11.2.12

O fim da jornada


 


Com o Crepúsculo dos Deuses - transmitido em directo da Ópera de Nova Iorque pela Gulbenkian a partir das 17 horas - termina a saga do Anel de Wagner na nova produção do canadiano Lepage para o Met. Wagner concebeu a tetralogia para ser apresentada de seguida. As nossas "elites" (políticas, laborais, empresariais, televisivas, jornalísticas, cuturais etc. etc.) deviam ser fechadas numa sala durante mais de vinte e seis horas e serem obrigadas a ver as quatro óperas que constituem o Anel, sem levantar o rabo da cadeira, e lendo atentamente a legendagem no caso de não entenderem o alemão. Talvez as ajudasse mais do que ler jornais, ouvir comentadores e ver telejornais.

9 comentários:

xico disse...

A explosão de palmas antes do silêncio da orquestra, foi uma nota infeliz, indigna do MET e do que se acabou de ouvir. Pena não ter visto na Gulbenkian. Contentei-me com a antena dois.

o tal leitor disse...

Temo que a experiência não resultasse,pois pelo que conheço dos nossos "políticos" e outros dirigentes,adormeceriam,achariam tudo uma chatice para elitistas,etc. O "Crepúsculo" do ontem,particularmente o último acto, foi uma vivência inesquecível, do contacto presencial com a a obra genial de um dos grandes criadores artísticos da Humanidade. Wagner criou de facto um "mundo",como Homero,Dante,Proust,e poucos outros,mundo imperfeito como todos,com altos e baixos,mas onde a marca pessoal e genial aflora quase em permanência. Temo os superlativos contraproducentes,mas arriscaria dizer que o final do "Crepúsculo",encenado e cantado satisfatòriamente como ontem,é uma das razões porque vale a pena estar vivo.

Carlos Vidal disse...

Oh meu caro, mas o problema é outro: como escrevi no 5dias, este é talvez o texto musical/literário mais anticapitalista jamais escrito. Logo, as actuais governanças, governos e economia não lhe podem sobreviver. Não lhe deviam sobreviver!!

anónimo disse...

Gostaria de ouvis a gargalhada do Wagner em Veneza ou em Munique à redução do "Anel" a texto anti-capitalista. Porque não anti-feminista(detestável Fricka)? Ou propugnadora do amor incestuoso(gémeos,tia e sobrinho,etc)? Como todas as obras primas,o "Anel" é muito mais do que os vários nibelungos ou Beckmessers que vão comentando por aí,pretendem. Poderia dizer que o Mal,no "Anel",é a ambição ilimitada pelo Poder ,seja esse Poder capitalista ou comunista. Mas isso tambem seria uma redução,embora para mim mais próxima das intenções wagnerianas. Fiquemos em que as grandes obras excedem sempre as interpretações. E em anexo,lembro que Hitler era um fã de Wagner,não perdia um festival,e as fotos dele em jovial convívio com a família de Bayreuth, são impressionantes. Seria pelo anti-Capitalismo?

xico disse...

Hitler era pelo sistema capitalista?

Carlos Vidal disse...

Interpretar Wagner com Hitler pelo meio é da mais pura estupidez. Imaginemos que Estaline gostava muito do altar da Sistina. E depois??

Carlos Vidal disse...

Já agora, a gargalhada do Wagner é esta:
"A questão diz portanto respeito à arte e à sua própria essência. MAS NÃO É DE DEFINIÇÕES ABSTRACTAS DA ARTE QUE AQUI NOS OCUPAMOS. Trata-se tão-somente de procurar os fundamentos da arte enquanto resultado da VIDA SOCIAL, de conhecer a arte enquanto PRODUÇÃO SOCIAL."
Não, o texto não é de Marx, nem é de um Wagner juvenil.

anónimo disse...

Se Estaline gostasse da Capela Sistina(ou do Juízo Final em particular) o que até nem é impossivel,significaria só e mais uma vez que as obras de arte não se podem encerrar em clichés redutores,como o de "manifesto anti-capitalista" para o "Anel". Hitler,cabo austríaco que leu confusamente uns livros em Viena, apreciaria no "Anel" o Siegfried,herói puro e triunfante mas apunhalado pelas costas, e o pessimismo final schopenhaeuriano que ele tambem pretendeu para o final do seu regime (ver o último livro do Kershaw,"The End"). E de facto esses temas tambem lá estão,como outros,que fazem a riqueza da construção do mundo wagneriano. Mas central,é a tragédia vinda da ambição desmesurada do poder e do domínio. Capitalista ou não-capitalista. Note-se aliás que os primeiros Walhalas recentes a caír foram precisamente os comunistas,felizmente sem grandes incêndios nem inundações. Os capitalistas,tant bien que mal,lá se vão aguentando graças às suas capacidades de adaptação e transformação. Eu sei que isto é horrivelmente incorrecto para os nossos firmes cultores do realismo socialista,mas de vez em quando podem-se ouvir umas desafinações da vulgata interpretativa.Esperam-se,como é hábito,os insultos como argumentos,"estupidez",e outros mimos,mas é a vida ,como dizia o outro.

Carlos Vidal disse...

"Cultores do realismo socialista"?

Acha que está a falar com quem?

Que uma obra de arte proporciona (ou é) uma semiose ilimitada, todos o sabemos, de Miguel Ângelo a Wagner, etc. etc. Agora difícil, difícil é entrar nessa semiose ilimitada e aí trabalhar, fazer bandeiras, arriscar bandeiras.

Passar bem.