19.9.13

O prof. Crato


 


Quando o prof. Crato ruminava pelas televisões e calhava ouvi-lo, nunca encontrei motivos particulares para discordar. O homem era cordato, argumentava com um módico de concordância formal e substantiva e, apesar de ser economista, tinha um particular desvelo intelectual pela matemática o que, num país em que essa literacia não é famosa, o tornava interessante. Para além disso, condenava o "eduquês", uma coisa em que a educação, do básico ao secundário, se foi transformando obsessivamente durante o regime. Talvez por causa disto, alguém o recomendou ao dr. Passos, famoso pelo seu deslumbramento kitsch pela academia. O prof. Crato começou aparentemente bem como uma espécie de supra-Isabel Alçada, a sua antecessora. A ecologia do ministério e os sindicatos reagiam sem excessos às reuniões e às propostas, e Crato, como bom maoísta que foi, "diluiu" as latências conflituais no pacote do dr. Gaspar que, por natureza, tinha as costas largas. E até caiu em melhores graças mediáticas quando, de novo na televisão, e louvando-se num relatório do qual nunca mais se ouviu falar, esquartejou, com a impiedade típica de um zeloso velho seguidor do desdentado Mao, um colega seu de governo que acabara de se demitir. Entretanto estes biombos, para não sair do recorte chinês, foram caindo e o prof. Crato acabou exposto recentemente com as "novidades" divulgadas para o novo ano lectivo. Hiper liberal como qualquer ex-maoísta que se preze deve ser, o prof. Crato tem andado para aí a defender a "liberdade de escolha" como se vivessse na Noruega ou na Finlândia. E como se os destinatários da dita "liberdade de escolha" tivessem rendimentos per capita equivalentes aos desses maravilhosos países. O resultado está à vista. Uma trapalhada, quer pelo lado dos professores, quer pelo lado dos alunos, nas sucessivas "aberturas" do ano lectivo, o desvirtuamento ético do papel da escola pública numa democracia liberal, uma mexida deletéria no ensino do inglês que não se compreende, etc., etc. Em resumo, um conjunto de infelicidades que recomendam pelo menos, como Marcelo sugeriu em relação a outros dois membros do governo, que se cale.

7 comentários:

Simon disse...

Excelente texto.

Jorge Diniz disse...

"...como Marcelo sugeriu em relação a outros dois membros do governo, que se cale...". Mas também que ele próprio SE CALE (obviamente falo de Marcelo, que tanto mal tem feito a Portugal).

João Vargas Moniz disse...

O texto é de facto excelente. Tendo privado, ainda que muito pouco, com a preclara figura, esperava outra coisa.
Trata-se de um verdadeiro melão: boa cara, mas depois não presta.
Gostava apenas de recordar que o inefável Prof Marcelo foi mais longe do que se anda a dizer sobre dois ilustres membros do Governo (Ministro Adjunto e Secretário de Estado da Administração Pública). Cito, perante a gravação que estou a ver na TV/MEO:
"(Passos Coelho e Paulo Portas) façam desaparecer Maduro e Rosalino durante duas semanas de campanha que não se perde nada em termos de PSD e CDS e acho que também em termos de país".
A Marcelo o que é de Marcelo!
Está gravado, senhores, gravado!
"

zézinho disse...

Nas tintas pró Marcelo. Mas, ó Diniz, essa do "que tanto mal tem feito a Portugal", é só para rimar, né? No meio de tanto quadrilheiro da pulhítica que para aí anda a roubar aos milhões e a desacreditar o país, escolher o Marcelo, que não consta que se tenha abotoado com o que quer que fosse, nem desgovernado o "rectângulo", porque nunca foi governo, escolher o Marcelo, dizia, como o grande malfeitor da pátria, só por raivinhas malucas ou bexigas doidas. Será que o gajo o chumbou nalguma cadeira?

Pedro Ascensão disse...

a liberdade de escolha não tem a nada a ver com as demais confusões referidas no post. é uma reforma fundamental do ensino em portugal, liberal no melhor sentido do termo, por dar mais liberdade às famílias, melhor resultado no ensino, diminuir a máquina do estado e, no limite, reduzir a despesa pública. o "papel ético da escola pública num democracia liberal" é conversa estafada q tem sido guarda chuva para uma discussão completamente enviesada, q redunda sempre em prejuízo dos alunos e das famílias e em favor dos vários interesses imobilistas q há anos se arrastam pelos corredores das 5 de Outubro e das gigantescas máquinas burocráticas espalhadas pelo país. Portanto, a bem da honestidade intelectual, não vamos confundir o episódio Relvas, as confusões de abertura de ano lectivo, as trocas com o inglês e o passado maoísta do senhor ministro com questões mais fundamentais e de outro fôlego.

Anónimo disse...

E o mais curioso é que, no quadro por trás do estadista, se lê «apperance», quando devia ler-se «appearance». Talvez o inglês (não sendo a «basezinha», como diria o outro do latim) não seja assim tão negligenciável...

Pedro disse...

É o Pior do Crato