Independentemente de quaisquer outras considerações, mais uma vez o Jornal de Angola dá-nos um bom exemplo de como o jornalismo pode contribuir para a solidez da língua portuguesa sem pruridos "acordográficos" ou complexos de outro tipo. «Camões, faminto de tudo, até de pão, na hora da partida desta vida, descontente, ainda foi capaz de um último grito de amor. Morreu sem nada, mas com a sua ditosa e amada pátria no coração. Ele que sofreu as agruras do exílio e foi emigrante nas sete partidas, escorraçado pelos que se enfeitavam com a glória de mandar e a vã cobiça, morreu no seu país. O mais universal dos poetas de língua portuguesa deixou-nos uma obra que é o orgulho de todos os que falam a doce e bem-amada língua de Camões. Mas também deixou, seguramente por querer, a marca das elites nacionais que o desprezaram e atiraram para a mais humilhante pobreza. O seu poema épico acaba com a palavra Inveja. Desde então, mais do que uma palavra, esse é o estado de espírito das elites portuguesas que não são capazes de compreender a grandeza do seu povo e muito menos a dimensão da sua História. Nós em Angola aprendemos, desde sempre, o que quer dizer a palavra que fecha o poema épico, com chave de chumbo sobre a masmorra que guarda ciosamente a baixeza humana. A inveja moveu os primeiros portugueses que chegaram à foz do Rio Zaire e encontraram gente feliz, em comunhão com a natureza. Seres humanos que apenas se moviam para honrar a sua dimensão humana e nunca atrás de riquezas e honrarias (...) “De sorte que Alexandre em nós se veja,/ sem à dita de Aquiles ter inveja.” Estes são os dois últimos versos de Camões no seu poema épico. Os restos do império, que estrebucham na miséria moral, na corrupção e no embuste, deviam render-se à evidência. Angola não é um joguete! Nós somos Aquiles! Tão grandes e vulneráveis como ele. Mas não tenham Inveja do nosso êxito, porque fazemos tudo para merecê-lo.»
3 comentários:
teria escrito este texto se fosse capaz
De acordo quanto ao "acordo". Quanto à prosa, muito haveria a dizer... Tendenciosa, quase insultuosa e Camões citado a despropósito, já que as referências a Alexandre e Aquiles apenas se integram no plano geral da obra , que pretende engrandecer os nautas portugueses face aos heróis da Antiguidade "inda que foram verdadeiros". Depois, essa história do povo que vivia feliz antes de por lá
aparecerem os europeus também me parece ficção. Não acredito no mito do "Bom Selvagem".
Gostei daquela passagem da "gente feliz e em comunhão com a natureza". Só lá faltava o chato do Robinson e um sexta feira para todo o serviço. Era gente felicíssima e tanto, tanto, que até logo engendrou o conhecido esquema da captura dos seus "compatriotas", indo-os vender à costa. Belo negócio.
*Apesar de tudo e entre os normais delírios acerca da "vitória militar" numa frente de "batalha" que em 74 apenas assistia a patrulhas, o texto diz algumas verdades bastante incómodas.
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