14.6.12

Um novo tratado enxuto


 


«Um novo tratado vai, obviamente, impor-se. Que terá de ser curto, claro e referendado simultaneamente pelos cidadãos europeus envolvidos numa tal viragem. Neste contexto não é de excluir que a Alemanha surpreenda ainda com uma outra proposta, que já foi aprovada no último Congresso da CDU: a da eleição por sufrágio universal direto do presidente da Comissão Europeia. Inconcretizável no curto prazo - lembremos que hoje nem sequer existem verdadeiros partidos europeus -, esta ideia pode todavia tornar-se num lance hábil da Alemanha, que lhe aumentaria significativamente a margem de manobra. Enfim, só talvez agora se começa verdadeiramente a perceber como, com o processo de Maastricht entre 1990 e 92, não foi só a "fuga em frente" do euro que começou. Foi também uma mudança mais profunda, como se a desagregação do bloco soviético e a sua completa implosão ideológica tivessem na verdade provocado uma impercetível alteração na própria natureza da ideia europeia. Como se a Europa tivesse descolado da sua própria história para se perder numa deriva cada vez mais errante. O "milagre europeu", que foi sempre - apesar de todas as calamidades que conhecemos - o de uma cultura e criatividade singulares, foi nesses "anos de Maastricht" abandonado por uma elite que se deslumbrou com o modelo ultraliberal americano, esquecendo completamente as suas raízes e criando assim as condições propícias ao atual desatino europeu. Hoje quase toda a gente reconhece que sem unidade política nenhuma união monetária tem condições para sobreviver. Mas de quantos anos precisaremos ainda para reconhecer essa evidência afinal bem maior, que é a de que não há federação sem cultura comum, no sentido mais amplo do termo? O maior risco que corremos é, afinal, o da compulsiva cegueira "maastrichtiana", que nos últimos vinte anos nos levou a iludir quase sempre o essencial. E o essencial, numa qualquer união/federação democrática - para lá de um inimigo comum, hoje improvável -, é a assumida existência de uma forte ambição estratégia, como potência no mundo. É a comunidade de símbolos e de espaço público de informação e de debate, de divertimento e de conhecimento.»




Manuel Maria Carrilho, DN


 


Nota: O texto está transcrito como no original, em português "acordográfico" que não se pratica neste blogue

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