A título meramente facultativo, dispus-me a preencher uma candidatura electrónica a um cargo dirigente na administração pública no site da Cresap. Desisti a meio. Para além de me parecer estar a escrever a mesma coisa vezes sem conta, fui-me apercebendo que mais de um quarto de século ao serviço do Estado - que inclui a passagem pela tropa, três inspecções-gerais, uma "autoridade", um "serviço secreto", um cargo de direcção superior (dos tais que a Cresap agora avalia), dois cargos de direcção intermédia e um trabalho de "terreno" na Guatemala e em El Salvador, com o Inspector Geral da Administração Interna, para a Comissão Europeia - não pode "pesar" suficientemente quando olho para a ocupação de determinadas posições de direcção por "biografias" que não faço a menor ideia como é que "encaixaram" naquela parafernália de questões, justificações, cruzinhas e auto-avaliações. Não me refiro apenas à idade de algumas dessas pessoas, o que seria manifestamente reaccionário e politicamente incorrecto. É, sobretudo, a "experiência profissional" para usar um termo recorrente nos vários "passos" da candidatura e, em alguns casos, da ligação desta com o decurso do tempo biológico. Em suma, não tenho de "provar" nada a ninguém a não ser perante mim mesmo. Prefiro permanecer "bicho da terra", "tão pequeno" como o de Camões, a sujeitar-me ao insujeitável apropriado para neófitos e outras espécies em vias rápidas de "progressão". Não admira, por consequência, que alguns dirigentes presentemente em funções, com "experiência", tempo ou as duas coisas simultaneamente, não se disponham a estes "questionários" por mais "independentes" e "isentos" que eles sejam. E que optem por regressar aos lugares de origem ou a casa. A paciência, e não outras coisas mais em voga e comezinhas, sempre tem os seus limites.
3 comentários:
Que curioso!
Por razões de puro diletantismo fiz o mesmo ensaio, com o mesmo epílogo. Também eu, em mais de 30 anos, adjuntei e assessorei "n" governantes, chefiei gabinetes, dirigi superiormente de 1º e 2º nível, em Portugal e em Macau (antes do fax, ou seja, no tempo do General Eanes) instalei secretarias gerais, fui gestor público andei pelos fundos comunitários e até pus de pé a jóia da coroa (Lojas do Cidadão).
E também eu sou bem menor perante as luminárias e arrasadoras personalidades que o Prof. Bilhim descobre para darem corpo a uma Administração Pública que o Governo não entende, não gosta e não quer (desde Cavaco que assim é).
Em boa verdade, quando mergulhei naquele sinistro questionário tive a sensação de que por ali não passa o futuro do país, só passa a o futuro das alminhas que se sujeitam à provação.
Em verdade, só procurava uma coisa: um encontro com o júri, em provas de selecção, para uma conversinha sobre temas mais sérios do que aquela orgia de baboseira. Sobre o Estado e a sua reforma, por exemplo, sobre o serviço público e o sentido de Estado. Sobre lealdade e fidelidade, o seu estranho antónimo.
Mas nós somos os filhos de um Deus menor, sem assento no Olimpo destas efémeras divindades.
Em tempos guterristas, o meu marido candidatou-se a um cargo público de chefia, ao qual se candidatava também uma criatura com metade (sou generosa...) da sua idade, da sua experiência , da sua competência e dos seus neurónios. Como o "menino" tinha o cartãozinho partidário da época, estava antecipadamente escolhido. Assim, sabendo que perdia em todos os campos para o meu marido, beneficiou dum parâmetro totalmente subjectivo - a motivação - é ganhou o concurso. É o país que temos, a gente que temos e dá, sem dúvida "vontade de morrer". E às vezes interrogo-me como é que uma pessoa que provavelmente será bondosa e bem formada, como Guterres, conseguiu que o seu Governo fosse um ninho para muitas das víboras que ainda hoje nos atormentam.
Como sou mais novo, pergunto: mas alguém neste país acredita na meritocracia? Há vivalma que confie no esforço e no mérito? Seja qual for o governo, instituição, organização, empresa, as pseudo-elites, ignorantes e sujas, são muito interventivas: diz-me quem te ampara as costas e eu dir-te-ei quem és... Chegamos onde chegamos por muitas razões, mas Portugal é pior que uma pocilga... Vai dar mais ou menos esta notícia: http://www.ionline.pt/artigos/mundo/reino-unido-john-major-diz-dominio-da-elite-educada-escolas-privadas-verdadeiramente
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