22.11.12

Da competição à cooperação






«Vivemos agora as diabólicas sequelas deste incontestável triunfo da competição. Seja na Europa, onde a cooperação se revelou a grande falha que abriu o abismo em que hoje nos encontramos, seja no plano civilizacional em que, como Daniel Cohen explica no seu livro Homo Economicus, ele acabou por conduzir ao maior dos paradoxos da nossa época, que consiste em que "a economia é suposta assumir a direcção do mundo, num momento em que as necessidades sociais migram para sectores que dificilmente se inscrevem na lógica mercantil. A saúde, a educação, a investigação científica, o mundo da Internet formam o coração da sociedade pós-industrial. Nenhuma entra no modelo económico tradicional. Quando a criatividade humana é mais elevada do que nunca, o homo economicus impõe-se como um triste profeta, um desmancha-prazeres dos novos tempos." Só a revitalização do imperativo de cooperação poderá salvar a Europa. O que se passou na terça-feira na reunião do Eurogrupo com o FMI, com o bloqueio de alguns países à inevitável reestruturação da dívida grega, revela bem o impasse "competitivo" a que chegámos. E o que se anuncia com o programa Erasmus, em risco de acabar por falta de financiamento, é um alerta bem vermelho... Só este imperativo permitirá superar as tensões existentes entre a austeridade e o crescimento, o egoísmo e a solidariedade, o directório e a colegialidade. A cooperação é a chave perdida da União Europeia, a via para o reencontro com a sua vocação original e o seu adiado destino. Era disto que, na verdade, devia ocupar o Conselho Europeu.»


 


M.M. Carrilho, DN

4 comentários:

Ilídio Neves disse...

O que impressiona neste comentário crítico sobre as dificuldades do processo de decisão europeu (demoras, dilações, atrasos, burocracia, comlpexidade, egoísmos nacionais, falta de solidariedade, etc.), muito frequente no discurso «moralista» da nossa elite nacional (o próprio Presidente da República não se coibiu em tempos de criticar aquilo que chamou a «cacofonia» dos dirigentes europeus) é o facto de se fazer tábua raza das dificuldades próprias de fazer convergir 27 (17 no caso do euro) governos europeus de estados soberanos, que foram eleitos pelos respetivos povos e que dependem dos parlamentos nacionais, como é inertente a uma genuína democracia. Esta visão utópica ou irrealista alimenta-se de «sonhos» sem base sociológica, política e histórica e de frases sonantes (mais Europa, aprofundar a Europa, integração europeia, união política), politicamente corretas, cujo exato sentido ninguém conhece ao certo, mas que alimentam a alma e permitem perpetuar as ilusões, não obstante o fragor com que estas se esboroam ao embaterem nas paredes graníticas da realidade. A crise do euro é uma das mais dolorosas manifestações desta falta de «realpolitik» dos dirigentes europeus. Agora, é natural que estejam atarantados.


Manuel Sousa disse...

Daniel Cohen?!!!!!!! Por favor nao me faça rir mais!!!! Que desconsolo. Daniel Cohen... AhAhAhAh

Vasco disse...

Não se iludam mais. A "Europa" acabou.

Vasco disse...

Apesar daquela ortografia manhosa de segunda categoria, o comentário do Ilídio é de primeira água. Concordo em absoluto. O dr. Carrilho não deixa de sofrer da mesma maleita de alguns seus ex-colegas de partido e de loja (isto agora já é especulação...): forçar as pessoas a experiências retiradas de livros de ficção pouco científica. Não é totalmente maligno, mas frequentemente leva a buracos como aquele em que estamos hoje.