30.10.13

Um país "normal"?


 


O primeiro sinal foi dado no canal do Panamá. O Presidente da República se, por exemplo, estiver de visita a uma fábrica de curtumes no distrito de Santarém, é natural que se recuse a falar sobre coisas como o orçamento de Estado ou os seus poderes constitucionais. Porém, desde Julho último, o Doutor Cavaco decidiu "rever" a matéria, sobretudo a última, e praticamente "delegou" esses poderes naquilo que ele costuma designar pelas "forças político-partidárias". Passou a fazer-lhe impressão que, como é normal em regimes parecidos com o nosso (mas em versão adulta), haja poder e haja oposição. E que esta só aceite "compromissos" depois de o "povo" se pronunciar em eleições caso contrário diluiu-se tudo numa sopa turva e indistinta. Mais. Os partidos, pelo menos os de fisiologia governamentalista, até podem "comprometer-se" com meia dúzia de matérias antes de eleições e, no limite, esclarecendo o eleitorado que, haja o que houver, aplicarão sempre esse "compromisso" em conjunto com os restantes promitentes. No Panamá, o Presidente deu a entender que o "compromisso" e o "consenso" passavam nos próximos tempos pelo orçamento para 2014 que, ao que tudo indica, será exclusivamente o resultado de uma lei da maioria após uma uma proposta do governo. E, somando o Panamá com o Arsenal do Alfeite ontem, o Presidente quase exigiu que a representação nacional, e demais instituições do Estado de Direito, se perfilassem perante o dito orçamento sem um murmúrio ou a menor "excitação". Porquê? Para não parecermos "anormais" aos olhos de terceiros, dos "mercados" e dos "credores a quem devemos exibir o aprimorado cumprimento de um programa de ajustamento que nunca quisemos, ou deixámos, que fosse "ajustado" à medida dos resultados produzidos junto das pessoas e da economia. O dr. Gaspar, aliás, explicou perfeitamente o que é que isto quer dizer na sua carta de demissão. Mesmo que em Junho de 2014 estejamos exangues e nulos enquanto identidade social, humana, cultural e económica, somos, pelo menos, "normais". Conheci sete Presidentes da República, quatro dos quais eleitos por sufrágio directo e universal. É todavia a primeira vez que assisto, com mágoa até pessoal, a renúncias políticas presidenciais em pleno exercício do mandato popular. Um Presidente pode legitimamente desejar - e julgo que os que antecederam o actual sempre o fizeram mesmo quando o exerceram - não ter de exercer o único poder discricionário que a Constituição lhe confere. Não pode é "garantir" que não o exercerá em virtude de um inexplicável temor reverencial perante uma lei futura e a sua execução, ou em nome de uma absurda "normalidade" que faz lembrar o "viver habitualmente" do Grande Morto do Vimieiro. Já basta o "pavor" com o eventual pedido de uma fiscalização preventiva da constitucionalidade que acabaria em tempo útil com as "incertezas" e os "riscos" entrevistos pelo senhor primeiro-ministro. E, palavra de honra, nem sequer simpatizo especialmente com a Constituição. Mas, caramba, ela não morde.


 


Foto: Público

4 comentários:

Q disse...

Muito bom.

domedioorienteeafins.blogspot.com disse...

Gosto do "Grande Morto".

João Vargas Moniz disse...

Este presidente tornou.se um problema de regime.
Está em causa mais do que um entendimento constitucional, está em causa saber se o perfil do Prof. se adequa minimamente às exigências de um cargo que carece de atributos que Cavaco manifestamente não possui.
E os atributos que lhe abundam, como o medo político, são queles de que o país menos precisava.
Temos sido, aliás, bem massacrados na magistratura presidencial: sofremos a suprema ignomínia de um Tomás, suportámos a ambiguidade de Jorge Sampaio (ainda assim, um senhor).
Agora, Cavaco na presidência evoca-me sempre um velho mestre de Direito que dizia no exame oral, em comentário a um resposta do examinando "o senhor não adiantou um milímetro ao que se pediu".
Ainda assim, com Cavaco é pior: porque já não basta que não adiante, ainda atrasa.

joshua disse...

O pior é que morde, meu caro João. E muito.