Nas aulas de ciência política de Francisco Lucas Pires aprendia-se, via Max Weber, a distinguir poder de autoridade. Ontem, nas escadarias da Assembleia da República, uma manifestação pacífica - sim, pacífica - de milhares de cidadãos que exercem funções policiais acabou por exemplificar a distinção. Poder e autoridade ficaram separados por uns lances de escada. A circunstância de alguns daqueles cidadãos terem acedido a um patamar superior possui um simbolismo que não deve ser desprezado. E ainda mais simbólico foi o facto de, como maior ou menor exaltação (própria do humano, do demasiadamente humano), não ter havido violência. O que pretendo significar é que a autoridade do Governo perdeu-se entre a base e o primeiro patamar daquela escadaria. Pacificamente. A do Presidente da República, perdida desde Julho, acentuou-se com uma coisa nunca vista nestes quarenta anos de regime: o inusitado pedido público da sua demissão por parte de um seu antecessor. Em suma, somos pastoreados por poderes representativos sem sombra de autoridade. Se calhar não merecemos melhor.
Adenda: Percebi ao longo do dia que algumas vestais ficaram perturbadas com o que se passou ou deixou de passar. Na realidade, não se passou nada se tivermos em conta que os envolvidos são o que são e actuam num quadro de deveres e de direitos bem distintos do chamado cidadão comum. Por isso não entendo a demissão do director nacional da PSP. Pedida ou exigida, esta demissão é mais uma consequência canhestra de não se saber conciliar poder com autoridade. O respeitinho e o temor reverencial, quando substituem um e a outra, transmitem um sinal errado à sociedade. Mas ao ponto a que isto chegou, não vale a pena chover no molhado. Quem só se lembra das instituições, ou dos compromissos institucionais, de calças na mão, o que é que deve esperar?
Adenda2: Constança Cunha e Sá, na tvi 24, afirmou que lhe constou que o MAI, ontem à noite, terá ligado ao director nacional da PSP a felicitá-lo pelo comportamento das forças de segurança na escadaria de São Bento. E que, de manhã, o chamou, no fundo, para o demitir. O que se terá passado no interim? Algum telefonema mais "elevado"? Não seria a primeira vez, nem decerto seria a última, que o telefone toca e que, de seguida, uma cabeça intermédia é "servida".
1 comentário:
Não temnho elementos que permitam apontar responsabilidades, mas parece-me que a questão reside nessa perda de autoridade sobre as forças de segurança que é um elemento essencial de qualquer governo. Obviamente que o ato em si da demissão sendo simbólico não resolve necessariamente o problema essencial que consiste em recuperar essa autoridade.
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