5.2.12

As benevolentes


 


«Oitenta historiadores (80) escreveram uma carta aberta aos deputados da Assembleia da República, protestando contra a abolição de dois feriados civis: o "5 de Outubro" e o "1º de Dezembro". Dizem eles para se justificar que "nenhuma economia sobrevive à degradação do sentido da comunidade". Ninguém, ou quase ninguém, em Portugal sentiu no próximo ou em si próprio esse "espírito de comunidade", ou alguma vez por acaso lhe ocorreu que ele fosse necessário para "sobreviver à degradação da economia". Mas temos de acreditar em 80 historiadores, quanto mais não seja pela quantidade e pela qualidade de gente como Fernando Catroga, Medeiros Ferreira e Mário Vieira de Carvalho. Mas nem a reverência que sentimos por todos nos deve em última análise impedir de especular sobre as suas sem dúvida irrespondíveis razões. Indo por ordem, convém lembrar que Portugal nunca esteve, como se costuma dizer em prosa patriótica, "sob o domínio de Castela" ou, se preferirem, "sob o domínio de Espanha". O arranjo de 1580 não passou de uma "união pessoal" da coroa portuguesa com a coroa de Castela (ou de Espanha) na pessoa de Filipe II, que era o herdeiro legítimo das duas. Como se vê nada que nos separasse na Europa do Império Austríaco ou do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Gales. De resto, a ordem jurídica portuguesa não mudou, nem a organização da Igreja, nem a defesa do Império, nem a carga fiscal que anteriormente se pagava. Só quando o conde-duque de Olivares nos pediu mais dinheiro e um pequeno contingente de soldados para a guerra europeia, o espírito patriótico da nobreza indígena finalmente acordou e resolveu instalar D. João IV num trono contestável e periclitante. O "1º de Dezembro" comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir. Quanto à mudança da Monarquia Liberal para a República jacobina - excepto pela separação do Estado e da Igreja (uma cópia do radicalismo francês) -, não trouxe a Portugal o menor benefício e acabou em pouco tempo por lhe trazer Salazar. Grupos terroristas dominavam a rua, em Lisboa e em grande parte da província. A liberdade de imprensa ficou à mercê da tolerância do governo. E também, com frequência, a vida e a liberdade do cidadão comum. No célebre discurso de Santarém, Afonso Costa declarou que, fora do Partido Democrático, não existiam mais do que "traidores". Princípio que desde 1913 se aplicou rigorosamente pela astúcia ou pela pura força. Não se percebe muito bem como este exemplo contribui para que a "comunidade" nacional não se desagregue e para que a "economia sobreviva". Mas, perante a autoridade de 80 historiadores, é evidente que o país se deve curvar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

6 comentários:

observador disse...

É giro ver a elite tunga a criticar outra elite tunga .

Sucede que, elites, por si só, não fazem Países e Nações. E idem para contabilistas de vão de escada

São também os pés descalços e barrigas ao léu, que tem a estranha mania de serem Portugueses, e que tem feito das tripas coração, para assim continuarem.

Mesmo colocando S no poder, que, honra lhe seja feita, soube entender tudo isto muito bem.

PALAVROSSAVRVS REX disse...

Muito sinceramente, João, em face do argumentário ironicamente eficaz de Pulido Valente, começo a desejar a extinção de todos os feriados. Todos. E todas as pausas. E todas as pontes. Mas só depois que eu me tenha convertido no Banqueiro Anarquista de Pessoa [Fora do PS e do PSD, ainda não sei como]. Mas só então.

Marão disse...

Com licença, segue carta aberta de um calceteiro marítimo historiador de calçada portuguesa: Tem estado em discussão no Parlamento a revisão do D.L . 17/2003 de 4 de Junho, pretensamente para agilizar o direito dos cidadãos a apresentar iniciativas legislativas. O tom geral observado tem sido de que se temos uma democracia representativa não fará sentido vulgarizar intervenção directa dos cidadãos. Entre as 5000 e as 35000 assinaturas tem decorrido uma abordagem tão fixamente situacionista, que em termos práticos conduziria a manter cerceada qualquer iniciativa de abertura á sociedade. Sem prejuízo de um qualquer método racional e equilibrado que configure com propriedade tal intenção, é de crer existir uma solução alternativa que não única, e que se afigura eficazmente simplificada» Se uma qualquer sugestão admitida a discussão não significa necessariamente aprovação da mesma, bastaria que uma proposta, mesmo por um cidadão individualmente considerado, pudesse ser admitida para discussão por um mínimo de 2 grupos parlamentares ou de 23 deputados independentemente do agrupamento partidário a que pertençam. Em todo o caso ficariam desde já algumas ideias específicas que se afiguram racionais e equilibrados:
- Sistema eleitoral que contemple conjugação com círculos uninominais.
- 99 a 180 deputados no máximo, e prevenir por estatuto do deputado a paralisante disciplina partidária.
- Ninguém deveria poder concorrer fora do distrito ou concelho onde resida ou exerça actividade regular pelo menos nos últimos três anos. (Válido para autarquias).
- Pôr termo aos exclusivos partidários na participação e representação política do País, deixando espaço para iniciativas da sociedade civil poder dar corpo efectivo ao exercício da cidadania com assento para intervenções regulares nomeadamente na AR.
-Determinar que pelo menos durante 3 anos após abandono da vida política ninguém poder transitar para interesses privados com que tenha estado envolvido enquanto político no activo.

Octávio dos Santos disse...

Portanto, segundo o raciocínio de VPV, pode-se deduzir que, na crise de 1383-1385, não teria sido grave se o Mestre de Avis e o Condestável não tivessem triunfado.

A diferença, e o problema, em 1580 foi que D. António (o Prior do Crato) não teve sucesso. Faltou-lhe, provavelmente, um outro Nuno Álvares.

VPV equivocou-se. Mais uma vez.

Nuno Castelo-Branco disse...

Concordo com aquilo que VPV aqui deixa exposto, mas estou seguro da sua distracção no que se refere à crise de 1580. Filipe II não era o legítimo sucessor de D. Sebastião, pois era precedido pela Duquesa Catarina de Bragança, filha do Infante D. Duarte, irmão de D. Isabel, imperatriz da Alemanha e mãe de Filipe II. Em Portugal - este "país atrasado e misógino" - jamais existiu a Lei Sálica, coisa apenas há pouco abolida nas sociedades mais avançadas do norte europeu. D. Catarina era a sucessora e os acontecimentos de 1640 apenas restauraram a legitimidade.
Os historiadores, entre os quais se encontra a mesma catrefada de estoriadores a soldo do tacho suja-avental, estão raladíssimos com a não-questão do 5 de Outubro e alguns deles ousam mesmo invocar "valores do liberalismo". Se isso os preocupa assim tanto,que proponham então a substituição do 5 de Outubro - um golpe de Estado de uma minoria de arrivistas sanguinários -, pelo 24 de Julho, esse sim, data do nascimento do tal liberalismo de que agora fazem tanta gala. Foi o 24 de Julho que trouxe a efectiva separação Igreja-Estado (fim das ordens religiosas), o fim dos morgadios, a abolição da escravatura nas colónias, o fim da pena de morte, o fomento económico, o Código Seabra (civil), etc, etc. O 5 de Outubro foi apenas a antecâmara de Salazar. Ponto final. Aliás, Salazar salvou o dito 5 de Outubro, gostem ou não gostem os safardanas da pança cheia "à conta".

anónimo disse...

Concordância total com o comentário de Castelo Branco quanto ao 5 de Outubro,coincidindo aliás com posições que aqui tenho defendido e que VPV notàvelmente sintetiza. Quanto à sucessão de D.Sebastião,tinha a mesma convicção do VPV. Agora,vou tentar tirar isso a limpo.