Hoje, já sentado (e com o som e a imagem de Placido Domingo, James Morris e Renée Fleming no Otello de Verdi), leio mais uns quantos jornais em papel e online. Num deles, um artigo de opinião de um historiador de arquitectura, António Sérgio Rosa de Carvalho. E vejo lá expostas duas questões interessantes. «Em primeiro lugar, a decisão arbitrária de construir um novo Museu dos Coches, optando-se por um grande nome da arquitectura, que produziu um edifício caríssimo já em plena crise económica, desnecessário e inadequado para a sua função.» Depois, «em segundo lugar, o então secretário de Estado da Cultura, Summavielle, determinou a retirada da lista de 946 monumentos em vias de classificação assumindo assim, não-oficialmente, a incapacidade do Estado de proteger o património nacional.» Isto porque na sua opinião, «o universo do património cultural foi perturbado por uma sucessão de graves acontecimentos, que infelizmente, vieram ilustrar sérias deficiências de programa, visão estratégica e gestão.» Sobre os Coches, partilho a perplexidade do autor. Um trambolho daqueles não tem a menor justificação ética ou estética. Relativamente à alegada "incapacidade do Estado de proteger o património nacional" já não o acompanho. Há que confiar na nova direcção-geral do património nacional e dar tempo ao tempo. E ao novo director-geral.
1 comentário:
Não me parece que o edifício dos Coches seja um "trambolho". Não será antes a localização? De resto concordo com muitos que era absolutamente desnecessário retirar o museu,mesmo que não tenha capacidade para exibir todo o acervo nas melhores condições higrométricas,dado o peso da tradição e da acessibilidade. Um disparate,de facto. Mas tambem,quanto ao "caríssimo",atenção: creio que toda a operação é paga pelos lucros do jogo Stanley Ho,e nada ou quase nada pelo Orçamento. Não justifica a asneira,mas limita-a. Quanto ao Património em geral,é uma antiga e quase inabalável tradição portuguesa o desprezo pelo seu património artístico e cultural em geral,salvando-se raras vozes que vão clamando no deserto e só raramente com sucesso. A velha história de os paineis de S.Vicente terem sido descobertos por acaso quando serviam de andaimes para quaisquer obras na igreja, é altamente simbólica. Si non é vero,etc. A descrição recente da biblioteca real,de quadros e móveis preciosos submetidos dias e dias nos cais à chuva quando do embarque da família real para o Brasil,é só mais um de inúmeros episódios que ilustram uma suponho que atávica indiferença pelo valor ou interesse do chamado Património.Veja-se tambem como como os mais valiosos e antigos mapas do início dos Descobrimentos foram todos comprados por estrangeiros.Podia continuar horas a dar exemplos,mas não vale a pena.Desejo boa sorte ao Sumavielle,mas como tambem em tempos de cortes a Cultura é normalmente a primeira vítima,não me admira que o abandono seja mais próxima notícia que o restauro...
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