
Nos últimos dias de 2012, Portugal foi sacudido por um delíquio regionalista com epicentro no Porto. Volta não volta, este país pequenino como uma caixa de fósforos sofre acometimentos deste género. Uma estrada, uma estátua, um estaminé qualquer, tudo pode de repente servir de pretexto para a "indignação" e para meia dúzia de apelos estimáveis a manifestações e "cordões humanos". A ANA foi privatizada. Pois logo se "descobriu" que há ali uns terrenozinhos à volta do aeroporto Sá Carneiro que é preciso "salvar". A Casa da Música não vai receber aquilo com que o anterior responsável pela Cultura se tinha comprometido e, como sucedeu com Pires de Lima e Sócrates por causa de Berardo (um "empreendimento" que granjeou ao Estado e aos contribuintes um inesquecível" sucesso" financeiro que Francisco José Viegas teve de resolver), os ditos "cordões" apelam a que Passos Coelho "resolva" por cima do seu Secretário de Estado. Finalmente a anunciada transumância de uma coisa chamada Praça da Alegria, e de mais não sei quê, da RTP Porto para a RTP Lisboa não cessa de provocar sonoros transportes nas "elites" da Invicta, mesmo nas suas formas de vida mais inteligentes como é o caso de Paulo Rangel. O regionalismo não é bom conselheiro. A macrocefalia centralista também não mas, no caso específico da RTP Porto, por exemplo, o que está em causa é o voto autárquico de 2013. Nenhum putativo candidato ao lugar de Rui Rio faltará com uma velinha acesa ao Monte da Virgem. Pelo meio, os ideólogos do serviço público de televisão - que estão em todo o lado porque tal "ideologia" é, afinal, sistémica e regimental - aproveitam a boleia para fazer o seu "número" em prol de uma RTP para a qual olham como, na Índia, os nativos contemplam uma vaca sagrada. O que é que isto tem a ver com a ideia de país? Tudo. Até filologicamente, a tremenda palavra "portugalidade", trocada uma vogal por outra, começa onde um homem quiser e lhe der mais jeito. É como se a ideia de, no caso, uma região pudesse ser definida por uma televisão, mais adequadamente por um bocado de uma televisão que é nacional, por um conteúdo específico da referida "portugalidade" aludida por Miguel Tamen noutro contexto: «repetimos assim para nós próprios a exclamação satisfeita que com melhores razões Winston Churchill (vem a propósito, acrescento eu, do exclusivo da patente "liberal" que o Porto tanto gosta de reclamar) tivera: What a chicken, what a neck!»
Adenda: A Casa da Música é um equipamento cultural nacional à semelhança do Teatro Nacional São João. "Regionalizá-los" só diminui a sua indisputável dimensão cosmopolita. A RTP Porto não me interessa.
14 comentários:
O João Gonçalves tenta reduzir esta coisa do regionalismo nortenho a um assomo bairrista em defesa de um programita de televisão. O João Gonçalves engana-se de assunto e tropeça num simplismo fácil mas de efeito assegurado.
O problema não é uma discordância, que tenho de respeitar, mas uma maneira que não o prestigia. O seu vol d’oiseau sobre os “terrenozinhos” do aeroporto Sá Carneiro, a sua passagem como sobre brasas do garrote que o nóvel Secretário quer impôr à Casa da Música, as suas referências ao estaminé, à estátua, à estrada (esqueceu-se do fontanário mas teve a elegância de não mecionar o campanário, bravo!), tudo isso é muito giro e prezo-lhe a habilidade literária, mas mostra a meu ver algo de que o próprio João Gonçalves talvez ainda não se tenha apercebido: o seu desconhecimento do que é a vida a norte, do quotidiano das gentes do Porto, de Braga, de Guimarães ou de Chaves, e da sobranceria quase insultuosa com que as autoridades do Terreiro do Paço decidem sobre estes “provincianos” a que o João chama “elites” da Invicta.
Digo-lhe isto não em ‘patronizing’ ou tom condescendente mas porque conheço muitas outras pessoas quase tão cultas e inteligentes como o João e que partilham dessa sua mesma desconfiança face a estes assomos nortistas (ia a dizer nortenhos); têm todos em comum, como o meu próprio irmão que vive há mais de 40 anos em Lisboa, o serem habitantes de Lisboa ou aí nascidos. Se um dia vier ao Porto e não se importar de lidar umas horas com gente mediana como eu, terei muito gosto em lhe dar guarida em minha casa e em reunir outros vulgares que lhe tentarão demonstrar que isto não é uma terra de grunhos. As melhores saudações.
Caro "Douro", ninguém gosta mais do Porto do que eu. Vou e venho sempre com muita alegria. Lá privei com Agustina, Oliveira e outros, e aí reside o meu querido amigo Ricardo Pais. O meu "ponto" - e não tenho culpa que ele se centralize (palavra maldita) no Porto - é a regionalite. Não gosto, mesmo que seja em Lisboa. O cosmopolitismo é exactamente o contrário do regionalismo (ou da bairrice) e nós já temos obrigação de ser cosmopolitas há umas boas décadas. Não leia no meu post qualquer registo de sobranceria lisboeta porque, entre Lisboa e Paris ou Istambul, por exemplo, não hesito. Calhei em Lisboa, só isso. Por outro lado, não posso aceitar que um Porto cosmopolita se reveja em coisas como a Praça da Alegria (ou, para não reduzir a coisa à RTP, em coisas como Casas de Segredos em que a maioria dos participantes, por descaso, são "do norte"). A Casa da Música é um equipamento cultural nacional que por acaso está sediado no Porto. Abraço.
Se há pessoa que respeito entre bloggers é João Gonçalves. Quanto ao bairrismo nortenho não posso concordar com a sua análise superficial. Eu nasci em Lisboa, estou há muito no Norte. Esta região tem pouco a ver com o Sul, em particular com Lisboa.
Não se admire que haja gente de bem, farta do colonialismo a que tem estado sujeita.
A Galiza está mais perto de nós. Se um dia houver um referendo do Alentejo e Ribatejo para cima, sobre a união ente o Norte de Portugal e a Galiza o resultado surpreenderá.
A dimensão do território não é relevante. Estamos a falar de uma região, pode entregar a bandeira ao costa para ele a içar ao contrário. Hoje em dia as oligarquias mundiais só toleram os países enquanto a ilusão dos néscios servir os seus propósitos.
Pode tocar o hino mas baixinho.
Heróis do mar - poucos nadam,
nobre Povo - já foi,
Nação valente, imortal - hoje protectorado,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal - poupem-se os comentários!
Entre as brumas da memória - a amnésia é a doença da moda,
Ó Pátria, sente-se a voz - só se for nos estádios da bola
Dos teus egrégios avós - sinto-os remexerem-se na tumba,
Que há-de guiar-te à vitória - só se for para espantar a troika
Às armas, às armas - lembrança de um passado recente feito de traições
Sobre a terra, sobre o mar - tudo muito poluído,
Às armas, às armas - resquícios de guerras perdidas!
Pela Pátria lutar - isso é que era bom!
Contra os canhões marchar, marchar - nem mais um soldado para lado nenhum!
Meu caro, como diria o imortal João Baião, está na hora de ir fazer o seu chichizinho. Bom ano.
Já fiz e não mudei de opinião
Cheguei aqui alertado por um amigo.
Não conhecia o blog, nem nunca tinha ouvido falar do "postador ".
Sou assim insuspeito de pré conceito, muito menos de preconceito.
vou comentar só a post e os comentários, não me levem a mal, ou, se levarem, tenham paciência.
Li um post escrito por quem não conhece o Porto, julgando que o conhece por ter cá vindo e ter privado com "gente fina", ou por quem, conhecendo-o, lhe dá jeito fazer de conta, a bem da "posta".
Claro que a maioria de nós é constituída por "grunhos", é verdade aqui no Porto, mas é igualmente verdade em Lisboa, em Braga ou em Coimbra.
Gente bem formada, como V. Excia e os seus contactos finos cá do burgo, são sempre minorias, as tais "elites".
Paciência, terá que se habituar e se calhar andar com um lencinho cheiroso de água de colónia para o ajudar a suportar o incómodo.
Agora mais grave do que o seu desgosto com os seus concidadãos é a sua ignorância quanto ao que é a regionalização, quanto ao que justifica a regionalização, não sendo sequer capaz de discernir que os "episódios" que referiu (o aeroporto, a casa da música, a praça da alegria...) mais não são do que meros episódios, mas episódios que são mais do que reveladores do que acontece quando as decisões são tomadas por ignorantes fechados nos seus gabinetes em Lisboa, que não conhecem nem querem conhecer o país, e decidem com a sua suprema arrogância de ignorantes.
Não espero que V. Excia seja capaz de compreender isto, pelo seu texto dá bem para ver que não...
Mas para seu bem, espero que tente perceber que faria mais pela sua credibilidade não opinar sobre o que ignora.
Gosto muito do Porto, a minha namorada vive em Gaia.
E isso leva-me a ficar intrigado com o Vinho do Porto que se cultiva no Douro, é armazenado em Gaia e exportado em Leixões.
Nunca vi nenhuma videira na Rua de Santa Catarina.
Podem os portuenses fazer alarido por muita coisa mas começarem a gritar porque uma coisinha chamada Praça da Alegria feita em Gaia vem para Lisboa é de rir.
Também é de rir o "cordão humano".
É bom como folclore mas o povo tem outras ideias, por favor consultar o on-line do Jornal de Notícias.
Meu caro João Gonçalves,
Essa famosíssima palavra cosmopolita, muito utilizada, claro, em meios (e por) desejosos de se afirmar "acima das pátrias" e dos povos, têm sido imagem de marca de muita tragédia. Lembro as grandes invasões imperiais, de Gengis Khan a Krushev, passando por Napoleão, as grandes arrogâncias convencidas que mais mundo é o “nosso”, onde entre “muitas” línguas impomos a nossa e o nosso modo e, evidentemente, os nossos interesses.
Massamá deve ser hoje um dos centros mais cosmopolitas em Portugal. Muitas nacionalidades (ucranianos, moldavos, brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, portugueses, etc.), muitas línguas, muitas cozinhas e suas adaptações, e além disso ed acima disso uma ideia acima das pátrias (contra até), de todas, desde aquela de origem que lhe não deu garantia de sustento e por isso se lhe evadiram, até à actual que não lhe dá futuro. Isto quer dizer que Massamá é habitada por “cidadãos do mundo”, que estão com certeza despreocupados, tal como o Jorge Gonçalves, pela ideia de região e de pátria, com a diferença que a sua apatridia está mais ligada ao matar a fome do que a do Jorge, que deriva da superação ideal desse “pecado original “ que é o de ter nascido nalgum lado e lhe permanecer apegado.
O meu caro João Gonçalves confronta de uma forma deliberada - porque o vejo homem sabedor (logo, imputável) - cosmopolitismo com regionalismo e, mesmo (adivinha-se) nacionalismo. Mais, incompatibiliza-os.
Sendo do norte e do Porto, com dezenas de anos de vivência forânea, não necessito muito de procurar o que quer que esse “cosmopolitismo” signifique. Quem negoceia em vinho, carne, têxteis, castanha, desde o século XI com a Europa do norte, e tem conterrâneos em toda a parte do mundo, demonstra pela sua vida essa capacidade de se adaptar aos outros e de os atrair até a viver na sua terra (os britânicos, p.e.).
Estou farto de encontrar gente que viaja a cada momento, que viveu dezenas de anos nas grandes metrópoles do mundo, que renega ou olvida as suas origens e que é incapaz do menor raciocínio universalista ou humanista (veja em Portugal os quase inexistentes frutos para o quotidiano dos portugueses, das constantes e repetidas viagens que a nossa classe média empreendeu nos últimos 30 anos).
Conversa de cosmopolitismo é, quase sempre, complexo de autoafirmação no mundo. O cosmopolita não necessita tanto de se declarar, vive-o, e vive-o mesmo que raramente ou nunca tenha saído do seu local de nascimento, pela hospitalidade, pela abertura à ideia diferente, pela capacidade de ver e de respeitar o que está para aquém e além do monte, do rio ou da praia que tem por horizonte.
E, infelizmente para si, meu caro Jorge Gonçalves, e ainda bem para mim e para muitos milhões de seres humanos, cada um de nós tem uma região e uma pátria, e é precisamente por eu ter uma região e uma pátria (e uma língua), e saber o que isso significa, que eu poderei ser um cosmopolita, isto é, um nortenho português, cidadão do mundo.
Com um abraço tripeiro universal do seu
Joaquim Pinto da Silva
Com todo o gosto do contraditório que o seu post suscita, devo dizer que, perante as ameaças que sempre rondam o aeroporto, o porto, o metro, e não sei o que mais, na região do Porto (e visto à escala regional do Norte), pondo em causa o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos seus habitantes, chamar "delíquio regionalista" às preocupações repetidamente assumidas por diferentes protagonistas e entidades ao longo das últimas duas décadas parece-me desadequado.
Até o exemplo da Praça da Alegria é característico da tendência de "nacionalizar" produtos de sucesso com origem "regional", reforçando a suspeita (ou certeza) da deslocação de recursos, investimentos, fundos comunitários, etc, para alimentar o grande eucalipto que ensombra o território .
Por não ser masoquista, entendo que é o Norte (não só o Porto) quem tem responsabilidades neste estado das coisas, em primeiro lugar. Basta ver o empenho dos locais (empresários, políticos, cidadãos em geral) quando entram na "globalização" e mudam-se para Lisboa (mudando de discurso).
Estou certo que o João até está melhor informado sobre estes assuntos, que lhe repugna a "macrocefalia centralista", que aprecia o Porto, mas por isso mesmo torna-se mais doloroso constatar como existe uma diferença tão acentuada na percepção da realidade que, para uns, é a da necessidade do Norte criar estruturas para poder se opor ao centralismo e orientar o seu desenvolvimento, enquanto para outros trata-se, talvez, duma reacção histérica de virgens ofendidas.
Desculpe a extensão do comentário e votos de Bom Ano Novo!
Sobre estes arremedos de regionalismo, o Rui Reininho disse há anos numa entrevista algo como "é engraçado ver os meninos ricos do Porto a queixarem-se".
Mas esta invectiva enriqueceu-nos o léxico: quem se lembraria de um "sobressalto cívico"?
Faz todo o sentido recordar as enormes desigualdades e injustiças que as assimetrias regionais acarretam.
Neste aspecto, o Porto, é quem menos terá razão de queixa, mas a verdade é que se trata do único local onde ainda existe uma opinião alternativa à capital!
Este Estado centralista assemelha-se a um esquema ponzi, onde os impostos cobrados em todo o País servem ara sustentar uma corte na capital.
http://jornalismoassim.blogspot.pt/2012/11/o-tabu-das-assimetrias-regionais-em.html
Sim, tem razão, é uma corte.
E onde está o bobo?
Aceito ideias e dou uma sugestão, o estimado Galp-Fernando Gomes ex-presidente do Porto e grande suspirador do FCP .
(Bom Ano, a sério e sem sardonismos)
E há poucas semanas atrás, Pinto da Costa aludiu à "data importante" de 2013: a das eleições autárquicas. Já esfrega as mãos com a possibilidade de Menezes chegar ao poder. O mesmo Menezes que cedeu (sim, cedeu) os terrenos da CM Gaia para que o FQP construísse o centro de estágio.
Viva o sobressalto cívico.
A falta de imparcialidade e a desonestidade intelectual deste Fado Alexandrino são ridículas: a cegueira clubística, aliado à medíocre argumentação (reflexo de uma inteligência débil) impedem-no de ver as coisa como elas são, e acaba por levar as questões sempre para o futebol. O Aeroporto Francisco Sá Carneiro também não está geograficamente localizado no Porto, mas sim no concelho da Maia, e nem por isso deixamos de ver esse "sobressalto cívico". E não é pelo Vinho do Porto não ser produzido, armazenado ou despachado na cidade do Porto, que os portuenses vão deixar de valorizar um produto valoroso. Referir ainda que na multidão a clamar pela manutenção da Praça da Alegria na RTP Porto estavam muitas pessoas não portuenses , porque o problema não é meramente ou exclusivamente portuense, ou futebolístico , como este Fado o quer apresentar.
Enviar um comentário