Mostrar mensagens com a etiqueta igreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta igreja. Mostrar todas as mensagens

16.2.15

Os intermediários


Sempre, enquanto cristão, procurei "dispensar" os intermediários. No meu "tempo útil" contam-se cinco Papas até ao presente: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Dos cinco apenas Bento XVI  e intermitentemente João Paulo II me "confirmaram" na fé. Era muito novo no pontificado de Paulo VI, um intelectual solitário, e demasiado céptico nos dos outros dois. Li Ratzinger de fio a pavio e considero-o, de longe, o mais sólido daquele grupo. A sua renúncia foi um rude golpe, espiritualmente sentido, apesar.de ter ficado ciente de que ela, de alguma forma, representou uma extraordinária reafirmação de fé: "Eu venci o mundo". Bento VI apontou à Igreja o caminho da rocha sobre a qual ela foi edificada. Não apreciava o "espectáculo da fé" ou o proselitismo macaqueado em torno dela e, por consequência, não transigiu no essencial. Aos olhos da "correcção" e do "mercado da opinião pública", Ratzinger não passava de um "conservador" empedernido que não "acompanhava" os tempos e as "modas". Para mais, supunham, "encobria" a parte doente na Igreja e no Vaticano, em especial, quando fez exactamente o oposto. O seu sucessor, nessa matéria, não deu início a nada que Raztinger não tivesse consumado. Francisco outorgou este fim de semana o barrete cardinalício a uns quantos clérigos. Entre eles encontrava-se Manuel Clemente, o "prémio Pessoa" do patriarcado de Lisboa. Em matéria de cardeais-patriarca, "convivi" com quatro, este incluído. O mais preparado de todos era, de longe, Manuel Gonçalves Cerejeira. António Ribeiro "apanhou" a transição de regimes e, sendo um fruto "mediático" vindo da RTP a preto e branco, acabou discreto e timorato. Policarpo comportou-se sempre mais como um alto dignitário do regime do que propriamente da Igreja que procurou "integrar", sem fazer grandes "ondas", naquele. E em Manuel Clemente luzia desde cedo a mesma terrena "tentação" a qual, finalmente, consagrou-se em Roma. Mas os "tempos" correm de feição para estes intermediários do Vaticano a Lisboa. Não tenho idêntica certeza quanto à fé.

19.10.14

Montini


 


Quando visitei os sepulcros papais por baixo da Basílica de São Pedro, surpreendeu-me o despojamento do túmulo de Paulo VI. Uma laje branca, rasa, que destoava da maior parte das sepulturas que a rodeavam. Aquela discrição "era", de facto, a melhor representação eterna do Cardeal Montini. Cresci com Paulo VI e habituei-me a associar a figura do Papa à austeridade e ao comedimento. Paulo VI, apesar dessa imagem, estava perfeitamente ciente do mundo que o rodeava e angustiava. Beatificá-lo decerto seria a derradeira coisa que desejaria. Esta banalização de beatos e de beatas não me parece que fortaleça por aí além a fé. Cada vez mais a fé é algo que se vive sozinho, fora dos "reality shows" em que se tornaram as "jornadas" disto e daquilo e as visitas papais. Independentemente do papel "político" e "social" que Paulo VI, o homem que concluiu o Vaticano II, desempenhou sem espalhafatos, a sua "lição" humana e religiosa é sobretudo a da vivência sólida e solitária da fé. O que não queria dizer, antes pelo contrário, que a Igreja se fechasse ao mundo e vice-versa. Leia-se, por exemplo, os seus "diálogos" com Jean Guitton. Em muitos sentidos, Montini era muito mais "moderno" que os que se lhe seguiram. Apenas não fazia disso um ariete. Veio a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, sem passar por Lisboa, e "obrigou" Salazar a ir lá ter com ele. Por trás daquele ar frágil, escondia-se uma rocha: a mesma de Pedro que ele honrou como poucos enquanto seu sucessor.

20.8.14

Intimações de mortalidade


 


A bordo de um avião, Francisco decidiu aliviar-se diante dos jornalistas. Deu-lhes a entender que "isto" ("isto" é o seu pontificado) poderia durar apenas mais dois ou três anos. E que, se fosse o caso, seguiria o exemplo do seu antecessor Bento XVI e resignaria. O desprendimento de Bergoglio não deve causar estranheza. O Espírito Santo, o verdadeiro, que costuma invadir a Capela Sistina cada vez que se trata de escolher o sucessor de Pedro, "inspirou" os cardeais num sentido, digamos assim, mais pedestre. Era preciso arrumar a casa e o bispo argentino, livre de compromissos e de intimidades cortesãs, servia. Ao mesmo tempo que beijava criancinhas e autografava braços a devotos, Francisco ia tratando discretamente da intendência e, mais conspicuamente, da fé. Nesta parte, sabendo que nunca podia chegar aos calcanhares de Ratzinger ou de Wojtyła, o Papa preferiu "recuperar" o "social" da Igreja em tempos de hiper-capitalismo e de hiper-individualismo. A esquerda mundial, com a sua proverbial pequena burguesia de espírito e o seu obtuso fanatismo, viu no homem a encarnação daquilo que os seus dirigentes superficiais não conseguem "oferecer" para lá de negócios: uma "ideologia". Por exemplo, entre nós Mário Soares ainda não parou de tremelicar diante de "Sua Santidade" como dantes se inclinava face à "santidade" laica e republicana representada pelo egrégio Dr. Afonso Costa ou, agora, face ao "profeta" democrata Obama. Francisco decerto já intuiu que o oportunismo - político, económico e estético - que grassa pelo mundo inteiro se "colou" à sua iconoclastia tipicamente latino-americano. E deve estar decepcionado. Jesus, como proclama João, "venceu o mundo". Não contemporizou com ele. Francisco sabe até onde pretende ir mas não deseja ir mais além. Sente-se bem com o "povo" mesmo que não seja o "seu". Todavia não pode deixar de olhar para as "elites" globais com a incredulidade de quem contempla o abismo e o vazio. Este mundo de artistas de variedades em que tudo se tornou fere o religioso mesmo que divirta por vezes o homem. Bergoglio, até por formação e devoção, não quer que a sua simplicidade venha a confundir-se com vaidade. Deu, por isso, um tempo ao seu tempo. À sua peculiar maneira, vencerá oportunamente um mundo que, na realidade, não é o dele.


 


Foto: AFP/Getty Images

2.2.14

Da durabilidade


 


«O Papa não passa os limites da “doutrina social” da Igreja ou do Catecismo decretado por Ratzinger. O que ele trouxe de novo está mais no espectáculo do que na substância. Não quis viver no palácio pontifical, cozinha de quando em quando o seu jantar, dá boleias no papamobile, lava pés com entusiasmo e quase que roça a santidade na sua paixão por um clube de futebol, o San Lorenzo de Almagro. Mas no seu fervor a esquerda vai esquecendoque ele, no meio deste ruído mediático, não tocou (e provavelmente não tocará) nas grandes questões que afligem os católicos: desde o casamento homossexual à ordenação das mulheres e à democratização interna da Igreja (embora ele se designe modestamente a si próprio como “o bispo de Roma”). A desilusão virá para a esquerda e para dez milhões de seguidores que o acompanham hoje no “Twitter”. Alguém se esqueceu de prevenir Francisco que a popularidade, como o populismo, não costumam durar. O repertório de um Papa é forçosamente curto e a incessante repetição de uma conversa petrificada por 2 000 anos de tradição acaba sempre por desinteressar os mais fiéis dos fiéis. Sobretudo se não assentar em acções pertinentes. Os primeiros franciscanos desistiram da pobreza de S. Francisco e não tardou que se tornassem uma ordem esplendorosa e riquíssima, que fazia inveja a toda a Cristandade. Não sei a que levará este novo estilo de Jorge Bergoglio. Mas sei que a extraordinária apoteose de 2013 não se repetirá. E suponho que o Papa dos “pobrezinhos” também sabe.»


 


Vasco Pulido Valente. Público

9.11.13

O Papa no seu labirinto


 


Desde a renúncia de Bento XVI tenho procurado não escrever sobre a Igreja e o seu "futuro". A escolha do bispo de Buenos Aires não me entusiasmou precisamente porque cedo começou a "entusiasmar" gente a mais. Nunca, como católico, entendi a Igreja como qualquer coisa fashion ou trendy. Ainda cardeal, Ratzinger já advertia a Igreja para se habituar a viver em minoria. Nas suas viagens apostólicas, rodeado de multidões, Bento XVI jamais cedeu nesta premissa. A Igreja - e com ela o Cristianismo católico - não seria a instituição milenar que sobreviveu às maiores contrariedades e perseguições se tivesse claudicado perante as contingências. Ela acolhe os pecadores - os fiéis são fundamentalmente pecadores porque são pessoas com os defeitos e as qualidades de todo o ser humano o qual deve ser sempre "analisado" com cepticismo - no perdão, na caridade e na fé. Não é por acaso que na Oração se solicita ao Senhor que não olhe aos pecados mas "à Fé da (Vossa) Igreja". Francisco tem feito os possíveis para "não olhar" e "agradar" mas, quando chegar ao fim, estará no mesmo lugar. O sucessor de Pedro não faz proselitismo, ou pratica o populismo, como repetidamente explicou Bento XVI. «Em princípio, Francisco, como, antes dele, João Paulo II e Bento XVI, pode escolher um de dois caminhos. Pode escolher o caminho do compromisso, na esperança de reconduzir à Igreja alguns dos milhões que se afastaram ou estão à sua margem. Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo. O segundo caminho para o Papa Francisco é ficar em público pela retórica e, na substância, defender o que está. Esta estratégia, além de lhe ser pessoalmente nociva, aumentaria a desconfiança geral dos fiéis pela Igreja como hipócrita e fraudulenta. Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão.» (Vasco Pulido Valente, Público). E até o "inquérito" que mandou distribuir pelas paróquias de todo o mundo - precisamente sobre a "mundanidade" - «não o ajudará (idem).»

13.10.13

Apelo à seriedade

 



 






«Desse lugar foi lançado um sinal severo, que investe contra a falta de reflexão reinante, um apelo à seriedade da vida e da história, uma recordação dos perigos que pairam sobre a humanidade. É o que o próprio Jesus lembra muitíssimas vezes, não temendo dizer: "Se não vos converterdes, perecereis todos" (Lc 13,3). A conversão - e Fátima recorda-o plenamente - é uma exigência perene da vida cristã.»


 


Joseph Ratzinger, Diálogos sobre a Fé

1.7.13

O silêncio


 


Neste fim de semana, quse sem se dar por isso, "trocámos" de cardeal-patriarca. Saiu Policarpo e entrou Manuel Clemente já devidamente abençoado para o efeito por Francisco, em Roma. Não pertenço ao vastíssimo rol dos admiradores incondicionais de D. Manuel Clemente embora aprecie o seu múnus intelectual. Como católico, tendo a dispensar "intermediários" na minha relação com a fé. Poucas vezes me revi no anterior patriarca sobretudo quando ele falava. A resignação de Bento XVI e o "estilo" de Francisco não são claramente momentos jubilatórios. A sucessão de Policarpo ocorre neste lastro dito de "mudança" na Igreja católica. Mas todos os mais directamente envolvidos sabem que a Igreja não subsiste há mais de dois milénios por seguir "modas". Ou por ser mais ou menos "mediática", beijoqueira ou de "proximidade". A Igreja são todos e cada um dos que se revêem no escândalo da Cruz no silêncio do seu coração. Do novo cardeal patriarca - e do Papa - espera-se apenas que seja o porta-voz desse silêncio que vem, desde sempre, da noite do mundo.

31.3.13

«O populismo católico»






«Coisa estranhíssima num país católico, ou que se diz católico, quase ninguém discutiu a política do novo Papa, já mais do que evidente. E essa política é importantíssima para a América e para a Europa, onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre. A maioria dos católicos aproveita da Igreja o que lhe convém e rejeita o resto. A doutrina ortodoxa foi substituída por uma mistura de crenças, variável e muitas vezes contraditória, que se adapta melhor ao estilo de vida ocidental, não incomoda os crentes no dia-a-dia e sobretudo não impõe a mais leve proibição ao que eles querem pensar ou fazer. Um católico pode hoje, por exemplo, aprovar os contraceptivos, como pode ser a favor da homossexualidade e do casamento homossexual, sem qualquer dor ou distúrbio de consciência. Nestas matérias, o Vaticano passa por uma instituição obsoleta e anquilosada, cuja intransigência se não deve levar muito a sério. O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho. Sendo - como o seu nome indica - um franciscano, pensa manifestamente em reconstruir a Igreja de baixo para cima. Daí a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa a que ele mesmo conseguiu chegar: não aceitou os sapatos da convenção, recusou o apartamento (suponho que magnífico) que era o dos papas desde o princípio do século XX e escolheu para ele uma hospedaria de padres num canto do Vaticano. Outros gestos como estes não tardarão a vir com o propósito transparente de surpreender e mobilizar o "povo de Deus". O franciscanismo foi na sua origem um movimento popular, que pretendia reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva. Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.»


 


Vasco Pulido Valente, Público




Nota: Vários leitores "indignaram-se" por VPV se ter referido a Francisco como franciscano e não como discípulo de Santo Inácio. Não sei se é um lapso mas isso só o próprio pode esclarecer. Para além disso, "franciscano" também pode querer dizer o que VPV escreve a seguir, isto é, "a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa". E não tanto a pertença à respectiva ordem. Mas, para usar um novo uso filológico e substantivo facultado recentemente pelo serviço público de televisão, o que aqui importa é a "narrativa" e menos os detalhes. Não é o que toda a gente aplaude?

10.3.13

Persistir na resistência


 


Na semana em que é escolhido o sucessor de Pedro, um belo texto de Pacheco Pereira sobre os desafios que Ratzinger lançou ao mundo, católico e não só. «Bento XVI, quer como Joseph Ratzinger, quer como Papa, sabia muito bem que para defrontar a competição com a descrença no mundo contemporâneo, era preciso resistir ao "progressismo" que descaracterizava a Igreja, a tornava numa variante profética do marxismo na "teologia da libertação", abrindo-a de forma perversa a um mundo que se tinha feito contra ela e sem ela, e que acabaria por a dissolver no "século" sem diferença. A resistência à "modernidade", e foi o próprio Ratzinger que o lembrou, é mais moderna e interpela mais a descrença, do que a contínua cedência ao "mundo" secular, aos seus hábitos e costumes. E foi também por isso que, ao associar o seu acto prosaico de renúncia ao papado a uma "peregrinação" mística e de intensa religiosidade, apelou aos incréus, seus pares na mesma tradição greco-latina da cultura ocidental que tanto prezava, e fez muito mais pela "propaganda da fé" do que alguns dos seus pares mais modernizadores reconhecem.»

6.3.13

A Igreja e a Europa






«O Cristianismo modelou a Europa e o conjunto dos seus valores identitários. A despeito das cisões e heterodoxias que se produziram no seu âmbito pelos tempos fora, e não obstante a Europa ser um espaço civilizacional e cultural que se tem problematizado e posto sistematicamente em questão, os valores éticos fundamentais propostos pela doutrina cristã foram sendo espiritualmente partilhados no espaço europeu, mesmo quando houve terríveis perseguições religiosas, esmagamentos e pressões insuportavelmente totalitárias, ou quando o sombrio flagelo da guerra incendiou tragicamente o continente. Dentro do Cristianismo, a Europa católica ocupa um espaço muito vasto, predominantemente coincidente com os países do Sul, é certo, mas incluindo a Polónia e a Irlanda, bem como muitas áreas disseminadas um pouco por toda a parte nos países protestantes. Conquanto a maioria dos papas tenha sido italiana e a despeito de tudo o que possa dizer-se quanto ao jogo político internacional da Santa Sé ao longo dos séculos, a Igreja de Roma teve um papel muito importante na formação de uma identidade cristã da Europa. E desde o tempo dos Descobrimentos, participou activamente na "exportação" de valores europeus para o resto do mundo. Hoje, e sobretudo a partir de magistérios recentes como os de João XXIII e Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, está à vista que a Europa, crente ou não crente, pelo menos no tocante ao quadro dos valores que defende, de algum modo se revê na figura desses pontífices. Lembremo-nos do ecumenismo e do diálogo com outras religiões reafirmado pelos dois primeiros em termos inovadores, ou da contribuição de João Paulo II para o desmoronamento da cortina de ferro, ou de como Bento XVI é referenciado como um paradigma do espírito europeu, procurando conciliar razão e fé, filosofia e existência, espírito cristão e tolerância. Não se pode ignorar a vocação ecuménica da Igreja, nem o conjunto de factores que podem levar o próximo conclave a escolher um papa não europeu. Os interesses da Igreja e da sua projecção no mundo irão porventura nesse sentido e essa preocupação terá de ver-se como perfeitamente legítima. Creio todavia que vale a pena propor uma reflexão sobre a íntima conexão histórica que tem havido entre a figura do Papa, a sua mensagem e o seu papel na cena internacional, e uma certa configuração, tanto espiritual como geopolítica, que costumávamos conceber como própria da Europa ocidental, isto é, como uma espécie de "supremacia" hoje em declínio. Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas estou em crer que, se o Papa seguinte vier a ser um não-europeu, a construção europeia se tornará ainda mais difícil.»


 


Vasco Graça Moura, DN

4.3.13

Tenham juízo


 


Na net foi criada uma coisa chamada "adopte um cardeal" porventura na senda de outras tais como adopte um cão, adopte um gato ou adopte um periquito. Aparentemente não há limites para o disparate que, para felicidade dele, Ratzinger contempla agora de longe. Não é suposto brincar com coisas sérias. O pontificado que terminou na passada quinta-feira foi vigoroso quanto a simplificações, superficialidades ou cedências à vulgaridade da chamada "vida material". Ratzinger pediu silêncio e oração até à escolha do sucessor de Pedro. Não sugeriu "concursos" com rifas por mais inocentes e engraçadinhos que sejam. Tenham juízo.

18.2.13

Contra o proselitismo


 


Fátima Campos Ferreira juntou ontem à noite, na RTP1, meia dúzia de proficientes "teólogos" para discutir a resignação de Bento XVI e o futuro da Igreja. A católica, apostólica, romana, naturalmente. Mas o friso de "especialistas" ia desde um antigo ministro de Salazar a um imã muçulmano, passando por um rabino, um eurodeputado habituado à convivência diária com luteranos e protestantes (por questões laborais) e, last but not the least, o flamejante beato César das Neves. Não vi nada porque não presumo que se possa discutir a Igreja católica - e, sobretudo, Joseph Raztinger - com aquele deletério grupinho virado para o "multiculturalismo". Ora Ratzinger distinguiu-se no ministério petrino por duas coisas fundamentais. A primeira, por ter assegurado que a Igreja (repito, a católica, apostólica, romana) não fizesse proselitismo à conta de agradar aos "tempos" e à "ditadura das opiniões" dominantes. Desde 1970 que preferia uma Igreja mais pequena, consolidada na fé e na razão, a uma espécie de feira popular mediática onde "coubesse" tudo e o seu contrário. E a partir desta premissa, então, sim, dialogou sem temores reverenciais, ou preconceitos, com outras crenças. Depois garantiu que, para esse efeito, a  hierarquia e os servidores imediatos da Igreja não "acompanhavam" os "tempos" em matéria de corrupção moral e material. Nunca um Papa foi tão longe na denúncia e punição dos crimes praticados dentro da instituição. Ou deu publicamente conta do imenso vexame íntimo que isso lhe provocou. Há uma semana o Papa surpreendeu o mundo com o anúncio da sua resignação. Mas suspeito que ainda vai surpreender mais. Os diletantes convidados da F. C. Campos Ferreira é que, de certeza, já não surpreendem ninguém.

15.4.12

O essencial



Volta não volta, regressa aquela arremelgada idiotice da "necessidade" de o Vaticano (e, em especial, Ratzinger) se "adaptar" aos tempos que correm. O jornal Público dedica meia dúzia de páginas à coisa e resume-as na seguinte frase: «os católicos têm de repensar a sua relação com uma sociedade que lhes escapa.» Esta frase - e os pressupostos em que ela assenta -, salvo o devido respeito, é um equívoco. Desde logo, a Igreja Católica representada pelo Papa Bento XVI é uma instituição cultural milenar que já viu "passar" demasiados "modelos" societários que a história e a "condição humana" se encarregaram de ultrapassar e, nalguns casos, de irradicar totalmente. A Igreja, por natureza, não funciona pela regra da contingência nem se sujeita ao "historicismo". Eles, os "modelos", passaram e a Igreja permaneceu conforme ao instante fundador: «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.» Depois, Ratzinger é quem menos se importa com a opinião "maioritária" ou que se publica. Desde os anos 70 do século passado que ele afirma que a Igreja deve estar preparada para viver em minoria e não a toque de caixa de "movimentos" ou do "progresso". Na sua primeira viagem apostólica, à Turquia, Bento XVI deslocou-se propositadamente a uma aldeia remota do país para celebrar missa junto de pouco mais de uma centena de fiéis católicos. Este Papa não foi escolhido para ser "estrela pop" ou para abrir telejornais a ler homilias num Ipad. Não possui, aliás, a menor ilusão sobre o homem contemporâneo, o tal que supostamente "lhe escapa" quando ele o topa melhor que ninguém. Bento XVI prefere uma Igreja de poucos, firmes e fortes, a uma Igreja com uma multidão de pusilânimes internos e externos. Quem deve "repensar" a sua relação consigo própria é a sociedade - vazia, indiferente, desesperançada intelectualmente e infantil - à qual "escapa", de facto", o essencial.

1.9.11

O ANTÍDOTO

«El sueño de los católicos progresistas de hacer de la Iglesia una institución democrática es eso, nada más: un sueño. Ninguna iglesia podría serlo sin renunciar a sí misma y desaparecer. En todo caso, prescindiendo del contexto teológico, atendiendo únicamente a su dimensión social y política, la verdad es que, aunque pierda fieles y se encoja, el catolicismo está hoy día más unido, activo y beligerante que en los años en que parecía a punto de desgarrarse y dividirse por las luchas ideológicas internas.¿Es esto bueno o malo para la cultura de la libertad? Mientras el Estado sea laico y mantenga su independencia frente a todas las iglesias, a las que, claro está, debe respetar y permitir que actúen libremente, es bueno, porque una sociedad democrática no puede combatir eficazmente a sus enemigos -empezando por la corrupción- si sus instituciones no están firmemente respaldadas por valores éticos, si una rica vida espiritual no florece en su seno como un antídoto permanente a las fuerzas destructivas, disociadoras y anárquicas que suelen guiar la conducta individual cuando el ser humano se siente libre de toda responsabilidad. Durante mucho tiempo se creyó que con el avance de los conocimientos y de la cultura democrática, la religión, esa forma elevada de superstición, se iría deshaciendo, y que la ciencia y la cultura la sustituirían con creces. Ahora sabemos que esa era otra superstición que la realidad ha ido haciendo trizas. Y sabemos, también, que aquella función que los librepensadores decimonónicos, con tanta generosidad como ingenuidad, atribuían a la cultura, esta es incapaz de cumplirla, sobre todo ahora. Porque, en nuestro tiempo, la cultura ha dejado de ser esa respuesta seria y profunda a las grandes preguntas del ser humano sobre la vida, la muerte, el destino, la historia, que intentó ser en el pasado, y se ha transformado, de un lado, en un divertimento ligero y sin consecuencias, y, en otro, en una cábala de especialistas incomprensibles y arrogantes, confinados en fortines de jerga y jerigonza y a años luz del común de los mortales. La cultura no ha podido reemplazar a la religión ni podrá hacerlo, salvo para pequeñas minorías, marginales al gran público. La mayoría de seres humanos solo encuentra aquellas respuestas, o, por lo menos, la sensación de que existe un orden superior del que forma parte y que da sentido y sosiego a su existencia, a través de una trascendencia que ni la filosofía, ni la literatura, ni la ciencia, han conseguido justificar racionalmente. Y, por más que tantos brillantísimos intelectuales traten de convencernos de que el ateísmo es la única consecuencia lógica y racional del conocimiento y la experiencia acumuladas por la historia de la civilización, la idea de la extinción definitiva seguirá siendo intolerable para el ser humano común y corriente, que seguirá encontrando en la fe aquella esperanza de una supervivencia más allá de la muerte a la que nunca ha podido renunciar. Mientras no tome el poder político y este sepa preservar su independencia y neutralidad frente a ella, la religión no sólo es lícita, sino indispensable en una sociedad democrática.»

Mario Vargas Llosa

(Via Pinho Cardão, 4ª República)

O ANTÍDOTO

«El sueño de los católicos progresistas de hacer de la Iglesia una institución democrática es eso, nada más: un sueño. Ninguna iglesia podría serlo sin renunciar a sí misma y desaparecer. En todo caso, prescindiendo del contexto teológico, atendiendo únicamente a su dimensión social y política, la verdad es que, aunque pierda fieles y se encoja, el catolicismo está hoy día más unido, activo y beligerante que en los años en que parecía a punto de desgarrarse y dividirse por las luchas ideológicas internas.¿Es esto bueno o malo para la cultura de la libertad? Mientras el Estado sea laico y mantenga su independencia frente a todas las iglesias, a las que, claro está, debe respetar y permitir que actúen libremente, es bueno, porque una sociedad democrática no puede combatir eficazmente a sus enemigos -empezando por la corrupción- si sus instituciones no están firmemente respaldadas por valores éticos, si una rica vida espiritual no florece en su seno como un antídoto permanente a las fuerzas destructivas, disociadoras y anárquicas que suelen guiar la conducta individual cuando el ser humano se siente libre de toda responsabilidad. Durante mucho tiempo se creyó que con el avance de los conocimientos y de la cultura democrática, la religión, esa forma elevada de superstición, se iría deshaciendo, y que la ciencia y la cultura la sustituirían con creces. Ahora sabemos que esa era otra superstición que la realidad ha ido haciendo trizas. Y sabemos, también, que aquella función que los librepensadores decimonónicos, con tanta generosidad como ingenuidad, atribuían a la cultura, esta es incapaz de cumplirla, sobre todo ahora. Porque, en nuestro tiempo, la cultura ha dejado de ser esa respuesta seria y profunda a las grandes preguntas del ser humano sobre la vida, la muerte, el destino, la historia, que intentó ser en el pasado, y se ha transformado, de un lado, en un divertimento ligero y sin consecuencias, y, en otro, en una cábala de especialistas incomprensibles y arrogantes, confinados en fortines de jerga y jerigonza y a años luz del común de los mortales. La cultura no ha podido reemplazar a la religión ni podrá hacerlo, salvo para pequeñas minorías, marginales al gran público. La mayoría de seres humanos solo encuentra aquellas respuestas, o, por lo menos, la sensación de que existe un orden superior del que forma parte y que da sentido y sosiego a su existencia, a través de una trascendencia que ni la filosofía, ni la literatura, ni la ciencia, han conseguido justificar racionalmente. Y, por más que tantos brillantísimos intelectuales traten de convencernos de que el ateísmo es la única consecuencia lógica y racional del conocimiento y la experiencia acumuladas por la historia de la civilización, la idea de la extinción definitiva seguirá siendo intolerable para el ser humano común y corriente, que seguirá encontrando en la fe aquella esperanza de una supervivencia más allá de la muerte a la que nunca ha podido renunciar. Mientras no tome el poder político y este sepa preservar su independencia y neutralidad frente a ella, la religión no sólo es lícita, sino indispensable en una sociedad democrática.»

Mario Vargas Llosa

(Via Pinho Cardão, 4ª República)

1.8.11

TENTAR PERCEBER

Muitas vezes me questiono se este homem leu - e ler, aqui, é ler com olhos de ver e de perceber - o teólogo Joseph Ratzinger. É seguramente mais profícuo do que ler, por exemplo, a revista da Ordem dos Advogados.

TENTAR PERCEBER

Muitas vezes me questiono se este homem leu - e ler, aqui, é ler com olhos de ver e de perceber - o teólogo Joseph Ratzinger. É seguramente mais profícuo do que ler, por exemplo, a revista da Ordem dos Advogados.

15.6.11

EM VÃO

D. José Policarpo descobriu agora - "agora", i.e., depois do dia 5 de Junho último - que a lei da interrupção voluntária da gravidez tem vindo a ser aplicada "ao Deus dará". Não só lhe fica mal invocar o nome de Deus em vão como podia perfeitamente continuar calado acerca de uma matéria da qual, aquando do último referendo, praticamente lavou as mãos.

EM VÃO

D. José Policarpo descobriu agora - "agora", i.e., depois do dia 5 de Junho último - que a lei da interrupção voluntária da gravidez tem vindo a ser aplicada "ao Deus dará". Não só lhe fica mal invocar o nome de Deus em vão como podia perfeitamente continuar calado acerca de uma matéria da qual, aquando do último referendo, praticamente lavou as mãos.