Há para aí cerca de três anos, no pavilhão Chinês, o Medeiros Ferreira contou-me (repetiu-o nesta entrevista) que Victor Cunha Rego, já muito doente, lhe disse em 1999: «promete-me que se vires que Portugal está mal dentro da UE, tira-o de lá como o puseste.» Parafraseando livremente o Medeiros, ajudei a pôr este Governo onde ele se encontra - e posteriormente a "compô-lo" - e agora está porventura na hora de ajudar a tirá-lo de lá. Isto serve para aqueles que, sob anonimato ou não, vêm aqui repetidamente admoestar-me por alegado "ressabiamento" ou com outros mimos irreproduzíveis. Esquecem-se que, neste regime, e dentro dos partidos do regime, houve sempre rupturas e foi assim que, parcamente, é certo, ele evoluiu. O ambiente de pacificação institucional e de desanuviamento da opinião pública que se seguiu a Junho de 2011 há muito que desapareceu. O próprio programa do Governo, em cuja elaboração participei, foi progressivamente sendo substituído pela redacção única do "programa de ajustamento" a qual, por seu turno, foi-se transformando num alien que acabou a devorar parte dos seus "criadores" como Gaspar, aliás, bem notou em carta de 1 de Julho de 2013. Portas entretanto anda por aí a devorar politicamente o que lhe consentem e, todos juntos, já nos entram no osso, com especial destaque para um secretário de Estado com foros de ministro, H. Rosalino que, a avaliar pelo que vem noticiado no Expresso, desautorizou, com um veto de gaveta, o antes aplaudido MAI Miguel Macedo perante as forças que tutela. Não faltam exemplos, pois, para seguir indirectamente a recomendação de Cunha Rego. Como alguém que se considera da não-esquerda, estou disponível, sem puerilidades revanchistas, para «atacar a iniquidade, a injustiça, o desprezo, o cinismo dos poderosos para quem a vida decente de milhões de pessoas é irrelevante, não conta, é um “custo” que se deve “poupar”. A transformação da palavra “austeridade” numa injunção moral serve para um Primeiro-ministro, apanhado pelo sucesso dos celtas, sorrir cinicamente para nos dizer que a “lição” da Irlanda é a ainda precisamos de mais austeridade, ainda precisamos de mais desemprego, ainda precisamos de mais pobreza. E sorri muito contente consigo mesmo. O discurso de contínua mentira e falsidade que nos diz como se fosse uma evidência, que “as empresas ajustaram, as famílias ajustaram, só o estado não o fez”, como se as três entidades fossem a mesma coisa e o verbo “ajustarem” significasse o retorno a um estado natural das coisas de que só o vício de quererem viver melhor afastou os portugueses. Na verdade, pode-se dizer que “as empresas ajustaram”. Sim algumas “ajustaram”, mas a maioria “ajustou” falindo e destruindo o emprego, - que para quem não tem outra “propriedade” é o seu modo de vida. As famílias não “ajustaram”, empobreceram e estão a empobrecer muito, para ter que ouvir como insulto os méritos de perderem a casa ou o carro, ou a educação superior para os seus filhos, e o valor moral de deixar de comer bife e passarem a comer frango. No entanto, há uma coisa em que estou de acordo, de facto o estado não “ajustou”, continua religiosamente pagar os desmandos dos contratos leoninos das PPPs, a negociar com vantagem para o sistema financeiro, os contratos swap, em vez de receber a lição do sucesso judicial de empresários que recorreram aos tribunais, a baixar uns impostos para algumas empresas ao mesmo tempo que continua a permitir que um contínuo entre um establishment no poder ligado ao sector financeiro capture as decisões políticas, tornando intangíveis os seus interesses na razão directa em que viola todos os contratos com os homens e mulheres comuns, destruindo toda a confiança que numa sociedade democrática é a garantia do contrato social.» Ao ataque, portanto.
5 comentários:
Caro João,
Permita que o trate assim apesar de não o conhecer , para além da sua prosa. Caro, sentido da exigência da sua exposição pessoal no texto.
Estes fugiram-nos da mão e essa mão é a da confiança.
Sim, estou muito próximo da ideia de renúncia a este contrato com a chamada Europa. Claro geograficamente somos Europa, mas também estamos próximo da África e nunca a devíamos ter esquecido-estratégicamente.
Considero-me um social democrata e apoiei Sá Carneiro. Depois dele vi o PSD oscilar para tudo e coisa nenhuma. Lamento.
Dificilmente votarei neste PSD e PS nem se fala. À direita estamos conversados e à esquerda já vimos experiências de sobra.
Deus nos ajude. Ele vai ajudar...
Gostaria que ele tivesse inovado nas propostas.Boas intenções.Esperar que sejamos fortes nas negociações mas dependentes de outros em muito melhores condições para negociar.Arranjar aliados...mas "o Reino Unido não está para aí virado",os EUA ganham alguma coisa substancial em troca(troca de quê?)?O Brasil??(só triplo A,Dilma dixit),China?"só através do FMI",disseram-no há tempos.Substituir este maldito governo...e que fará o outro senão mais do mesmo,claro que sem chamar nomes às pessoas(viver acima das possibilidades,etc.) e ampla votação?
Nahh...também não é com isto que veremos a "luz".Situação muito,muito complicada.
Subscrevo, em absoluto! Esses helderzinhos de pacotlha e seu chefezinhos sem alma têm de ir. Temo o que possa vir, tenho horror à esquerda que temos e enchia a Aula Magna. Olhar para essa plateia lembra-me uma gigantesca Família Adams. Mas esta gente também não, não pode continuar. O cadastro tabagístico é a prova provada de que estamos nas mãos de gente perigosa,tresloucada, pequena, imbecil, disfarçada de estadistas, mas com o rabo (de ditadorzecos)de fora. E, sobretudo, gente sem alma!
Lá vêm estes com África. Esqueçam África, já somos abarracados que chegue. Temos é de trabalhar por nós e pôr a justiça a funcionar, já chega de Eldorados.
Compreendo e até partilho alguma da deceção com o estado em que o país se encontra e a inépcia muitas vezes demonstrada por este governo. Também eu acredito que era possível e desejável um governo melhor, mas da mesma maneira que critico muitas das opções deste governo, também não me identifico com o discurso b em escrito mas a passos demasiado demagógico de Pacehco Pereira. Para mim, a questão fundamental reside em saber se existe outra proposta alternativa credível mais válida e se, sem prejuízo de divergir muitas vezes quanto a pontos concretos, não temos o dever de escolher o mal menor.
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