30.11.12

Imperfeição


 


Um amigo pediu-me para tentar encontrar no torvelinho dos textos de Eduardo Prado Coelho um sobre um político português contemporâneo que se retirou recentemente. Não encontrei esse texto mas fui parar a outro sobre o casal Michaux. A mulher de Henri Michaux ficara grave e irremediavelmente ferida, queimada, depois de um fogo em casa. Internada num hospital, todos os dias Henri a visitava e procurava falar com o que dela restava. Isso vem descrito num livro autobiográfico cujo título me escapa agora. No desalinho da sua vida e da sua obra, Michaux acabou por sumarizar toda essa luminosa imperfeição que é a vida (a dele, a minha, a de quem quer que pense e, consequentemente, perca)  nesses momentos finais junto de Lou, a mulher. Anos mais tarde, Peter Sloterdijk "recuperou" esta história (de amor e morte, naturalmente) no livro O Sol e a Morte. «Poderíamos dizer que [Michaux] teve de esperar pelo meio da vida para fazer essa mesma experiência da perda que para muitas pessoas começa logo no dealbar da existência, ou seja, o descobrimento traumático de que o Outro íntimo se tornou inalcançável e que, por conseguinte, uma pessoa tem de enquistar-se em si mesma e endurecer-se. De modo geral, resulta inclusive válida a sabedoria de que só poderá converter-se num indivíduo independente aquele que sabe de uma vez por todas ou que quer saber o seguinte: «No fim, ficarei só.»

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