«É pois preciso ultrapassar o paradoxo de, enquanto por todo o lado se reconhece (e isto desde o famoso relatório Kern, já de 2006) a contribuição da cultura para o desenvolvimento económico e o crescimento, na União Europeia se assistir a um constante recuo dos meios das políticas culturais. Também aqui inspirados, parece, no exemplo alemão, onde se chegou a debater o temas em termos - imagine-se - de prevenção de um "enfarte" cultural!... Foi talvez já a intuição deste paradoxo que levou Jean Monnet a afirmar, ao enfrentar as primeiras dificuldades da construção europeia, que "se fosse hoje, teria antes começado pela cultura..." Seja como for, é esse o desígnio do Fórum de Avignon: repor a cultura no coração da política, através das revalorização da criatividade e da diversidade cultural como base do debate democrático e alavanca de novas ambições, propostas e medidas, no âmbito das políticas públicas, e não só. Para tal, como se afirma no manifesto deste ano, o élan político é vital, é dele que depende a compreensão da importante dimensão económica da cultura, a projecção do seu papel no dinamismo das sociedades e das empresas, bem como a renovação do imaginário coletivo e o fortalecimento da coesão social. Com as eleições europeias já no horizonte, o Fórum de Avignon assumiu bem a oportunidade que isso representa, focando neste ponto boa parte dos debates. Foi neste quadro que mais participei, nomeadamente na discussão do estimulante estudo sobre "cultura, territórios e poderes", propondo que se introduza a discussão sobre o papel da cultura no futuro europeu através da proposta da criação de um ministério da cultura da União Europeia. Esta proposta baseia-se, antes do mais, no reconhecimento do erro que foi a total ausência da dimensão cultural nos tratados europeus até ao Tratado de Maastricht (1992), mas também no reconhecimento dos equívocos criados pela política de subsidiariedade então definida, bem como na indigência orçamental com que sempre se tem tratado o sector. Ela pretende insistir - se possível, em articulação com um "Erasmus da Cultura" a criar - na importância da escala europeia para as políticas culturais, pois só assim será possível viabilizar um conjunto de medidas estruturais e contínuas que possam configurar uma nova e mais autêntica experiência da Europa, que é, na verdade, o que - para lá da conversa da crise e da dívida - hoje mais falta faz aos europeus.»
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