Por causa da entrevista de Harold Bloom à revista Ler de Junho, foi reler Bloom. Uma das coisas que o crítico e professor universitário recomenda aos leitores de livros é que se libertem do jargão e evitem aquilo que ele apelida de "escola do ressentimento". Aquele jargão e esta "escola" têm adeptos nos sítios mais prolixos. Nas academias, nos partidos políticos, em organizações da chamada "sociedade civil", nas ideologias, na comunicação social. Toda este gente, de uma maneira ou de outra, forma (e formata) um "meio" e Bloom distinguiu-se precisamente por "furar" o meio com a defesa acérrima da individualidade do leitor e da contingência, contra a pretensa "objectividade" daqueles que outro crítico (um filósofo é fundamentalmente um crítico que tem a figura do problema, e menos as respostas a ele, no centro das sua reflexões), Sloterdijk, declinou com felicidade como a "vociferante matilha do espectáculo". Recusar o jargão, a vasta escola do ressentimento e, sobretudo, não lamber as patas à referida matilha tem como preço o isolamento. Em certo sentido, acaba por ser um triunfo sobre uma visão shallow da existência que é aquela que ressuma do muito que nos chega pelas vias "normais" da comunicação social e cultural. Porque estas vias só dão a ver ou a ler o que querem dar a ver ou a ler, em suma, o jargão do "meio". Expressões como "experiência" ou "referência", neste contexto, não passam de mistificações grotescas. É caso para recomendar a estes prosélitos que se imaginam sublimes e donos da opinião pública: libertem-se do jargão.
2 comentários:
januário ao atirar a primeira pedra esqueceu-se do ricochete. agora anda a ganir.
muito desempregado gostava desta vida de nababo. judas também denunciou e acabou pendurado.
isto mostra que os parvos úteis ajudam a comunicação socialista a ganhar o campo para os devoristas de esquerda.
quando é que o gajo deixará de ser caixa de rufo da esquerda.
É um bom conselho, mas o primeiro seguidor de tão sensata proposta devia ser o próprio Bloom - pois a sensatez, como a caridade, deve começar em casa como reza o provérbio. Explico-me já: o dito Bloom, em diversos textos públicos, usa um jargão tipicamente militantão, quando dá o conhecido (tristemente célebre?) Saramago como, pasme-se, "o maior escritor do mundo", um "autor fundamente progressista" e outras coisas pelo estilo. E, num jargão tipicamente académicol, tem o desplante de considerar Yeats (aliás estimável poeta) como o autor que mais se livrou da "angústia da influencia"...(Para conhecedores mesmo da poesia anglo-saxónica, para não dizer europeia, isto só pode aparecer como piada calina). O jargão de Bloom é tipicamente de autor de segunda ordem, festejado pelos politicamente correctos et pour cause, como num texto mortal Milosz demonstrou. E este era tipo que não usava jargão. Ou seja, Bloom é um usuário do jargão sacrista: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço".
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