22.6.12

Péssimas perguntas


Não fora hoje um almoço, em Lisboa, com um amigo ironista e uma semana de férias teria sido muito mais desastrosa do que acabou por ser. No Algarve, onde cheguei no princípio do fim de semana passado, a água do mar, impassível e estúpida como a de uma piscina de plástico, estava gelada. Cá fora a ventania arrastava chapéus de sol e folhas soltas de jornal pelo areal. À noite piorava. O carro, por sua vez, ao segundo dia decidiu avariar uma coisa chamada "sonda lambda" (parece que é assim). Veio para Lisboa antes do dono que ficou sozinho a remoer os males da existência, as pequenas traições, o resultado das alterações do clima e a desistência de um "ambiente sustentável" numa cimeira na América Latina. Dei por mim, sem grande apetite - as desgraças que me revelaram sobre a pesca local da sardinha também não ajudaram nada -, a comer bananas compradas num supermercado, a beber copos de água da torneira e a ouvir óperas inteiras no You Tube. Entre as bananas, os comprimidos e a Cossotto, a coisa aguentou-se, mal, até ao "expresso" que me largou na Gare do Oriente. Só me lembrava das palavras de Vasco Pulido Valente. «Os factos consumaram-se sempre por mecanismos obscuros, totalmente estranhos à minha vontade. "O que é que eu estou aqui a fazer?", perguntava eu, desastre após desastre. "Como é que eu vim aqui parar?". Péssimas perguntas.»


 


Adenda: Por aqui fiquei a saber que o PR condecorou a Clara (que devia ser do que ela mais estava a precisar). A Clara andava um ano à minha frente na Católica e tínhamos pelo menos um amigo em comum - que entretanto já não é comum nem amigo por vontade dele - que também é diplomata. A última vez que nos cruzámos foi no Porto Santo, no princípio de um mês de Outubro, com sol e mar correctos. Como ela.

1 comentário:

PALAVROSSAVRVS REX disse...

Meu caro, falta-te gente que valha a pena, que te alegre, festeje a vida contigo. Isto é para ter horas de plenitude e deslumbramento entre humanos superiores. Pesa-me sempre que formules perguntas assim.