10.6.12

O discurso definitivo


 


Nos primeiros anos do regime, sob a presidência de Eanes («tão íntegro como o conheci, e tão independente e isento como o sei capaz de ser», nas palavras de Jorge de Sena), o 10 de Junho serviu sobretudo para "adaptar" o "dia da raça" do Estado Novo - celebrado no Terreiro do Paço entre militares, estropiados, órfãos e viúvas - à democracia, reduzir o "império" à ex-metrópole e às comunidades nacionais emigradas e resgatar o Épico da apropriação patrioteira que desfigurava o sublime e a grandeza literária e humana de Camões. Depois, o 10 de Junho banalizou-se e entregou-se às trivialidades do quotidiano mediático. Resmas de comentadeiros e comentadeiras tentam ver por entre as linhas dos discursos do dia alimento para o seu incansável tricot intriguista e superficial. Não há Dia de Portugal porque, neste folclore sem importância, perdeu-se a noção do simbólico dos grandes gestos. A permanência inerente a um conceito de "pátria" tornou-se evanescência e, se o tempo o permitir, praia. Por isso o discurso definitivo do 10 de Junho é o de Jorge de Sena, proferido no liceu da Guarda em 1977. Menos de um ano depois, Sena morria no seu exílio norte-americano do qual nem o 25 de Abril o quis tirar. Mas Sena veio cá apenas três anos depois da "revolução" explicar o que estava para chegar e que ele já não veria. O seu amor a Portugal, como todo o amor verdadeiro, era um misto de amargura, de desmesura e de afecto extremos. O que disse de Camões, logo de nós, nunca mais ninguém o conseguiu dizer sem soar a patético ou burlesco. Vasco Pulido Valente, no Público, retoma a "realidade" da efeméride, em 2012, indissociável da presença de uma selecção nacional num campeonato europeu de bola que traz «invariavelmente à superfície a insondável estupidez do nosso pobre patriotismo.» Talvez não fosse má ideia pedir-lhe, um dia, um discurso para o 10 de Junho.

6 comentários:

observador disse...

Caro João,

Não há discursos definitivos sobre o que quer que seja, e muito menos sobre essa coisa chamada Portugal, e sobre o seu dia em particular.

O que ficou, dos de hoje em particular, foi que andamos a formar jovens que custam um balúrdios , quer aos pais, quer a todos nós, para exportar, e importamos gente formada para trabalhar na construção civil quando a há.

cc disse...

Simplesmente EXCELENTE

Bm disse...

O que "Não dá" João,
é a minha surpresa esta manhã na torre de Belém, 10Junho.
Calma e plácidamente, o autarca maravilha de Oeiras, o seu charuto e um ajudante de campo, a chegar ao recinto para o 10JunhoAntigosCombatentes.
Creio ter seguido para o palco VIP.
Vale este post que guardo,
para uma pequena memória do senhor general Eanes.
Cumpts

Reis Patrício disse...

Sena era um escritor de mérito. Mas era também um homem com um ego desmedido, que hoje já está suficientemente analisado para se perceber que o seu ressentimento tinha como base e fundo a ideia napoleónica que de si mesmo fazia. Uma espécie de Pulido Valente sem os arroubos de soberba alfacinhista deste, pois Sena tinha, por ter mais mundo, uma sobranceria menos provinciana. E os seus romances, como a sua poesia hoje muito datada, reduziram-se com a passagem do tempo àquilo que de facto são: boas tentativas de permanecer no futuro com recorrencias de cariz vincadamente menor. É que o auto-convencimento de se ser génio não confere por si a genialidade. E pese aos seus rasgos fortuitos de bom observador, tal o discurso apontado, sente-se sempre um ressaibo de segundas intenções que não lhe dão o perfil de escritor/homem admirável. Mas sim o perfil de uma espécie de bispo laico, com todos os méritos e deméritos que isso pode arrastar.

Joaquim Sapinho disse...

Quero pôr aqui para Vossa leitura um bocado de um poema datado
de 20/7/1972 escrito por D. Jorge de Sena numa ilha
que ainda se deve chamar de Moçambique,
e que vem a propósito da comemoração do dito...
CAMÕES
NA ILHA DE MOÇAMBIQUE
"(...)
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as croias mais as damas,
e versos de soneto perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n'alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n'água o olhar e te sorrias
— mas não amargamente, só de alívio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós."

António Cabral disse...

Boa noite Exmo Senhor João Gonçalves.
Sigo há muito tempo as suas opiniões, que perfilho numa grande maioria dos casos.
Eventualmente por minha culpa não consigo abrir o link para ler o discurso de Jorge de Sena. Muito grato antecipadamente se mo puder endereçar por mail.
Com os melhores cumprimentos
António Cabral