15.10.13

"E quando havia gente era igual à outra"






O homem tem razão. Quem é que pode confiar nesta gente? Se nem "em casa" são confiáveis, como é que podem ser lá fora? Se nada acontecer entretanto, a partir de 1 de Janeiro de 2014 o país, de uma forma geral e salvo os do costume, vai regredir aos níveis de rendimento pessoal auferidos por alturas do final do século passado ou mesmo antes. Não porque toda a sociedade portuguesa trabalhe em funções públicas, mas porque o "exemplo" do Estado costuma ser seguido (sobretudo quando é "para baixo") pelo sector privado. Que, fora meia dúzia de casos notórios, nunca se distinguiu pela subtileza ou pela "autonomia". A proletarização forçada da classe média tocará a todos mesmo aqueles que imaginam que vivem em dois países: um, dos "privilegiados" dos funcionários públicos e outro que, com uma rotina conhecida e pesada, fecha, está para fechar, emprega e desemprega ao preço da uva mijona ou que já está em casa, depois de anos e anos de trabalho, a ver passar as lambretas imaginárias conduzidas pelos "bonzinhos" do dr. Portas e do dr. Mota Soares. Com menos dinheiro em circulação e sem qualquer quebra na tributação em IRS ou na indirecta, a economia só cresce na proporção política dolosa de determinadas cabeças. De que serve às empresas menos dois pontos na taxa do IRC (as pequeninas, as pequenas e as médias, claro, que as do PSI 20 nunca são para aqui chamadas) se não houver quem compre os seus produtos ou serviços? Para mais, o Estado tornar-se-á inevitavelmente menos eficiente e eficaz. Com a ameaça estatutária e salarial a pairar, os trabalhadores investidos em funções públicas tenderão a "formalizar" no pior sentido o seu desempenho com receio de represálias da insolência dos arrivistas que apreciam "mostrar serviço" a lamber botas e perder tempo em inutilidades burocráticas. Qualquer defunto regime sob registo soviético não conseguiria melhor. O dr. Gaspar, aborrecido com o Tribunal Constitucional, anunciou um "brutal aumento de impostos". Sobre este "brutal aumento de impostos", o governo do "novo ciclo" - sem Gaspar e com Portas que afectava, afinal, um nojo dissimulado em relação ao "modo austeritário" de Gaspar - soma-se agora uma redução de vencimentos e pensões numa sociedade que vive sobretudo do sector terciário e que nem o maior génio conseguiria "ajustar" em três anos, quanto mais estes aprendizes de "engenharia social" estalinista retardada (Catroga devia ter vergonha e calar-se de vez). Apesar de sermos uma raça de mansos e de chocas, nem todos seremos absolutamente parvos ou complacentes. Como escreve o Pedro Santos Guerreiro, «o Governo enunciou um novo ciclo e criou a expectativa de menos austeridade. Mas quando abrirem o Orçamento do Estado, os portugueses terão a sensação de Álvaro de Campos na "Tabacaria": "Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra." A austeridade é igual à outra. Ou pior. »

1 comentário:

Carlos Vargas disse...

Brilhante súmula do que realmente conta e está em causa. Os senhores ministros e assessores deviam parar para ler estas observações e de seguida escreverem-nas 20 vezes. Fariam menos asneiras e todos ganharíamos.