28.10.13

Uma língua e um estilo

Não se pode dizer que o senhor vice PM não seja fértil em adjectivos. Podia, aliás, à semelhança do que Ernesto Guerra da Cal fez para Eça, elaborar-se um breve "manual" da língua e estilo do dr. Portas. Nos derradeiros meses, excedeu-se. Viu "linhas vermelhas" imaginárias que ele mesmo transpôs sem pestanejar, afirmou-se não dissimulado sem se rir e tornou-se "irrevogável" com a volatilidade de uma mosca. Agora definiu o orçamento para 2014 como "inspirador de um novo ciclo" rasurando tudo o que lhe inspirou desconfiança e rugidos directos e indirectos nos anteriores que, evidentemente, este segue com requintada "profundidade". Teria feito bem ao dr. Portas ter ouvido Canotilho, primeiro, e Habermas a seguir, na Gulbenkian, sobre a democracia, a Europa e o Estado de Direito. Mas Portas prefere apresentar-se como um supra Gaspar sem Gaspar e sem a honestidade intelectual deste que, ao menos, protestou publicamente o seu erro. Ao senhor vice PM apenas interessa durar - ele, evidentemente. E, aí, entra a sua sempre inconfundível língua de pau e o seu estilo de falsa gravitas (ele "engravidou" de Estado mas verdadeiramente está-se nas tintas para o Estado de Direito) que tanto "inspira" a redacção única em vigor. Como escreve a SEDES, «já "ninguém confia em quase nada que seja prometido pelo Governo”, o que é “incompatível com uma saudável vivência democrática”; o ambiente é de “desconfiança em relação ao Estado de Direito”, o que é incompatível com a recuperação da economia; e a ideia de que tudo é aceitável porque o Estado está “falido” é “um erro grave”.» E mais. «Todas as semanas escutamos anúncios de medidas que abrem novas frentes e criam medo e incerteza, como aconteceu recentemente com a questão das pensões de sobrevivência. Sem discutir se a política em causa é boa ou má, contesta-se sim a errância das decisões, a confusão dos conceitos, a impreparação das soluções, a intermitência dos anúncios, a contradição dos agentes (ministros, secretários de Estado, consultores, oposição).» Inspirador, não é?

3 comentários:

Carlos Vargas disse...

Sem querer ser excessivamente pessimista, creio que se vive em Portugal um clima de fim de ciclo. Alguma coisa vai ter de mudar. Para já, governo e presidente da República. Sem essa higiene, o regime democrático continuará a apodrecer. Portugal ultrapassou todas as linhas vermelhas. O Estado perdeu toda a autoridade e a sucessão de medidas fiscais extorsionárias arruinaram a confiança dos cidadãos. Bem sei que os portugueses tem um histórico de convivência com longas crises de regime. Dos 60 anos de filipismo aos 48 anos de salazarismo. Mas tem também um histórico de resistência. A nossa história recente e longínqua mostra que um dia a casa vai abaixo.

João Vargas Moniz disse...

Penosamente impõe-se reconhecer que portugal apodreceu. Como Estado, resta-nos o território. Não há soberania nem órgãos de poder de Estado, não há sentido de Estado nem sentido de Estado de Direito - provavelmente "eles" nem sabem o que é, como a entrevista a Jorge Miranda no Público de ontem deixava insinuado - e nem sequer povo.Resta que no tempo da História o país se esfume, sem se dar por isso.
É tal o desastre, que o Dr. Portas não precisa de apresentar o guião, o tal que, ou me engano muito, ou só vai ser visto por Marques Mendes...

npcmarques disse...

Não entendo essa do funesto no domínio filipino (as artes lusas, por uma vez, desabrocharam, se bem que o momentum já viesse de trás, suponho) e menos ainda a que condena a tutela do dr . Salazar. Basta tentar desenterrar a cabeça e imaginar os olhos da história daqui a uns séculos... mas pronto, isso agora é capaz de não interessar muito. Interessa-me mais saber quem é que banca a mudança de regime que tão inefavelmente se vai anunciando? Talvez alguém se queira chegar à frente com o livro de cheques e fazer o obséquio?