14.2.12

«Golpe até ao osso»

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,


linda vista para o mar,


Minho verde, Algarve de cal,


jerico rapando o espinhaço da terra,


surdo e miudinho,


moinho a braços com um vento


testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,


se fosses só o sal, o sol, o sul,


o ladino pardal,


o manso boi coloquial,


a rechinante sardinha,


a desancada varina,


o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,


a muda queixa amendoada


duns olhos pestanítidos,


se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,


o ferrugento cão asmático das praias,


o grilo engaiolado, a grila no lábio,


o calendário na parede, o emblema na lapela,


ó Portugal, se fosses só três sílabas


de plástico, que era mais barato!


 


 


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,


rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,


não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,


galo que cante a cores na minha prateleira,


alvura arrendada para ó meu devaneio,


bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.


 


Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,


golpe até ao osso, fome sem entretém,


perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,


rocim engraxado,


feira cabisbaixa,


meu remorso,


meu remorso de todos nós...


 


 


Alexandre O' Neill


 

1 comentário:

anónimo disse...

O'Neill sempre actual e certeiro. Como dizer melhor que a beleza de alguns sítios e pessoas não compensa a infinda mesquinhez e pequenez da maioria dos cabisbaixos,que acabam quase sempre,senão sempre,por triunfar. É a mediocridade que vence. E sem remorso.