«Mudar, com a política a assumir claramente as suas responsabilidades, mas também a revelar com coragem e sentido pedagógico as dos outros: da indústria financeira, dos lobbies, dos media, das elites deslumbradas etc. Mudar, cortando com a demagogia das promessas e fazendo a pedagogia do mundo, dos seus reais problemas e das suas possibilidades efectivas. Mudar, acabando com as lengalengas da globalização e a competitividade da Europa e da dívida, que já ninguém ouve e apenas dão força a todo o tipo de demagogia que alastra pela União Europeia. Mudar, compreendendo que a raiz dos nossos impasses, aquilo que verdadeiramente nos impede de resolver os nossos problemas, está na verdade numa construção europeia que se apoia cada vez mais em procedimentos oligárquicos, subalternizando cada vez mais a democracia a uma obscura teia de normas económicas e jurídicas. Para se pôr fim ao ilusionismo político, que nos manieta individual e sobretudo colectivamente, temos de deixar de estar reféns da multifacetada impotência fabricada que, identificando o pós-nacional com o pós-político, na verdade esvazia os aparelhos políticos nacionais de toda a potência e de toda a substância. É de resto por isto que a chamada crise da democracia é muito mais grave e aguda na União Europeia do que nos EUA. As instituições europeias - seja o Parlamento Europeu, a Comissão, o Tribunal de Justiça ou o BCE - foram completamente ultrapassadas pelos acontecimentos e pela história. Como Marcel Gauchet afirmou recentemente, a construção europeia, em vez de diminuir, "amplifica os problemas já visíveis no interior das democracias. Ela tira à decisão política o pouco de efectividade que ela ainda podia esperar conservar no interior dos espaços nacionais. Ela é animada por uma vontade pós-política, a de reduzir a democracia ao mais amplo exercício político das liberdades individuais. Claro que estas são sempre um importante componente da democracia, mas esta consiste essencialmente, antes de tudo o mais, na capacidade de fazer escolhas colectivas. Mas para isso é preciso um quadro em que elas possam ser efectuadas por pessoas conscientes do significado dessas escolhas. Ora, a Europa não é, não tem esse quadro." É isto, nem mais, nem menos.»
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