3.10.13

Uma ruptura maioritária

«A nível global, desenham-se alterações de fundo que apontam para o fim, ou para um prolongado eclipse, do processo de globalização em curso nas últimas décadas, e para o declínio da sua principal ideologia, o livre-cambismo. Ao contrário do que muitas vezes se diz (sobretudo quando nada se sabe de história), a globalização é um processo tão antigo como pendular, que tem conhecido avanços e recuos ao longo dos tempos, com períodos exuberantes e paragens bruscas. A fase que temos vivido começou em meados dos anos 80 do século passado, e o livre-cambismo caracterizou-se neste período por dar forma a uma utopia que oferecia ao mundo uma nova combinação - simultaneamente definitiva e virtuosa - do mercado e da democracia. Esta fase conhece hoje o seu crepúsculo, a relocalização intensifica-se e o proteccionismo ressurge por todo o lado: entre Maio de 2012 e Maio deste ano, o Global Trade Alert recenseou 431 novas medidas proteccionistas e anunciou a preparação de mais 180, sendo um terço delas oriunda dos países do G7 e dois terços do G20. O mundo vai certamente entrar de novo numa fase mais localista e regionalista, impulsionado pela brutal agudização das desigualdades que a globalização provocou, bem como pela sua incapacidade para estimular um crescimento que parece ter entrado em torpor generalizado. Tudo isto exige que se enfrente o desafio europeu com mais verdade. Que se acabe com o ziguezague entre ilusão e denegação: a ilusão da solidariedade, da convergência e do crescimento. E a denegação do egoísmo, da divergência e da regressão (...). Neste contexto de eclipse da globalização e de erosão europeia, Portugal enfrenta um dos maiores desafios da sua história, que exige o máximo do seu povo e das suas elites. Não basta dizer o que não queremos. É preciso construir uma alternativa, e propor aos portugueses um projecto efectivamente nacional. Esse desafio consiste em fazer a ruptura com o statu quo que os portugueses acabam de rejeitar nas urnas, e de lhes propor um novo projecto, efectivamente nacional. Rupturas minoritárias são fáceis, pretextos não faltam. O que interessa é dar forma e conteúdo a uma ruptura maioritária, que defina um verdadeiro rumo para o País, o que exige que se consiga mobilizar os portugueses para os combates do imediato, mas também para uma visão de médio/longo prazo. Em 2011 defendi uma legislatura patriótica, que de resto, em rigor, devia ter nascido em Setembro de 2009. Esse desígnio nunca foi assumido, nomeadamente por quem mais tinha a obrigação de o fazer, o Presidente da República. E quando o tentou fazer, já era tarde. Em 2015 (se não for antes) vai ser preciso avançar para um desígnio ainda mais exigente, o de uma década patriótica. É isso que urge preparar desde já.»




Manuel Maria Carrilho, DN

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