Leio no Público que morreu o "Zé da Guiné". Antes dele já tinha "morrido" a Lisboa, e a noite de Lisboa, em que ele emergiu com uma extraordinária fulgurância pessoal, amável e simples. Nomeadamente no extinto B'Leza, a Santos. Antes de ser B'Leza, foram as "noites longas" do Largo do Conde Barão. Tratava-se de um clube de bairro que foi adoptado, por assim dizer, pela "pós-modernidade" (originariamente, o Casa Pia Atlético Clube). Foi aí, em meados dos anos oitenta que, encerrada a fase da "fragilização" - do Frágil, de Manuel Reis - passou a ser chique acabar a noite em Santos como talvez seja agora fazê-lo no Lux. Gente fashion que se prezasse frequentava aquelas noites. Em algumas delas havia "fila" e eventos. O grande senhor dessas "noites" era justamente o "Zé da Guiné", uma personagem apaparicada por muita rapaziada que ainda hoje escreve nos jornais, nas revistas ou que perpetrou livros e que acabou fatalmente por se esquecer do "Zé". Há uns anos correu um peditório porque o Zé - e, nessa altura, ser conhecido ou "amigo do Zé era uma espécie de passaporte, tal como se devia ser da "Guida Gorda" ou do "Pedro", no Alcântara Mar - estava doente e no maior desamparo material. A "Guida Gorda" entretanto virou a senhora D. Margarida Martins, alguém que dispensa apresentações regimentais, e que até já preside a uma junta de freguesia do dr. Costa. Do "Pedro", nunca mais ouvi falar até porque também o Alcântara Mar se finou. Fui cliente das "noites longas" e recordo-me de uma noite, não sei com quem, ter ido a pé desde Santos até ao Marquês de Pombal para apanhar um táxi. Deixei-me de noites, curtas ou longas, há muito tempo. Só raramente saio, e apenas para jantar. A noite, seja em que lugar for, perdeu a graça e ficou entregue à frivolidade Kindergarten. O bairro de Santos, aliás, transformou-se num campo de batalha de criancinhas bêbadas e imateriais. O que existe, seja em que sítio for e seja com quem for, é demasiado indistinto e indiferente para poder ser autêntico. José Barbosa, o "Zé da Guiné", simbolizou um tempo feliz. E esse tempo não volta mais.
2 comentários:
A percepção é que muda, as noitadas são tão fúteis hoje como eram antanho; é um tempo em que ainda se tem projectos e ainda há em nós uma certa imortalidade. Agora parecem ainda mais fúteis porque já ninguém tem projectos.
As pessoas têm sempre a convicção de que o seu tempo de juventude foi mais crucial do que terá sido ou é a de outros. Mas, verdadeiramente, o que deu essa gente dos anos 80 que está hoje no activo e activos nos lugares-chave da sociedade? Deu nisto, deu no que somos hoje. Parabéns?
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