
«Fala-se no dia de Camões, mas nessa data ninguém costuma preocupar-se excessivamente com a importância e o sentido, quer da lírica, quer da épica camoniana. Mesmo sem uma retórica exacerbada e patriotinheira, à moda do triunfalismo de antigamente, só lucraríamos com o humilde reconhecimento de que as dimensões identitárias e culturais de uma figura e de uma obra como a dele mereciam celebração mais adequada e iniciativas que propusessem um trato mais continuado e mais esclarecido com ele e com os seus contemporâneos. Isto nos levaria logo aos programas escolares e às questões do ensino da literatura e da história na escola, com todo o cortejo de considerações que se justificam. E levar-nos-ia também a questões existenciais mais profundas, tocando um sentido da cidadania mais substantivo e mais preocupado em lermos Camões também à luz do que hoje somos, e em sermos "lidos por ele" na mesmíssima medida. (...) O poema camoniano configura uma elaborada epopeia do desvendamento do mundo e da aventura do conhecimento humano: ao contrapor à fábula e ao mito critérios novos de verdade e de experiência; ao contrapor os testemunhos vividos de fenómenos naturais e as referências a tecnologias inovadoras ao saber meramente livresco dos Antigos; ao manifestar a plena consciência de estarem a ser ultrapassados os "vedados términos" do mundo até então conhecido; finalmente ao propor uma visão, conquanto ainda geocêntrica, da estrutura e funcionamento do Cosmos. Numa geometria cujo paralelismo só pode ser intencional, os cantos V e X de Os Lusíadas, a rematar, respectivamente, a primeira e a segunda metades do poema, articulam os dois tempos fundamentais desse conhecimento, o que vem do domínio da Natureza e das suas forças e o que desenha uma arquitectura do Universo cujo modelo em "trasunto reduzido" é apresentado no "globo transparente". Assim a História se fez conexa com a experiência humana e a aventura da viagem torna-se iniciática e abre para uma contemplação da transcendência.»
2 comentários:
Texto muito bonito do Dr. Graça e Moura! Para quando voltarmos aos nossos "MAIORES" que nos deveriam merecer tudo (e mais) aquilo que lhes quiseram tirar há mais de 30 anos? Felizmente ainda há alguns, poucos infelizmente, como o Dr. João Gonçalves e outros que insistem em ir contra a corrente e não esquecem fácil o que deveria ser lembrado por todos e para todos. Bem Haja! E muito obrigado.
P.S.: E, infelizmente, continua a maldita saga do futebol!
Vai ficar cool.
Os Lusíadas traduzidos para Acordoortografês.
Enviar um comentário