
Tinha jurado não voltar a ler um livro de direito na minha vida - a não ser o estritamente necessário para trabalhar - mas o Doutor Cavaco Silva, economista, obriga-me a rever a promessa. Se bem entendi, o economista, não certamente o Presidente da República, vai "avaliar os custos" de um pedido de fiscalização preventiva da constitucionalidade da lei do orçamento de Estado para 2014. Porquê? Porque o economista receia (isto de o PR ter mudado a meio deste mandato para o "modo assustado" não ajuda nada esta porcaria a andar para a frente) que a não entrada em vigor de um orçamento no dia 1 de Janeiro, mesmo com normas inconstitucionais, é preferível a não haver orçamento algum. Isto embora o economista saiba perfeitamente que, nesse caso, o orçamento vigoraria em regime de duodécimos, reportados ao de 2013, como já aconteceu noutras encarnações. Quando muito, suscitará pedidos de fiscalização sucessiva porque aí, disse, os "custos" serão menores. Ou seja, o Presidente da República aceita a supremacia da economia sobre a política, a sujeição do poder político ao poder económico para recorrer, a contrario, à expressão constitucional. Ora, e salvo o devido respeito, o que todos os Presidentes da República juram cumprir e fazer cumprir - era assim da última vez que a li - é a Constituição. Não é orçamentos de Estado. Vou reler o Marcello.
Adenda: Outro Marcelo, só com um "l", achou genial a declaração presidencial feita no Panamá. Segundo este Marcelo, como o défice previsto de 4% é inverosímil e é provável que várias alíneas do orçamento sejam declaradas inconstitucionais "lá para para Fevereiro ou Março", então a troika, nessa altura a realizar a última avaliação e já com pouco dinheirinho em causa, de certeza que "alarga" a margem para o défice e não se fala mais nisso. Marcelo perpetrou uma "interpretação" das palavras presidenciais menos no sentido jurídico-político delas (ou mesmo económico) e mais num contexto de "chico-espertice" nacional que em nenhuma circunstância ficaria bem a um Presidente usar. O direito, de facto, é o que de mais parecido existe com a gelatina. Mas não convém abusar.
6 comentários:
Acabou de expressar de forma superior aquilo que me ocorreu assim que ouvi o comentário de Cavaco Silva.
Precisamos de dinheiro,dinheirinho.A ver se alguém investe.Empresas,salários.Leis que o permitam.Quem?Quais?
1. Não adivinho o que o TC pode vir a decidir, sendo certo que a haver sucessiva a decisão será tomada em Junho/Julho como já aconteceu. Talvez assim o governo ganhe 1/2 do ano, ou o efeito da inconstitucionalidade pode ser ressalvado.
2. Marcelos , Portas , Ferreiras Leites, Seguros , é tudo mais do mesmo; a urdidura nacional a raiar o parolo sob a batuta da chico-espertice. Como a sociedade, tranbiqueira, com gosto pela batota, temos o que merecemos.
Boa noite,
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Atenciosamente,
Catarina Osório
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Excelente comentário.
Acrescento que, viver de duodécimos no ano seguinte até é capaz de não ser mau de todo. Se cada orçamento que aparece é pior que o anterior, replicar em suaves prestações mensais o último, talvez consigamos atingir os miríficos 4%!
É pena que na Constituição não haja nenhum processo automático de demissão do governo baseado no número de normas inconstitucionais, assim nem precisávamos de presidente (além disso, o Cavaco anda empenhado em não respeitar a Constituição e agir como um criminoso, será que o podemos acusar de inconstitucional?).
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