar o senhor professor doutor (isto parece ridículo, mas é devido pelo direito que ignora os esquemas...) Rui Machete que se esqueceu de ser accionista do BPN.
Senhor professor, está justificado, afinal de contas, eram decerto meia dúzia de acções afectivas que até deram prejuízo.
Como as que eu detenho do Sport Lisboa e Benfica, que valem uma dezena de cêntimos por junto e me custam 20 euros anuais de custódia cobrados para sustentar o Dr. Ulrich.
Mas que diabo, são afectos: há quem goste de dinheiro, eu também gosto do Benfica, Enquanto for possivel, claro.
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