19.6.12

Os detalhes do diabo

O Tribunal de Contas pronunciou-se de novo sobre as contas regionais da Madeira e dos Açores. Por motivos distitintos, os resultados não pareem brilhantes. A Madeira, se tudo fosse levado a sério, podia deixar de receber fundos continentais e nos Açores aparentemente o governo regional de partida apreciava viajar sem preocupações. As autonomias regionais são, como se costuma dizer, uma conquista da democracia. Quanto mais autónomos, maior é a democracia para usar um silogismo simples. Mas as democracias autonómicas funcionam literalmente como ilhas na democracia. Interessa o resultado, não importa o "como". Gosto muito da Madeira e dos Açores - pessoas, paisagens, a água do mar, a simpatia das vacas. Todavia, é preciso que os governos regionais - as populações não têm culpa dos delírios majestáticos que pastoreiam as onze ilhas dos dois arquipélagos - percebam de uma vez por todas que a solidariedade nacional não é um jargão para colocar na lapela dos comícios locais. Não é apenas de cá para lá. É em todo o lado mesmo naqueles lados rodeados de mar por todo o lado. Independentemente das qualidades dos homens (apesar de tudo prefiro a inteligência emotiva de Jardim à empáfia socrática de César), é perigoso juntar ao passado o passivo. Há dias, no Correio da Manhã, Eduardo Cintra Torres "descrevia" a RTP Açores. Em certo sentido, é um retrato deste passado e deste passivo através do microcosmo de um dos dois centros regionais de televisão que, precisamente, são um exemplo do "de cá para lá" sem mais. É que o diabo, como lhe compete, está sempre nos detalhes.

2 comentários:

respeitinho disse...

Respeitinho, Dr. João Gonçalves. Respeitinho. O diabo é você.

João Mendonça Gonçalves disse...

Caro João Gonçalves

Julgo que meter uma questão de "solidariedade nacional" no caso dos Açores é perfeitamente descabido.

Como nos Açores, Madeira e Continente (usando esta expressão que acho detestável), o poder apresenta vícios e problemas. Os dos Açores, financeiros, apesar de tudo bem menores que na congénere Madeira. Mas, políticos, tem-nos todos. São os problemas de uma maioria que governa de forma absolutista, que, em final de período, revela os seus mais podres. Esta última questão, das viagens da mulher de Carlos César, são apenas um exemplo disso.
Por lá, também já temos as famosas SCUTS (em São Miguel, pois claro) e uma dívidas que, este ano, representava 235% (em 2007 cerca de 165%) das receitas..O poder nos Açores, como vê, não se comporta de forma muito diferente como o faz em outros locais. E, só se estando o país de boa saúde financeira, é que poderiam, os senhores do continente, apontar o dedo à irresponsabilidade dos senhores das ilhas. O que se fez lá - Açores - em nada difere do que se fez cá. Argumentar que são os cidadãos de cá a pagar as travessuras dos le cá -vindas do Governo ou da população, é, manifestamente, precipitado.

Cumps