15.11.12

Sem fanatismos e fatalismos






«Nada desculpa (...) a irresponsabilidade política de quem não percebeu as consequências de quase dobrar a divida pública entre 2005 e 2011, como aconteceu em Portugal. Mas o ponto, agora, não é tanto o de saber como se chegou aqui, mas sobretudo o de saber como sair daqui. E nesse sentido é fundamental tirar todas as ilações dos factores que se alteraram no decurso da última década, e do sucessivo impasse em que se tem vivido nos últimos três anos. É suicida continuarmos amarrados à ilusão europeia, ignorando estes factores. Nomeadamente, sem se ter em conta que a especialização produtiva dos países do Sul da Europa não lhes permite, por maior que seja a austeridade, sair no curto prazo da crise apenas pela via das exportações. Só a via federal, com união de transferências - sejam elas orçamentais, fiscais ou sociais -, responderá à gravidade da crise europeia. O montante dessas transferências foi de resto já apurado (cf. Natixis, "The cost of federalism in the euro zone", 16/07/2012), ele corresponde aproximadamente a 1.4% do PIB da Zona Euro. Nada de extraordinário, portanto - e numa zona económica de moeda única, o jogo das transferências garante benefícios para todos, apoiando ora mais uns, ora mais outros, conforme as circunstâncias. Os tempos são, hoje, de grande incerteza. Mas o pior modo de a enfrentar é - como tem acontecido - combinando o fatalismo dos problemas com o fanatismo das soluções. É isto que é urgente mudar.»


 


M.M. Carrilho, DN

6 comentários:

Nelson Marques disse...

Simples e claro!

Concorde-se ou não com a solução que o autor certamente preconiza, nada há de mais importante na agenda política do que pensar, aqui chegados, no como "sair disto".

As contribuições desse cidadão são pois de um enorme valor. Primeiro porque não parecem ser muitas as vozes públicas que o fazem com credibilidade; segundo, e mais importante para mim, tendo em conta a sua área ideológica que tantas vezes nos espanta pela Praxis maquiavélica que implementa.

Votos de bom trabalho!

Ilídio Neves disse...

O equívoco de M.M. Carrilho e de todos os que defendem a via federal como simples «união de transferências» (uma espécie de toma lá dá cá a nível europeu) é esquecerem a indeclinável exigência da «união de responsabilidades», que implica a adoção de novas políticas com transformações estruturais exigentes e dolorosas, necessárias para aumentar a competitividade. A este respeito é bom lembrar um recente artigo da The Economist, que qualifica a França como a grande bomba relógio da Europa, exatamente por causa do grave problema da competitividade.

migooloplo disse...

"a irresponsabilidade política de quem não percebeu as consequências de quase dobrar a divida pública entre 2005 e 2011"

parei aqui.

mas caramba, o pessoal esquece-se da principal razão para esse aumento? que houve um estrondo financeiro em 2008 da qual um peão como Portugal não teve mais do que um papel de figurante?

e é repetido, copiado e colado em blogs, como justificação para a nossa sina inevitável. "gastámos há que pagar"!

Marão disse...

Lido no "Blasfémias”:
"O secretário-geral do PS, António José Seguro, afirmou hoje que, se assumir as funções de primeiro-ministro, a austeridade económica e financeira será uma “necessidade” mas não uma estratégia prioritária por parte de um seu Governo.”
" Disse “uma necessidade”? "Aconteceu alguma coisa de ontem para hoje, ou já é ministro"?

Fernando Martins disse...

"mas caramba, o pessoal esquece-se da principal razão para esse aumento? que houve um estrondo financeiro em 2008 da qual um peão como Portugal não teve mais do que um papel de figurante?"

E isto justifica que a dívida duplicasse? Ou seria antes a política das autoestradas pagas a amigos a peso de ouro, as Escolas com candeeiros Siza Vieira, o ar condicionado nas Escolas que nunca funcionará e que está ultrapassado tecnologicamente, os Magalhães e e-escolas a rodos, o material informático na Escolas aos montões, as negociatas com os amigos, os estádios elefantes brancos mantidos estupidamente, o descontrolo da verificação das contas do governo nacional, dos regionais e das autarquias, os Aeroportos e TGV's, as pontes que têm de ser construídas, as PPP generosamente (e duplamente) negociadas?

Nuno Castelo-Branco disse...

Por outras palavras, a Grande Prússia. Vendo bem as coisas, talvez o Kaiser estivesse carregado de razão e sempre teria sido muito mais suportável do que Hitler e Estaline Honnecker . Já experimentaram olhar politicamente para sudoeste, além-Atlântico ? É que houve quem o tenha feito há 200 anos!