16.6.12

De susto

Vasco Pulido Valente, no Público, coloca o dedo - os dedos todos - numa chaga cultural e social. «Portugal tem um número extravagante (e suponho que nunca visto num país tão pequeno) de 4154 cursos “superiores”(...) Em Portugal, existem 20 faculdades de Direito, com a consequência inevitável de que os licenciados em Direito estão no desemprego ou trabalham, precariamente, “no que vai aparecendo”… Outro exemplo: há uma Escola Superior de Educação em Arcozelo. Há uma segunda em Fafe. E há ainda uma Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas (como serão as que não se aplicam?) na Universidade de Trás-os-Montes e uma Faculdade de Estudos Artísticos na Universidade do Algarve.» Etc. Etc. A proliferação acéfala de estabelecimentos comerciais ditos de "ensino superior" agravou o panorama geral da qualificação doméstica que, famosamente, nunca foi grande coisa. E agravou-a por duas vias. Desde logo pela invenção de licenciaturas para tudo e para nada a que se juntou o declínio inevitável de algum do ensino universitário mais frequentado como o direito ou a economia. Por outro lado, e dada a natureza "mercantil" do objectivo, hordas de analfabetos simples invadiram as chamadas universidades com os resultados que para aí se exibem, desde os rodapés dos telejornais até ao mais perfumado "executivo" empreendedor. Como se isto não bastasse, Bolonha complicou tudo com os seus expeditos "créditos". Alexandre Herculano, nestas circunstâncias, não teria apenas "vontade de morrer" como estaria inequivocamente morto. De susto.

8 comentários:

eirinhas disse...

Comentar o quê e para quê?Só para nos chamarmos nomes a nós mesmos.Foi esta estapafúrdia que nos trouxe até aqui.E depois dizia o outro que a culpa era do estrangeiro.
Agora,há uma coisa que não se compreende,com toda a consideração que tenho pelo Sr. M.da Educação de quem não será a culpa,é que se tenha feito tão pouco para corrigir estas situações e outras como os vencimentos escandalosos na rtp.Não foi para isto,ou disso não estávamos convencidos,que elegemos este governo.

FranciscoB disse...

Naturalmente, ao Sr. VPV, não convém que haja tanta gente com formação... estávamos bem é no antigamente, qd era 1 sardinha para 7 pessoas... como bom "velho do restelo"", estávamos ainda melhor antes dos descobrimentos...

observador disse...

Vejamos, VPV estava a criticar quem:

- Ele próprio, que só agora se apercebeu da enormidade que estava a ser feita governo após governo, ou só agora lhe apeteceu escrever sobre este tema?

- Está criticar quem montou este esquema, e, pelos vistos, muito tem beneficiado dele?

Mas certamente não está a criticar quem esperou ao frequenta-los, melhorar o seu futuro, e, mui menos ser culpado por os ter frequentado. Certo?

Carlos Vidal disse...

VPV é, quanto à vida ecultura contemporânea uma besta ignorante como o sr. Pereira (Pacheco) do Castelo do Queijo. É um trôpego, não sei nem me interessa porquê, que de casa não deve sair há mais de 10 anos (por acaso, gostaria eu agora de estar em casa alguns anos sem leccionar - certamente que faria obra, certamente que não seria VPV!!). Sobre a Faculdade de Estudos Artísticos do Algarve, uma nota (e aqui o meu caro João Gonçalves deveria informar-se): o Algarve foi e é local de estadia e de produção/irradiação de alguns dos mais decisivos artistas portugueses e a dita Faculdade faz justiça a isso, tendo mesmo alguns deles como docentes, prosseguindo um ímpar centro de irradiação e criação. Os nomes do Algarve são muitos e fulcrais: O meu varo não os conhece e VPV também não (este não os conhece mesmo, de certeza): Álvaro Lapa, Manuel Baptista (que lá vive e trabalha, naquela magnífica luz), antes os já falecidos e saudosos Palolo, Joaquim Bravo; também João Cutileiro ou o mais novo Xana. Na faculdade estão artistas como o Xana ou o videasta e artista plástico Pedro Cabral Santo (um amigo próximo). Pelo Algarve (num interessante eixo Évora-Lagos) andou ainda gente como o Cabrita Reis e o notável e relativamente esquecido Charrua (para já não falar no Victor Pomar e num projecto entretanto abandonado em Tavira). E com esta nota me despeço deste blogue. Gosto de quem sabe do que fala.

Isabel Metello disse...

Por acaso, VPV tem toda a razão- tive alunos universitários na UNI, com excepção de 3 ou 4, que apresentavam respostas em frequências ao nível da 2ª classe antiga (nem isso, pois as mesmas não só revelavam ausência de literacia ao nível da sintaxe e ortografia da Língua como ao nível da leitura e interpretação de textos e até de raciocínio lógico. Era aflitivo!
Universidades onde os Mestrados e Doutoramentos, no período pós-Bolonha, foram realizados nas mesmas instituições, em regime prêt-à-porter, para que os queridos Licenciados docentes que lá estavam lá permanecessem, enquanto pessoas que tinham Licenciaturas, Mestrados e frequências de Doutoramentos antigos e até na transição, com provas dadas (ex: com artigos publicados...:)e em Universidades de prestígio e com óptimas classificações eram preteridos pelos protégés, i.e., não eram admitidas!
É a pandemia da mediocridade e ainda se perguntam: onde é que falhámos? Em tudo...começando neste sistema de cunhas e de compadrios que só reforçaram o ciclo vicioso da mediocridade...
Até uma minha colega que chumbou no Mestrado era docente num Instituto de Gestão e tive um colega que tb ficou como docente numa universidade que se gabava de fazer uma tese de Mestrado em 2 meses...pois!

animacao-infantil-seniores-teatro disse...

Não sei onde é o Vasco Pulido Valente viu uma Faculdade de Estudos Artísticos no Algarve, se calhar na imaginação dele, já que é perito em falar sobre assuntos que não domina. O que há na Universidade do Algarve, ao que julgo saber, é a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas que tem a licenciatura em Estudos Artísticos , como tem em outras áreas, como em desporto. Mas, agora pergunto, e se houvesse? Qual é o espanto de ter uma faculdade dedicada ao teatro, à música, às artes? Se fosse dedicada às finanças de certeza que não havia nenhum alarido.

João Gonçalves disse...

Carlos, pela minha parte continuarei a ler os seus livros e os seus textos avulsos, como posts, sempre que puder. Abraço. JG

Carlos Vidal disse...

Na UNI ??
O que é a UNI ??


(Por acaso, voltei. Reler o Deleuze foi boa ideia.)