1.2.12

A rua assassina do Arsenal e o resto


 


D. Carlos, numa carta, afirmou que chefiava uma "monarquia sem monárquicos". Nos dois últimos anos de vida, com João Franco, o rei desejou um regime decente e o fim do "rotativismo". Republicanos e membros dessa "monarquia sem monárquicos" conspiraram para que isso não acontecesse. Falharam o golpe de 28 de Janeiro. Decidiram-se pela eliminação física, faz hoje anos. D. Carlos I regressava a Lisboa. Desembarcou, cerca das 17 horas, no Cais das Colunas, meteu-se na caleche com a Rainha e os dois filhos, seguiu para a Rua do Arsenal e, na esquina com o Terreiro do Paço, os tiros traidores acabaram praticamente com a monarquia constitucional e com o liberalismo, no sentido benigno do termo. Até hoje. Dois anos depois, o "PRP" do dr. Afonso Costa tomou de assalto o Estado e reduziu a tradição liberal a uma caricatura. Écrasez l'infâme - isto é, o "rebanho" constituído pelo "povo" que ignorava e desprezava uma República erguida, no fundamental, contra o "povo" e a igreja - foi o lema do Partido Democrático do dr. Costa durante o nefasto período em que nos pastoreou a partir de Lisboa. O Estado Novo recolheu os despojos, eliminou o pior jacobinismo, cavalgou o despeito popular do interior e da tropa contra os "progressistas" do dr. Costa e aproveitou a sementeira anti-liberal e anti-democrática da I República para plantar a sua. Tecnicamente o "25 de Abril" poderia ter recuperado essa tradição liberal interrompida pelos assassinos de 1 de Fevereiro de 1908. Não conseguiu. Se hoje estamos mais "modernos" e menos periféricos, não o devemos tanto à política doméstica quanto à Europa. Mesmo Cavaco, quando fez o que devia ter sido feito muito antes dos anos 80 e 90, fê-lo porque já pertencíamos à União Europeia. Sem ela, nunca teríamos passado de uma razoável estância balnear. Foi uma pena ter-se sacrificado um homem bom, amante da vida, liberal e patriota praticamente para nada. Dito isto, não há "restaurações" nem "incursões" platónicas por petição. A questão do regime está morta e enterrada. E bem.

12 comentários:

Octávio dos Santos disse...

«A questão do regime está morta e enterrada. E bem.»

Não, não está.

zwapczz disse...

Um pouco a latere: Rui Ramos aparecia regularmente na TV e era dos poucos comentadores que ia (lamento não poder dizer "vou") tendo paciência e interesse em ouvir. Porque será que desapareceu dos écrans (ou estarei enganado)?

observador disse...

É por isso que se está como se está. Em vez de se sarar as feridas da História, e aprender como os erros, passamos os dias a infecta-las.

Respeitinho disse...

Respeitinho e juizinho, Dr. Gonçalves. Nada de desvarios.

Fernando Martins disse...

Não, não está.
Enquanto não se perguntar ao Povo que regime quer, como se fez no Brasil, nunca estará. Recorde-se que no 5 de outubro estámos numa democracia em que havia republicanos eleitos para o parlamento e que, depois, os monárquicos não puderam sequer ir a votos ou, em muitos casos, sequer votar.
Recorde-se ainda que os presidentes da III república têm sido parte do problema político português - porque são da oligarquia política que nos (des)governa.
Recorde-se que a Casa Real espanhola custa UM TERÇO da Presidência da República portuguesa (fora o que custam os ex-presidentes e respetivas FUNDAÇÕES...).
Sabemos que é republicano - e ainda bem que o assume - mas a maioria do povo português nunca se pode pronunciar sobre o assunto (ou nem sequer o deixaram pensar sobre o assunto).
Esta é uma boa altura para reformar o Dr. Cavaco, para parar com os queixumes e gozas a(s) reforma(s) e puder brincar com os netinhos.

Respúbica disse...

Eu, não quero a monarquia. Sou republicano.
1 - voto.

Vasco disse...

Sinceramente, também não me parece que este assunto esteja morto e enterrado. Não é coisa que desapareça com wishful thinking. Basta ver, aliás, o entusiasmo que gerou o centenário da república: meia dúzia de gatos pingados, de trombas uns com os outros, em cima de um palanque ranhoso, embrulhados numa bandeira horrível. Até as televisões desistiram dos directos antes do meio-dia.

Nuno Castelo-Branco disse...

Para nem sequer falarmos no total desprezo que o actual Chefe do Estado votou às ditas "celebrações". Fez bem.

anónimo disse...

A partir da morte sem descendência de D.Manuel em 1932 passou a ser de facto mais dificil uma restauração consensual. Salazar manteve sempre uma ambiguidade calculada(para não dizer calculista) a esse respeito,assim contando com a colaboração de muitos monárquicos. Excepções corajosas foram homens como Paiva Couceiro,Vieira de Almeida,Sousa Tavares,etc,etc. O actual regime foi sendo aceite mais por inércia que por convicção popular. Por isso o "Povo" nunca foi consultado: Durante a I República,em eleições limpas,ganhariam certamente os monárquicos,e no Estado Novo para manter os dois campos em suspensão ambígua. Embora o autor do Blogue considere e assunto ultrapassado,porque será que a Constituição actual ainda impede a alteração da forma republicana do Estado? Pelos vistos ainda restam medos históricos...

Fernando Martins disse...

A morte de D. Manuel II sem descendência levou a que aquilo que no Pacto de Dover, no batizado da Infanta Adelaide de Bragança, na decisão das Associações monárquicas post mortem rex e no batizado de D. Duarte Pio de Bragança a família real portuguesa decidiu (e, curiosamente, a III república pôs por escrito...) o ramo miguelista dos Braganças, que se uniu ao ramo liberal por via do casamento de D. Duarte Nuno com uma Infanta Imperial do Brasil, trineta de D. Pedro IV, passou a ser o legítimo herdeiro do Rei de Portugal. Salazar, como alguém apegado ao poder, manobrou para dividir e impediu a restauração, com as consequências que se sabe: uma guerra colonial desastrosa, um final de regime penoso e uma III república que deu cabo das finanças do país. Basta ver o que aconteceu aqui ao lado, com Franco e os Bourbons, e o resultado: um país que tinha sido destruído por uma guerra civil e que estava muito atrás de nós ressurgir das cinzas e ultrapassar-nos à grande e à espanhola.
Estamos melhor com um Presidente (ou quatro - porque Eanes, Soares e Sampaio continuam a receber como tal e a ter benesses, como com secretária, segurança, dinheiro para gasolina, chofer e ainda umas fundaçõezinhas) do que estaríamos com Rei, imparcial e fora do sistema partidocrático e caciquista que nos domina? Alguém tem dúvidas de qual é a resposta? E porque será que a casa real espanhola custa um terço da Presidência portuguesa?

Marques disse...

O anónimo das 1.34 sabe do Pacto de Dover(que nunca foi consensual e até creio que nem chegou a ser assinado) do casamento de D.Duarte Nuno,etc. O que pretendia naturalmente dizer é que D.Manuel era conhecido pela população,respeitado por muitos inclusivamente pelas trágicas circunstâncias em que subiu ao trono. Os seus filhos seriam portugueses directamente ligados à memória de D.Carlos,D.Luiz,etc. Sem discutir estafadas questões dinásticas,os descendentes de D.Miguel apareceram a muita gente (inclusive a Salazar) como estrangeirados,falando mal a língua pátria,algo inábeis. Não se discute a sua boa vontade ou o seu patriotismo,mas a relevância política com que se apresentaram em contraste com a legitimidade política,repito política, associada a D.Manuel II ou a seus filhos. É por isso que afirmei,e mantenho,que a morte do último Rei dificultou consideravelmente as esperanças monárquicas. Lembro que Salazar,que recebia a activa Infanta D.Filipa,a quem até devia achar interesse,pois era inteligente e animada,como tenho testemunhos familiares,sempre se recusou a receber D.Duarte. Fóra isso concordo com muito do comentário anterior,nomeadamente com as trágicas consequências históricas do regicídio,que de resto ainda hoje pagamos,mas isso já tem sido abundantemente elaborado.

QUEM SOU EU disse...

A inveja é um mal português.

É feia, gorda, baixinha e tem mau hálito.

Não se encontra outro povo em que a inveja, de forma tão preponderante, esteja tão presente nas relações sociais, nas instituições, no mundo da política e da literatura, no círculo de amigos e até na própria família.

A inveja dita formas de comportamento, enraíza atitudes e leva à formulação de juízos de valor. Por vezes, torna as pessoas doentias. Aliás, há autores que afirmam haver toda uma sintomatologia da inveja : palidez , olhar abatido, aspecto turvo. E também provocação de ansiedade, perturbações do apetite e alterações do sono.

Já no séc. XVII, o diplomata Conestagio, de Génova, num livro sobre a sua estadia em Portugal, anotava serem “ os portugueses invejosos por índole” e “sentirem com maior desgosto o proveito alheio do que o próprio dano”. E Camões termina o último canto de Os Lusíadas precisamente com a palavra inveja.
Estudiosos da maneira de ser dos portugueses têm chegado à conclusão da inveja fazer parte dos nossos hábitos e costumes.

Mas como se define a inveja?
Filósofos e artistas têm-se debruçado sobre o assunto.
Para Aristóteles, a inveja aparece como uma dor causada pela sorte que bafeja pessoas que nos são semelhantes.
Espinosa definiu-a como o ódio em si próprio. E explica que ela presdipõe o homem para o gozo do mal de outrem e para a tristeza pelo bem de outrem.
Kant considera a inveja uma tendência para observar com dor o bem dos outros.
Dante na Divina Comédia coloca os invejosos no segundo círculo do Purgatório.
O pintor Giotto representa-a com uma boca cheia de serpentes.
Na famosa peça de teatro Otelo de Shakespeare, a inveja aparece associada ao ciúme.
Otelo torna-se ciumento pois tem receio de perder Desdémona, a sua jovem mulher. Lago, outra das personagens, inveja Otelo pelo seu prestígio e também Casio, um jovem escolhido para seu braço direito em vez dele próprio. Lago consumido pela inveja inventa uma história falsa sobre o relacionamento de Casio com Desdémona. Tal facto suscitará o ciúme destrutivo de Otelo.

Incluída no rol dos sete pecados capitais pela Igreja Católica, a inveja pode desdobrar-se em vários graus, segundo psicólogos e psiquiatras.
Assim temos a inveja depressiva, a hostil e a emulativa:
A inveja depressiva centra-se no sofrimento causado pela felicidade dos outros. Os pensamentos negativos dirigem-se contra si próprio.
A inveja hostil leva ao ódio quem nos ultrapassa em terminada área, seja amigo ou familiar. A tentação neste caso é passar uma “rasteira” ao invejado no emprego ou noutro sector social.
A inveja emulativa provoca o desejo de alcançar o mesmo nível de excelência do invejado, o que em si pode ser uma atitude sã.
Mas a inveja permanece sempre como uma derrota perante os outros.

Será possível ultrapassá-la ?
Os mestres espirituais estão convencidos de que sim.
E os sociólogos também concordam.
Como?
Primeiro reconhecendo que se é invejoso.
Depois, relativizar as vantagens dos outros e considerar desapaixonadamente os êxitos alheios.

Os portugueses têm que seguir este caminho para que o mal de inveja de que sofrem, não impeça o êxito das causas nacionais para o bem comum. E, sobretudo, os políticos tenham isso em conta.

O filósofo inglês Francis Bacon bem o disse : “A inveja é um verme que corrói o mérito e a glória”.

E já agora peço-vos...
Deixem de se focar tanto nos vossos próprios umbigos e começem por dizer uma oração altruista de quando em vez....
A sorrir um bocadinho mais todos os dias...
A desejar bem a quem não se conhece...
A não aceitar o principio de que"poderia ser pior" e ficar-se por aí como desculpa para não fazer melhor...
Deixem de se preocupar tanto com as aparencias e com o que os outros pensam de vocês.
Deixem-se de tanta cagança e pretensiosismo.

Fazem-se dias dos namorados,secretárias, valentino